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Uma lembrança

Deixei a inocência no passado. Posso vê-la me acenando de algum lugar dos anos noventa. Também lá deixei uma alegria pura, sem preocupações. Não que eu tenha motivos de preocupação, o futuro a Deus pertence. Mas é mais forte que eu. Não posso evitar. Nem que seja uma preocupação com o passado, uma pós-ocupação, de lembrar e pensar e ver tanta coisa atrás de mim e eu aqui ainda sem saber o que sou e para onde vou. Se o Céu é um lugar perfeito, deve ser como uma lembrança.

Fui tirar um cochilo às sete da noite. Minha cadelinha, feliz da vida, enfiou-se embaixo da cama e eu pude ouvir suas bufadas. Depois se espreguiçou e eu fiquei ali sentado, lendo um pouco até o sono chegar. Acordei às oito ouvindo um pernilongo. Quando acendi a luz, sumiu, como costuma acontecer. De novo no escuro, acabei matando-o com um tapa no travesseiro. Meu Deus! Que loucura é a vida. Toda uma eternidade de alegria ou tristeza pela frente, de Céu ou de Inferno, anjos e demônios lutando pela salvação ou danação das almas, e a gente aqui cochilando com bicho de estimação e matando pernilongo no escuro! Tendes noção do tamanho da besteira que fizeram Adão e Eva?

Pretérito perfeito

A foto aí de cima sou eu por dentro, muitas vezes. Menos ou mais do que eu gostaria, dependendo do dia. Nas minhas memórias mora um monte de ruínas. Coisa de quem nasceu em Brasília (talvez já tenha dito isso aqui) e passava as tarde de domingo andando de bicicleta entre os prédios ermos de concreto sujo. Isso entrou em mim, de algum modo. Sinto uma paz interior em lugares ermos, abandonados até. Fico feliz. Até o lazer, na minha infância, era numa paisagem de ruínas. As quadras de futebol de salão eram esburacadas, com grama nascendo entre as placas de concreto já quase sem tinta, as traves do gol meio tortas, sem rede, como as cestas de basquete, quando existiam ainda. Foi nesse ambiente que eu fiz amigos, amei meninas, sofri e fui feliz. A gente cresce no meio da feiúra e nem sabe, ama no concreto e sonha nas ruínas e nem se dá conta disso. Talvez por isso minha alma parece seca, às vezes. Mas me lembro de tudo aquilo e quero viver de novo, passar pelo mesmo, não escolher um mundo diferente de jeito nenhum.

Ai, que alívio escrever isso aqui.

Ausência

Trago o teu amor comigo como um mistério. Quando não estás aqui, é como se estivesses dentro de mim. As coisas estão cheias de uma presença que é não. Viver contigo é um alívio.

De outro modo, distraio-me com umas músicas, beijo nossa cadelinha, mas a tua ausência me desvanece. Parece que levaste contigo as minhas energias e o que sobrou não é meu, mas teu. Se é isso o amor, então é um perder-se no outro, um mergulho de esquecimento meio louco, e na volta eu não sei mais quem sou sem você. É um anular-se que enriquece, mas que também faz sofrer. Se o próprio Deus não sagrasse essa união, eu diria que é insanidade confundir-se assim com outra pessoa.

Mas no fim é a alegria. Quando retornas, tudo volta ao normal e então nos esquecemos de toda essa loucura e apenas somos, juntos, para sempre.

Uma das coisas mais interessantes que o Ronald Robson constata em seu interessantíssimo ensaio do sexto número da Revista Nabuco é que a cordialidade do brasileiro, ao trazer tudo para o pessoal, impede-nos de enxergar a vida como algo eminentemente gerido por essa espécie de burocracia filosófica que a Nova Ordem Mundial quer impor ao mundo. Por aqui, mesmo com toda a lavagem cerebral que a mídia realiza via novelas e jornais, só ainda muito raramente topamos, numa ciclovia quase deserta, com aqueles seres exóticos que passam “buzinando” e reclamando que ali não é lugar de andarmos com o nosso cachorro; ou, no trânsito, com aquele pedestre revoltadinho que nos passa um sabão porque paramos muito em cima da faixa (a filosofia de vida burocrática ignora, por definição, a eventualidade de que possamos não ter visto o pedestre a tempo, ou de que a faixa esteja num local inapropriado; pois tudo para ela é perfeito, tudo funciona otimamente). O brasileiro tem um dom que não é necessariamente ruim. Esse dom, aliás, em tempos de Estado Moderno, é muito mais benéfico que maléfico:
 
“Alguém dirá que arriscado (…) é sofrermos nas mãos de que[m] não respeita o Estado e dele se vale para benefício próprio e malefício nosso. Mas esse risco só ocorre cronicamente numa sociedade em que existe um outro risco, muito mais benéfico, que é aquele de eu e você não darmos a mínima para a existência de Estado algum. Acredito que o que vem ocorrendo no Brasil é uma boa amostra de que, para o brasileiro, o rei sempre esteve nu, e que, se lhe beijamos a mão num momento, não nos é muito custoso chutá-lo porta afora no momento seguinte.”
 
As análises que o ensaísta faz sobre a história do Brasil e sobre as características próprias do brasileiro são complexas, ricas. Transcendem as simplificações, tanto as liberais quanto as esquerdistas, reconhecendo valor até mesmo em obras para as quais muitos conservadores olham torto, como as de Sérgio Buarque de Holanda. Ler o ensaio de Ronald Robson, apesar de todos os problemas sintáticos e gramaticais que o perpassam, deixou-me com vontade de ler um bom, um ótimo livro de história do Brasil e de sociologia do brasileiro, daquele tipo que ainda está por ser escrito sei lá por que aluno do Olavo. Talvez pelo próprio Robson. E deixou-me com vontade, também, de ser seu revisor!

Relato que um colega de profissão me enviou recentemente:
“Olá, Evandro! Tudo bem? Sou tradutor técnico inglês-português e há tempos acompanho seu blog. Não tenho formação acadêmica na área. Já fiz oficinas e cursos de curta duração, incluindo de tradução literária. 
Numa das últimas oficinas de tradução literária, no ano passado, lembro-me de ter levado para uma das aulas um post do seu blog com uma tradução de Meridiano de Sangue na edição portuguesa e brasileira. Tanto o professor (tradutor da ******** editora) quanto os alunos (todos formados em Letras e alguns cursando pós em tradução) disseram que, em primeiro lugar, o português de Portugal é diferente (!). Respondi que disso eu sabia. Apenas gostaria de lhes mostrar um exemplo de como as traduções portuguesas atualmente são melhores do que as brasileiras. O professor discordou e afirmou que nunca o Brasil contou com tantos tradutores bons como hoje. Quanto aos alunos, percebi que todos só liam tradutores brasileiros. Não só isso: para minha surpresa, os alunos não eram tão bons como eu imaginava (antes mesmo de começar eu já me coloquei para baixo, como o pior dos alunos, o pobrezinho…). Já no fim do curso, o professor nos entregou um artigo do Bagno! Conheci a figura naqueles artigos do Olavo. Surpresa ainda maior foi descobrir que TODOS os alunos conheciam o Bagno! Lembro-me de ouvir ‘Ah, já li um livro dele, muito bom!’, ‘Ah, tem um livro dele…’, ‘Li a gramática dele…’ Para terminar: em quase todos exercícios, o professor colocou os meus entre os melhores; mas eu sabia que havia muita coisa para melhorar.”
Só tenho um único comentário a fazer: Sim! Temos muito mais tradutores de qualidade hoje, pois nossa população quadruplicou. Na década de 1950 tínhamos uns 6. Hoje temos uns 8.

Captura de tela 2016-06-25 01.17.35

 

Esta foto de uma reles pesquisa no Google, da palavra “compass”, é minha humilde “homenagem” ao bobão que traduziu o livro “The Moral Compass”, de William J. Bennett, como “O livro das virtudes II: O COMPASSO moral”, para a Editora Nova Fronteira. Compasso teu c#, ô imbecil!

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