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Pedro Calmon (Hist. do Brasil, vol. 2), fala das cartas jesuíticas e sua influência sobre a cultura humanística brasileira.

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Contrição

Sintamos aborrecimento por nós mesmos quando pecamos, porque os pecados aborrecem a Deus. Já que não estamos sem pecado, ao menos nisto sejamos semelhantes a Deus: o que lhe desagrada, desagrade também a nós. Em parte tu te unes à vontade de Deus, por te desagradar em ti aquilo mesmo que odeia aquele que te fez.

Santo Agostinho

Uma das virtudes mais importantes que um intelectual cristão deve cultivar em seu coração hoje em dia é a disposição para acreditar no potencial de burrice do ser humano moderno, que é inefável. Essa virtude é uma das características essenciais do pensamento conservador, e uma de suas grandes qualidades. Muitas pessoas não conseguem compreender ou analisar profundamente a mente moderna, por não acreditarem sequer na possibilidade de existência de certas visões de mundo distorcidas que observamos hoje nas sociedades, isto é, por não terem sido modernas o suficiente em sua formação. Nesse caso, quem estava mergulhado na merda e depois emergiu está em uma situação de vantagem em relação a quem esteve protegido das insanidade do mundo contemporâneo desde a infância. Quem nunca esteve mergulhado na merda deve ler literatura e assistir a filmes ruins, para assim se vacinar e se empatizar com a torpeza humana atual e ser então capaz de compreendê-la melhor para combatê-la de algum modo.

“A definição adotada pelos constituintes reflete a confusão entre ‘cultura’ no sentido antropológico e ‘cultura’ no sentido pedagógico. A primeira é um esquema descritivo, a segunda é um critério axiológico, valorativo. Erigir em valor a ‘cultura’ no sentido antropológico é um erro primário, pois, antropologicamente, a antropofagia, a escravidão ou a prostituição de crianças são tão culturais quanto rezar ou ajudar os pobres. A origem desse erro está numa outra propensão da cultura brasileira: o seu sociologismo. Consiste na hegemonia das Ciências Sociais sobre os demais setores do conhecimento, incluindo a Pedagogia e a Filosofia.”

[Olavo de Carvalho, em O imbecil Coletivo]

 

Essa nota de rodapé representa uma das primeiras vezes em que eu me identifiquei com algo que o professor Olavo havia escrito. Lembro-me de que estava na faculdade e cursava uma disciplina de antropologia. O texto a que a nota se refere também é maravilhoso. Vejamos:

 

“O ‘sentimento nativista’ brota entre os poetas do Brasil-Colônia, de início como vaga mistura de amor à paisagem com idéias antilusitanas. Ganha força com a Independência, tingindo de ‘cor local’, nos temas e na linguagem, as principais produções do Romantismo, e torna-se um programa explícito com Gonçalves Dias. Em 1872, fazendo o balanço de cem anos, Machado de Assis já assinala o ‘instinto da nacionalidade’ como a principal marca da nossa literatura. O instinto torna-se militante e agressivo no Modernismo de 1922, e na década seguinte ganha foros de profundidade científica na obra de Gilberto Freyre, que inspira a uma multidão de escritores e investigadores um movimento pela “redescoberta do Brasil “. Os anos 50-60, com os debates no ISEB, fazem do nacionalismo a doutrina pelo menos oficiosa do Estado, ao mesmo tempo em que o líder desta entidade, Álvaro Vieira Pinto, ergue sobre os conceitos de ‘nação’ e ‘desenvolvimento nacional’ toda uma Weltanschauung filosófica, ou pseudofilosófica. A consagração suprema vem em 1988, quando a Assembléia Constituinte, nascida do mais amplo movimento popular de nossa História, estatui como cultura tudo quanto seja ‘expressão do modo de vida’ do povo brasileiro. Aí o conceito de ‘nacional’ sobrepôs-se declaradamente a todos os demais critérios de valor de uma cultura: a beleza, a elevação moral, a eficácia no domínio sobre a natureza, a força pedagógica e até a veracidade pura e simples: se é brasileiro e expressivo, se é expressivamente brasileiro, é cultura. Paulo Coelho, por exemplo, ou Gugu Liberato.”

 

Creio que essas observações, devidamente contextualizadas e proporcionadas, aplicam-se a qualquer nacionalismo.

É no mínimo triste que os alunos de Olavo de Carvalho se interessem quase que exclusivamente pelos livros de sociologia política que o professor indica, esquecendo-se de ir atrás daquelas obras que o influenciaram muito mais essencialmente. Eu mesmo fui vítima dessa tendência por um bom tempo. Só muito recentemente atinei com a importância de certas obras filosóficas a que poucos alunos dele devem ter dado atenção, como Que é filosofia?, de Ortega y Gasset, e Antropologia metafísica, de Julián Marías.

Na primeira dessas obras, surpreendi um esboço de toda a filosofia de meu professor no que diz respeito ao método do retorno à experiência real e á superação do idealismo mediante uma descrição e uma crítica profundas do fenômeno da revolução científica, que instaurou um autoritarismo metafísico travestido de ciência empírica experimental.

Na segunda, espero encontrar ainda muitas outras idéias que terão inspirado e impressionado fortemente este filósofo que salvou a minha mente do sonambulismo gnoseológico brasileiro, pelo que lhe serei eternamente grato.

Degredados

Eis os nossos queridos antepassados, segundo nos conta Pedro Calmon:

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Estou lendo um exemplar usado de “Memórias Póstumas…” Noto que há trechos marcados, trechos “célebres”. Acho curioso as pessoas apontarem trechos célebres, porque eu, quando leio um livro, costumo me interessar por trechos os mais aleatórios, conforme me tocam o coração, a experiência pessoal. Para mim, marcar trechos celebrizados por teses acadêmicas e pela crítica em geral não significa nada. Deus me livre da crítica em geral!

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