Feeds:
Posts
Comments

Se eu fosse fazer um estudo sobre o problema das más traduções no Brasil, investigaria estas “frentes”:

1) Os editores precisam dar mais atenção à escolha dos tradutores. Precisam construir uma boa rede de relacionamentos, da qual possam extrair boas indicações de tradutores, feitas por outros tradutores ou editores. Depois, dentre os tradutores indicados, é preciso verificar se o trabalho deles é realmente bom. Deve-se fazer um teste, em que se pede ao tradutor que traduza um trecho de um livro, e essa tradução precisa ser julgada. Aqui entra outro problema: quem tem capacidade para julgar? Muitas vezes os próprios editores ou coordenadores de uma editora não escrevem bem e, portanto, não sabem julgar a qualidade do português que lêem.

2) Quanto ao preço que se paga pelo serviço, existe um patamar abaixo do qual os tradutores com mais experiência (pelo menos uns 5 livros traduzidos) não trabalham, ou melhor, preferem não trabalhar. Esse patamar está mais ou menos nos 25 reais. Abaixo disso, as traduções geralmente ficarão piores. Por outro lado, acima disso não há garantia de que fiquem boas. Ficarão melhores que as outras, mas ainda assim podem ficar bem ruins – ruins de outro jeito, mas ruins. O mais importante é manter o preço acima de 20 reais e, sobretudo, saber escolher bons tradutores. Estes, muitas vezes, e digo isso por experiência própria, aceitam receber menos, ainda que apenas esporadicamente.

3) É preciso que os editores contratem tradutores profissionais, ou seja, que tenham formação na área ou que ao menos trabalhem principalmente com tradução. Pela experiência que eu tenho, muitas vezes o editor contrata “especialistas” na área temática do livro a ser traduzido ou então simplesmente estudiosos que partilham dos mesmos interesses que ele. Essas pessoas, mesmo quando escrevem razoavelmente bem, geralmente não fazem boas traduções.

4) Além de todos esses problemas profissionais, há um outro mais profundo: o Brasil passa por uma fase de crise cultural extrema. Pouca gente sabe escrever bem em português. Num cenário assim, a rigor, não dá para esperar muita melhora, pois formou-se um círculo vicioso. Para quebrar o círculo, é necessária a atuação de pessoas “de fora” dele.

5) Há dois tipos de problemas de qualidade da tradução. O primeiro é aquele em que o texto gerado contém erros crassos de português e de interpretação de frases e termos do original. Esse tipo de tradução é feito por pessoas cujo português é muito fraco (geralmente pessoas que foram alfabetizadas pelo sistema sócio-construtivista) e que ademais não sabem fazer pesquisa direito nem têm capacidade de descobrir o significado de uma palavra ou o sentido de uma frase a partir do contexto ou da interpretação dos campos semânticos dos termos. Isso é mais comum nas pequenas editoras. O segundo tipo é encontrado também nas grandes editoras. Neste caso, o texto é correto gramaticalmente, mas está ruim esteticamente. Falta “feeling” ao tradutor. Ele sabe escrever, mas não sabe escrever um texto bonito, suave, fluido, quase como um escritor o faria.

Muitas pessoas têm dificuldade de aceitar que as traduções brasileiras são ruins, e o são pelo simples fato de que não se sabe mais escrever em português por aqui.

Diante disso, vou tentar postar aqui, de vez em quando, pequenas comparações entre traduções brasileiras e portuguesas.

Nesta aqui, de um conto de Flannery O’Connor, vê-se nitidamente a diferença de qualidade do português. Ademais, para quem lê inglês, é possível ver ainda que a tradução lusa, além de ter muito mais qualidade do ponto de vista unicamente da língua portuguesa, também está bastante mais próxima do original que a brasileira.

A tradução brasileira usada aqui é a da Cosac & Naify.

Flannery-O'Connor---O-gerânio-(comparação)

Antes de tudo, quero dar um conselho: Não leia esse livro nesta tradução (Rocco, 2001). A língua portuguesa no Brasil está em franco processo de auto-destruição por analfabetismo funcional, e essa tradução é um sintoma quase perfeito disso.

Ravelstein é muitas coisas: autobiografia ficcional (provavelmente baseada, ao menos em parte, em experiências reais), biografia ficcional, romance narrado em primeira pessoa, filosofia, sociologia etc. Dizer isso é ser redundante, claro, mas ressalta um aspecto peculiar do livro: o estilo de crônica.

O título é o sobrenome de um professor de filosofia política, uma figura “excêntrica”, mas entre aspas porque trata-se de uma legitimidade e não de uma excentricidade. Em tempos de falsificação e mentira generalizada nos meios acadêmicos, quem busca a verdade e vive uma vida inteira com sinceridade torna-se um excêntrico. Em terra de loucos, os normais é que são socialmente reconhecidos como loucos. E o mundo hoje é, acima de tudo, terra de loucos – loucos burgueses politicamente engajados em qualquer merda que surja na frente e que esteja a serviço da destruição da civilização ocidental e, ao mesmo tempo, loucos com medo de tudo e de todos e da morte enfim. Presas fáceis de inimigos como o Islã, o comunismo russo renovado em putinismo e a Nova Era. E, acima de tudo (no caso desta obra em particular) o anti-semitismo.

São reflexões como essas que povoam o livro de Saul Bellow, um Nobel que merece ser Nobel, ao contrário de um Modiano e de um Saramago, dois insossos, este mais ainda que aquele.

As reflexões, dentro de um romance, parecem sempre mais interessantes, mais verossímeis, obviamente porque estão entremeadas com a narrativa, que nos dá esse contato com a realidade que a filosofia em geral não dá diretamente (mas deveria e, de fato, dá quando é verdadeira e boa). E neste romance aqui, escrito em tom de bate-papo, de história que bem poderia estar sendo contada em uma sala de estar por um amigo íntimo, reflexão é sinônimo de auto-análise existencial. O narrador se analisa enquanto analisa o “biografado” Ravelstein e os outros personagens, também parcialmente biografados e, acima de tudo, psicologicamente sondados.

Não sei bem por que não lhe dei cinco estrelas. Talvez porque falte algo, talvez porque eu gostaria que o autor fosse mais poético, o que é mais uma expectativa minha do que qualquer outra coisa. A verdade é que temos aqui um ótimo livro, que nos faz pensar em nossa própria vida, nossos próprios problemas, defeitos, imbecilidades, em como somos burgueses ávidos por uma segurança material e psicológica que corrói a legitimidade e reduz a nada o sentido da vida. E quando digo “burgueses”, e quando o autor o diz, não é como um socialista o diria, não é como um ambientalista diria ao se referir a um yuppie; pois socialista e yuppie são papéis sociais, não são pessoas. Ravelstein, sob esse aspecto, é um yuppie em seus hábitos, na maneira como se veste e nas coisas que compra. Aqui está a melhor característica do livro, o que lhe confere sua profundidade: Ravelstein é uma pessoa que não pode ser “lida” pelo que veste ou compra. Ele é muito mais que isso, embora também seja vítima de seu tempo em vários aspectos – afinal quem o não é?

Além de ser o perfil de um biografado ficcional, o livro é o perfil do biógrafo e de algumas outras personagens, como a ex-mulher deste e sua atual mulher. O mais importante, porém, é que é o perfil de uma época, é o retrato do mal do século ocidental. E tudo isso sem deixar de ser literatura, muito boa literatura.

Descobri por acaso uma contista norte-americana, a Lydia Davis. Em um de seus contos, ela narra sua fixação com uma lagarta que encontrou em seu quarto. Diz que não mata nenhum ser vivo desnecessariamente, então pega a lagarta com um papel e, como não havia nenhuma janela de onde pudesse jogá-la, resolve descer as escadas de casa e deixá-la no jardim. No caminho, porém, a lagarta cai e, muito pequena, some de vista na escadaria. Por várias horas, a narradora se lembra do assunto, chega mesmo a procurar a lagarta várias vezes, até que desiste. Tudo isso é contado nos mínimos detalhes. Fiquei pensando em como parecemos importantes na Internet, quando na verdade somos como essa mulher, no dia a dia. Ou nem isso, pois qual de nós seria capaz de descrever as coisas que faz, mesmo as mais idiotas, com um pouco de precisão que seja?

Aos poucos

Aos poucos, vou descobrindo por que, por tanto tempo, eu não gostei de literatura. A tradução brasileira é uma merda. Provavelmente, metade dos livros que a gente acha ruim é por culpa do tradutor, esse porco imundo que se arrasta pelos rincões da existência, sem nem ao menos valer-lhe a dignidade do anonimato na caridade de sua oferta. Oferece-nos, o porco, umas pérolas encharcadas de lama e esterco. Chafurdamos ali, então, por anos a fio. Quem sai do outro lado, ou vai se limpar, ou porco já se tornou também.

 

Dia desses fui buscar na biblioteca daqui um livro de Mauriac. Mas não pude retirá-lo: estava na seção de obras raras, informou-me a bibliotecária, pois era “de 1943!” (palavras da “mesma”). E por oito reais, recebo hoje este livro que figura na foto, impresso – pasmem – em 1938! Suponho que, quando eu tiver oitenta anos, metade do que hoje se encontra nas prateleiras daquele triste lugar estará na seção de obras raras. Pior: eu mesmo lá estarei!

Certa vez, meu irmão, a quem agrada admirar casas antigas, parou em frente a uma casa na cidade de Anchieta (Espírito Santo) e ficou olhando-a. Havia, na fachada, a data da construção. Pois bem, ao lado do meu irmão estava meu tio, e a data da casa era posterior à do nascimento deste. Meu tio disse então ao meu irmão: “Por que você não olha pra mim, em vez de olhar para a casa?”

Se um simples romance de 1943 está na seção de obras raras e, conforme me informou a sempre solícita bibliotecária, “só pode ser manuseado com luvas”, imagino que meu tio – que ainda está vivo e tem mais de noventa anos – deva estar sendo atualmente conservado em formol. Vou telefonar aos meus primos e perguntar-lhes se a suposição confere! 

Verdade seja dita: A suposta habilidade das novas gerações para lidar com a informática não passa de um mito. Os jovens de hoje, salvo as exceções de sempre, não sabem realizar as mais básicas operações, como fazer buscas decentes no Google, gerenciar arquivos num drive virtual, ou até mesmo efetuar registro e login em serviços de internet. Não são capazes de aprender sozinhos as funções básicas dos mais intuitivos softwares do mercado, não conseguem fazer download se o botão não trouxer estampada a palavra “download” (e não houver nenhuma outra etapa no processo) etc etc. Hoje rasgo mentalmente todos aqueles textos pseudoproféticos escritos por americanos empolgadinhos – falando de quarta onda, baby boomers, generation x – que eu li na faculdade de comunicação. Tudo enganação. O que vale mesmo é a boa e velha decadência cultural, com seus sintomas arquiconhecidos – como, neste caso específico, a dificuldade de intuir procedimentos e padrões de funcionamento, e de lidar com imprevistos secundários que não alteram o rumo de um processo. É, meus amigos, autodidatismo! Conhecem?

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 1,362 other followers

%d bloggers like this: