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Quanto tempo leva desde que um sujeito se converte até que ele se transforme em um autômato idiotizado a buscar obsessivamente uma impossível coerência entre sua vida e as encíclicas papais? Qual é o caminho que leva a essa postura? Quais são as causas dessa pauperização do sentimento católico? Por que isso não parece acontecer com mulheres na mesma proporção que com homens?

Além disso, adianta estudar profundamente em que medida a Igreja (entendida no sentido mais abrangente e espiritual, não como instituição, e muito menos como instituição moderna) exige ou espera concordância entre os documentos não-dogmáticos da Santa Sé e os atos, as palavras e até as análises sociológicas, históricas e filosóficas de um católico? Quando pergunto se “adianta”, quero indagar com isso se a impugnação dessa postura não estaria em um plano mais concreto, como o das obras praticadas pelo tipo humano em questão; isto é, em vez de entrar em questões espinhosas como a da abrangência da infalibilidade do Papa e do Magistério, não seria mais viável e eficaz analisar se esse tipo – que se poderia denominar “legalista eclesial” ou, simplesmente, fariseu – produz amor ou ódio com seus atos, julgamentos e censuras?

Outro problema: em que medida uma filosofia, ou um conjunto qualquer de interpretações sociológicas, históricas, psicológicas etc, de um indivíduo podem ser julgados coerentes ou não com encíclicas e com normas do direito canônico? Essa exigência me parece implicar uma limitação metodológica e até ontológica das ciências sociais. A limitação, em si, não traz nenhum problema. Mas advinda da Igreja, pressupõe que esta, em suas disposições escritas já existentes, abrange a totalidade da realidade, ou seja, todo o mundo das possibilidades. Se assim fosse, não haveria sentido em dizer que a Igreja é o corpo de Cristo na terra. Nesse caso ela seria a própria Cabeça, o próprio Deus, e não “na terra”, mas em todo o lugar e para além (pois não estaria sujeita às limitações intrínsecas que a realidade impõe ao conhecimento).

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Fonte: Hitória do Brasil, de Pedro Calmon, Vol. 2, p. 468.

Perdão

Uma das coisas mais importantes e grandiosas que aprendi com meus pais foi a perdoar. E aprendi com o exemplo, apenas, porque no discurso parecia coisa diversa. Todos nós lá “em casa” sempre tivemos o hábito de criticar as pessoas, de apontar entre nós o que elas faziam de errado conosco e com os outros, mas o curioso é que o rancor nunca se enraizava em nós, em mim. Sempre reencontrávamos com grande prazer os parentes e amigos, conversando e rindo com quem parecíamos antipatizar em palavras quando distantes de nós.

Lembrando isso tudo hoje, percebo como o exemplo é mais importante que a “pregação”. Meus pais, praticamente ateus declarados, são uns corações-moles, sempre empatizando com os erros dos outros e preocupando-se com os problemas alheios, ao ponto até de pôr em segundo plano os seus próprios e de fugir do convívio social para menos sofrer com os padecimentos dos outros. Que irônicos são os caminhos de Deus: ensinar o perdão por meio dos “ímpios” – em aparência, daí as aspas. O que, sim, não vem nunca entre aspas é o amor!

Pedro Calmon (Hist. do Brasil, vol. 2), fala das cartas jesuíticas e sua influência sobre a cultura humanística brasileira.

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Contrição

Sintamos aborrecimento por nós mesmos quando pecamos, porque os pecados aborrecem a Deus. Já que não estamos sem pecado, ao menos nisto sejamos semelhantes a Deus: o que lhe desagrada, desagrade também a nós. Em parte tu te unes à vontade de Deus, por te desagradar em ti aquilo mesmo que odeia aquele que te fez.

Santo Agostinho

Uma das virtudes mais importantes que um intelectual cristão deve cultivar em seu coração hoje em dia é a disposição para acreditar no potencial de burrice do ser humano moderno, que é inefável. Essa virtude é uma das características essenciais do pensamento conservador, e uma de suas grandes qualidades. Muitas pessoas não conseguem compreender ou analisar profundamente a mente moderna, por não acreditarem sequer na possibilidade de existência de certas visões de mundo distorcidas que observamos hoje nas sociedades, isto é, por não terem sido modernas o suficiente em sua formação. Nesse caso, quem estava mergulhado na merda e depois emergiu está em uma situação de vantagem em relação a quem esteve protegido das insanidade do mundo contemporâneo desde a infância. Quem nunca esteve mergulhado na merda deve ler literatura e assistir a filmes ruins, para assim se vacinar e se empatizar com a torpeza humana atual e ser então capaz de compreendê-la melhor para combatê-la de algum modo.

“A definição adotada pelos constituintes reflete a confusão entre ‘cultura’ no sentido antropológico e ‘cultura’ no sentido pedagógico. A primeira é um esquema descritivo, a segunda é um critério axiológico, valorativo. Erigir em valor a ‘cultura’ no sentido antropológico é um erro primário, pois, antropologicamente, a antropofagia, a escravidão ou a prostituição de crianças são tão culturais quanto rezar ou ajudar os pobres. A origem desse erro está numa outra propensão da cultura brasileira: o seu sociologismo. Consiste na hegemonia das Ciências Sociais sobre os demais setores do conhecimento, incluindo a Pedagogia e a Filosofia.”

[Olavo de Carvalho, em O imbecil Coletivo]

 

Essa nota de rodapé representa uma das primeiras vezes em que eu me identifiquei com algo que o professor Olavo havia escrito. Lembro-me de que estava na faculdade e cursava uma disciplina de antropologia. O texto a que a nota se refere também é maravilhoso. Vejamos:

 

“O ‘sentimento nativista’ brota entre os poetas do Brasil-Colônia, de início como vaga mistura de amor à paisagem com idéias antilusitanas. Ganha força com a Independência, tingindo de ‘cor local’, nos temas e na linguagem, as principais produções do Romantismo, e torna-se um programa explícito com Gonçalves Dias. Em 1872, fazendo o balanço de cem anos, Machado de Assis já assinala o ‘instinto da nacionalidade’ como a principal marca da nossa literatura. O instinto torna-se militante e agressivo no Modernismo de 1922, e na década seguinte ganha foros de profundidade científica na obra de Gilberto Freyre, que inspira a uma multidão de escritores e investigadores um movimento pela “redescoberta do Brasil “. Os anos 50-60, com os debates no ISEB, fazem do nacionalismo a doutrina pelo menos oficiosa do Estado, ao mesmo tempo em que o líder desta entidade, Álvaro Vieira Pinto, ergue sobre os conceitos de ‘nação’ e ‘desenvolvimento nacional’ toda uma Weltanschauung filosófica, ou pseudofilosófica. A consagração suprema vem em 1988, quando a Assembléia Constituinte, nascida do mais amplo movimento popular de nossa História, estatui como cultura tudo quanto seja ‘expressão do modo de vida’ do povo brasileiro. Aí o conceito de ‘nacional’ sobrepôs-se declaradamente a todos os demais critérios de valor de uma cultura: a beleza, a elevação moral, a eficácia no domínio sobre a natureza, a força pedagógica e até a veracidade pura e simples: se é brasileiro e expressivo, se é expressivamente brasileiro, é cultura. Paulo Coelho, por exemplo, ou Gugu Liberato.”

 

Creio que essas observações, devidamente contextualizadas e proporcionadas, aplicam-se a qualquer nacionalismo.

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