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Cormac McCarthy, em Meridiano de Sangue, em tradução excelente de Paulo Faria para a editora Relógio D’Água, de Portugal.

Putz

Metade das coisas que leio sobre o Brasil e o mundo tem me suscitado apenas um tipo de comentário: “Ai, velho…” ou “Putz.”

Aliás, isso me faz lembrar um professor de literatura que eu tinha no segundo grau. Ele se chamava Feitosa e gostava de fazer trocadilhos infames. Sempre que fazia um trocadilho assim, um rapaz do “fundão” bradava: “Putz.”

Acho que foi ali que eu comecei a gostar de literatura, pois, embora eu não gostasse muito dos trocadilhos e do lirismo meio barato do professor, a figura daquele playboy chato do fundão dizendo “putz” logo me suscitou uma simpatia quase incondicional pelo mestre.

Uma das reflexões bobinhas que o Feitosa costumava fazer era sobre o Windows. Dizia que o sistema o deixava maravilhado, pois todas aquelas janelas se abrindo para ele eram uma coisa linda!

A tal simpatia advinha meio que do fato de o professor não perceber o sentido daquele “putz”. Ele ficava tão imerso em suas reflexões líricas, que não via que o aluno o estava sacaneando. Aquilo foi uma das minhas primeiras experiências envolvendo a percepção desse abismo que separa o ser humano elevado (ainda que, no caso, tratasse-se apenas da “elevação” de um homem idealista) do sujeitinho imerso no fluxo da sociedade, com suas regras e padrões do que é aceitável ou não, de qual trocadilho é engraçado ou não etc etc.

Ninhariando

Ah, a irrefreável urgência das questões do mundo, essa aparência das aparências, manifestação fenomênica ansiosa de entidades factuais quase conscientes da sua profunda desimportância. Pagar uma conta, dar um telefonema, resolver um litígio comercial inesperado (inesperado?) etc etc etc etc etc. Por semelhantes ninharias, quantas vezes não abandonamos os fins últimos do existir? Pelo simples desviar da mente ao fluxo do cotidiano, quão difícil parece o mero atinar com a morte última!

“Eu vou morrer um dia. Pode ser hoje!”

“Ai, deixe de ser lunático! Você tem que ligar para a GVT. Eles estão cobrando uma conta que já pagamos!”

Essa pirralhada do MBL pode conseguir o caralho que for, até votos e cargos políticos para ir pagar mico em Brasília. Grande bosta, “entrar para a política”. Faz-me rir.
Mas o principal para mim é que quem chama o Olavo de gagá, lunático e coisa muito pior (porque SEI que o fizeram) tem que ir é para a PUTA QUE PARIU. E só. Não tem ulteriores argumentos.

Quem ignora o Olavo é coitado. Quem lhe é indiferente, é burro. Já quem o desdenha é filho da puta mesmo.

Sobre a invasão islâmica do Ocidente

Gostaria de tratar aqui, muito superficialmente, desse problema gravíssimo que atinge diretamente o Ocidente cristão (ou o que resta deste): a imigração islâmica. Como não me sinto minimamente preparado para falar do assunto, limito-me simplesmente a transcrever comentários de um amigo e colega de trabalho, a quem muito estimo, e que se converteu ao islã mais ou menos recentemente.

Semana passada eu publiquei um post sobre uma carta aberta de líderes islâmicos contra o neo-islamismo (grosso modo), publicada no ano assado. Foi este post:

https://www.facebook.com/evandro.ferreira/posts/10207910108049973

Minha intenção era dar uma chance ao diálogo, pois tenho visto que as reações a tudo isso, aqui no Facebook e na Internet “conservadora” em geral, praticamente se resumem a um “matem todos eles” ou, mais “moderadamente”, “fechem-lhes as portas do Ocidente”. Por favor, não me interpretem mal. Não sou um simpatizante ingênuo de um islã genérico e bonzinho construído pela mídia. Por outro lado, também não gosto de explicações fáceis e tomadas de posição absolutas e incondicionais. Deixo isso para o povo. Na condição de alguém que nutre aspirações intelectuais, tenho consciência de que existe uma hierarquia entre os membros de uma sociedade e que as muitas pessoas desempenham papéis diferentes no mundo. O meu papel não é o de manifestante impetuoso, mas de analista teórico, ainda que ignorante e limitado. Portanto, quero deixar aqui bem claro que não sou “contra" manifestações anti-islâmicas de qualquer tipo, assim como não sou "contra o islã”. Tudo isso é metonímia e, se possui seu papel no processo histórico, não pode determinar análises adultas desse processo.

Pois bem, a carta a que me referi é a que está neste link:

http://www.lettertobaghdadi.com

Nos comentários do meu post onde figurava a carta, meu amigo Marcelo escreveu o seguinte:

"Evandro, essa carta foi publicada em setembro do ano passado, dois meses depois do al-Baghdadi ter se declarado khalifa. Semana passada um dos sábios mais famosos e respeitados do Islam tradicional publicou um livro em inglês detalhando as razões pelas quais o ISIS não é islâmico. Ele está pagando do próprio bolso traduções para as principais línguas do mundo (eu inclusive devo fazer essa tradução para o português). Aqui no Marrocos, todos os sermões das principais festas são contra o salafismo, o terrorismo e o ISIS. No campo militar, o rei da Jordânia tem feito o que pode para conter o avanço do ISIS. Enfim, um pouco de pesquisa sobre as reações do Islam tradicional contra essa contrafação de Islam que é o ISIS não faz mal a ninguém."

(…)

"A primeira coisa é fazer as devidas distinções entre os tipos de Islam que existem no mundo islâmico. Uma coisa é o Islam tradicional, majoritário, sunita. Outra coisa é o salafismo cujo ninho foi e é a Arábia Saudita (apoiada em sua fundação pela Inglaterra e depois, até hoje, pelos Estados Unidos) e cujos brotos são a Al Qa'ida e o ISIS."

(…)

"Outra coisa é olhar bem para os lugares onde o chamado "jihadismo" está proliferando. São exatamente os pontos onde houve intervenção militar norte-americana e europeia (Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia)."

Em resposta a um comentário em que um outro colega questionava que, no caso do Afeganistão, também a URSS financiou o armamento dos muçulmanos, o Marcelo respondeu:

“(…) quem financiou e armou os jihadistas para lutar contra os soviéticos foram os norte-americanos. Depois de um tempo esses jihadistas se tornaram mundialmente famosos com o nome de Taliban. O mesmo filme se repetiu agora na Síria."

Prosseguindo, observou ainda:

"Existem muitíssimas condições para que uma guerra qualquer possa ter status de jihad (guerra santa). Uma das primeiras é que ela seja declarada como tal por uma autoridade legítima. Nem o ISIS nem a Al Qa'ida nem nenhum outro grupo "jihadista" têm essa autoridade, de modo que, do ponto de vista islâmico tradicional, a guerra que eles movem não é jihad de modo algum, mas um simples massacre pelo qual eles terão de responder perante Deus."

"Mais sobre as condições do jihad neste artigo, escrito por muçulmanos tradicionais:

http://islamicsupremecouncil.org/understanding-islam/legal-rulings/5-jihad-a-misunderstood-concept-from-islam.html

E mais um documento sobre o mesmo tema, detalhando o entendimento clássico de jihad e escrito por um dos grupos que mais tem se esforçado para esclarecer para o Ocidente os princípios do Islam tradicional:

rissc.jo/books/en/003-Jihad-Islamic-Law-War.pdf

Somente mais um esclarecimento, reproduzindo o que escrevi no e-mail: 'Chamar a questão dos refugiados de "estratégia" é uma visão parcial do assunto. Com certeza, para o pessoal do ISIS — para cuja vinda o Profeta Muhammad alertou e que ele chamou de "cães do inferno" — a expulsão daquela gente faz parte da estratégia geral de criar caos em escala global, estratégia essa que eles não dissimulam e até divulgam em sua revista. Porém, a imensa maioria das pessoas que está tendo de emigrar não está cumprindo "estratégia" alguma — está apenas fugindo da guerra, do saque e da tirania. Botar todo o mundo no mesmo saco é de uma falta de honestidade intelectual — para não dizer sensibilidade humana — lamentável. Não que eu compactue com o mimimi da imprensa sobre a frieza e maldade dos europeus, pois eles também têm os interesses deles para proteger. Mas é preciso equilíbrio para falar dessas coisas, é preciso cuidado para não cair em chavões de pensamento para um lado e para outro.’"

E, finalmente:

"O livro que eu mencionei é do Sheikh Muhammad al Yaqoubi:

http://www.amazon.com/Refuting-ISIS-Religious-Ideological-Foundations/dp/1908224126

Tanto ele como muitos outros sábios conhecidos e respeitados têm aberto a boca para atacar o ISIS, inclusive correndo perigo de vida (e até perdendo a vida) nas regiões ocupadas. Se você quiser conhecer, pesquise estes nomes: Habib Ali al Jifri, Abdal Hakim Murad, Abdallah Bin Bayyah, Abdullah Bin Hamid Ali — seria cansativo enumerar todos aqui."

Além de tudo isso, há muitas outras questões, muitos outros pontos a serem tratados. Infelizmente, não tenho capacidade de tratar deles. Mas nem por isso eles deixam de ser importantes, obviamente. Todo esse problema se inscreve no processo de destruição da tradição cristã ocidental, um processo que começou desde dentro. Se hoje os muçulmanos nos estão oprimindo, os culpados disso somos nós mesmos. Na condição de cristãos, acredito que devemos exercer oposição a eles, embora eu não esteja certo sobre de que forma essa oposição deva se dar nem se ela deve ser total, parcial, diplomática ou violenta. Mas também temos de aprender com eles, e muito!

Mendel dos livros

“Ali, naquela mesa e apenas naquela mesa lia os seus catálogos e
livros, tal como lhe ensinaram a ler na escola de talmude,
cantarolando em voz baixa e balanceando-se, um berço preto e
baloiçante. Pois tal como uma criança que adormece e se desprende do
mundo através daquele vaivém rítmico e hipnótico, também o espírito,
segundo a opinião dos devotos, se entranha mais facilmente na graça da
submersão devido a esse balançar e oscilar do corpo ocioso. E de facto
aquele Jakob Mendel não via e não ouvia nada do que acontecia à sua
volta.”

Stefan Zweig, em Mendel dos livros.

Depois de ler esse conto, comecei a ler assim, balançando-me para a frente e para trás. Agora não consigo mais ler de outro jeito!

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Bem, parece que a polêmica do momento é o Olavo​ e o protestantismo. Sobre os idiotas, não há o que dizer. Qualquer coisa que se diga a eles é pouco.

Mas é preciso falar dos bons. Tenho muitos amigos protestantes, pessoas que estimo. Infelizmente, porém, um católico precisa, mais ainda que os demais homens, admitir a verdade: o protestantismo é uma heresia católica.

Isso não quer dizer que eu goste menos de meus amigos protestantes por esse motivo, mas também não dá pra botar panos quentes na questão eternamente. E, no caso mais específico do COF, minha humilde opinião é que todo aluno do Olavo que não seja católico (isso vale para os judeus também) tem o dever de, no mínimo, manter-se sempre em busca de justificação para sua fé; ou seja, precisa estar sempre lendo a respeito da Igreja Católica e ter sempre em mente a possibilidade e necessidade de converter-se ao catolicismo.

Já explico por que penso assim. No COF, nós aprendemos algo que é o que nos diferencia dos outros aspirantes ao conhecimento, ou melhor, à verdade (porque conhecimento, tudo é). O que um ser humano aprende está intimamente ligado ao que ele é. A verdade é existencial, não teorética. Portanto, o que o Olavo diz e ensina está intimamente ligado ao que ele é. O fato de ele ser católico não é acessório, embora possa até ser posto de lado no início do curso.

Diante disso tudo, parece-me que a mensagem do professor é bem clara: ele quer que seus alunos protestantes pensem na possibilidade de tornar-se católicos, e quer que eles pensem da única forma em que “pensar” faz sentido: com a alma, com toda a integridade do seu ser. Por isso é que ele se pronuncia de uma maneira que incomoda as pessoas. Ele faz isso para mexer com elas. Vocês precisam entender que o Olavo funciona na base da “terapia de confronto”. A postura dele é a de chocar as pessoas, pois o homem moderno tornou-se insensível à verdade e só a escuta realmente com a alma, se tomar um “chega pra lá”. Para nós, pobres brasileiros pós-modernos, só as aparentes ofensas funcionam como estimulantes.

Os posts de ontem, a meu ver, são a maneira pedagógica (pedagogia de confronto, obviamente) de o Olavo dizer aos protestantes: não se esqueçam de que vocês surgiram 1500 anos depois de Cristo e que, durante todos esses anos, quem cuidou da tradição cristã foi a Igreja Católica. Por isso, vocês têm o dever de justificar-se, sempre, e não apenas justificar-se tagarelando, repetindo, pregando, muito menos fingindo para si mesmos que não há problema nenhum, mas investigando e estudando com seriedade o assunto. Quando um católico diz a um protestante que este está errado, é sobre o protestante que recai o ônus da prova. Isso parece cruel, mas é a verdade, e está presente até etimologicamente na própria palavra “protestante”.

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