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O editor da Vide informou que os erros de tradução no livro “Ponerologia”, apontados no post anterior, foram corrigidos em setembro do ano passado. Peço desculpas pelo mal-entendido. Eu não estava ciente do fato. 

Entretanto, após visitar o site da Amazon, percebi que pelo menos dois erros graves ainda estão lá, ao menos na edição eletrônica. Não sei se foram corrigidos apenas na edição impressa. O primeiro deles é no último parágrafo do primeiro capítulo: onde se lê “somente”, o correto é “já”. O outro está no início do segundo capítulo: não é “Achaeans”, mas “Aqueus”. Não tenho mais como continuar verificando esses erros, portanto peço a cada um que verifique por si. Estou abandonando o assunto.

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Volta e meia, alguém me pergunta sobre problemas de tradução em edições brasileiras, mas, como estou sempre traduzindo, nem sempre tenho tempo de juntar as dezenas de erros que encontro nos livros que leio. Um destes é Ponerologia: Psicopatas no poder (de Andrew Lobaczewski).

Certa vez, porém, em um grupo secreto, eu postei uns comentários citando alguns erros que marquei nesse livro, provavelmente em torno de 20% de tudo que marquei, pois a tradução é REALMENTE problemática, acima da média até mesmo para traduções brasileiras de editoras menores.

Pois bem, resolvi simplesmente colar os tais comentários aí embaixo. Por favor, tenham em mente que são comentários de Facebook, portanto tentem imaginar que eu estava conversando com outras pessoas.

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Comentários:

Vamos lá. Eu não tenho os números das páginas, pois a edição que eu possuo é a eletrônica. Mas é só vocês fazerem uma busca. No trecho “The causes of the aberrations are by no means qualitatively monolithic”, a tradução ficou “As causas de aberrações são, em qualquer meio, qualitativamente monolíticas.” Ou seja, o OPOSTO do que o autor afirmou.

Em outro trecho, a tradução está assim: “A linguagem objetiva-psicológica, baseada em critérios filosóficos maduros, deve encontrar os requisitos derivados de seus fundamentos teóricos e ir ao encontro das necessidades da prática individual e macrossocial.”
“Encontrar os requisitos” não faz sentido algum e é uma das primeiras coisas que se aprendem em um curso de tradução. O corretor é “preencher os requisitos”, “satisfazer os critérios” etc etc.

Em outro trecho, o original fala de “afeto” e a tradução traz “efeito”: “A more subtle structure of affect is built upon our instinctual substratum, thanks to constant cooperation from the latter as well as familial and societal child-rearing practices. With time, this structure becomes a more easily observable component of our personality, within which it plays an integrative role. This higher affect is instrumental in linking us to society…”
“Uma estrutura de efeito mais sutil é construída sobre nosso substrato instintivo, graças à constante cooperação deste, bem como às práticas de educação infantil na família e na sociedade. Com o tempo, essa estrutura se torna o componente mais facilmente observável de nossa personalidade, dentro da qual ele representa um papel integrativo. Este efeito mais alto é fundamental para a nossa ligação à sociedade”
Na tradução espanhola, pode-se ver que está correto: “una estructura afectiva más sutil” e não “Uma estrutura de efeito mais sutil”, expressão que não faz sentido algum no contexto.

Em outro trecho, vemos: “ela se entrelaça com um maior efeito”, quando o original diz que “it is intertwined with higher affect” e a tradução espanhola traz “se interrelaciona con el afecto superior”.

Em outro trecho, “actually” é traduzido por “atualmente”. Não vou nem comentar.

Também se traduz “role” como “regra”, quando o certo é “papel” (como quando se desempenha um papel).

Outro trecho: “uma vez que as leis ponerogênicas são análogas no que diz respeito à escala das ocorrências”
Orignal: “since ponerogenic laws are analogous regardless of the scale of occurrences”.
Ou seja: inverteu-se o sentido.

“Eventually begin to undertake such behavior” não é “começam eventualmente a empreender esse comportamento”, mas “terminam recorrendo a esse tipo de comportamento”, ou “terminam incorrendo nesse tipo de comportamento”. Aqui também se pode considerar que houve uma inversão, embora mais sutil.

“…essential in maintaining the proper attitude on the part of those members of the rank and file who betray a tendency to criticism and doubt of the moral variety.”
Tradução da Vide (errada): “…essencial na manutenção da postura correta por parte daqueles membros mais graduados e das fileiras, que carecem de uma tendência à crítica e duvidam da variedade moral.”
Acontece que “rank and file” é uma expressão idiomática que significa justamente o oposto de “membros mais graduados”. Veja a tradução espanhola: “lo cual resulta de vital importancia si se desea mantener la calma entre aquellos miembros del conjunto que revelan una tendencia a las críticas y dudas de índole moral”.
Note que aqui até a tradução espanhola deixa a desejar, pois não especifica se os tais “membros do conjunto” são de alto ou baixo escalão. Além disso, “betray a tendency” é “revelam uma tendência” e não “carecem de uma tendência”. Há aqui mais uma inversão de sentido, portanto.

Tem muito mais, mas acho que já deu pra sacar o tamanho do problema.

Apesar de a tradução brasileira de “Arco-íris da gravidade”, de Thomas Pynchon, ser de Paulo Henriques Britto, um dos poucos bons tradutores deste País, encontrei, logo no início do livro, um trecho tão mal traduzido que chega a ser ininteligível se o leitor não tiver um forte poder de dedução. Vejam, na imagem, se são capazes de compreender a parte em que o narrador fala de um vidro. 


Agora vejam a tradução portuguesa do mesmo trecho:

“É tarde demais. A Evacuação continua a decorrer, mas é tudo teatro. Não há luzes dentro dos vagões. Não há luz em lado algum. Acima dele vigas de elevador tão velhas quanto uma rainha de ferro, e vidro algures muito no alto que deixaria passar a luz do dia. Mas é de noite. Ele receia o modo como o vidro cairá — dentro em pouco — será um espectáculo: a queda de um palácio de cristal. Mas caindo em escuridão total, sem uma centelha de luz, somente grande derrocada invisível.”
 

Assisto de palanque à petistada detonando a Rede Goebbels. Os puxa-sacos são os primeiros a serem hostilizados quando os comunas sobem ao poder, certo? É a lógica dos movimentos comunistas. Só que, como no Brasil tudo é versão pobrinha, aqui os puxa-sacos são hostilizados quando o comunismo começa a dar errado, ou seja, mais uma vez constata-se que brasileiro tem vocação para atirar no próprio pé, e com os esquerdinhas não é diferente. Então, que atirem! A gente fica aqui assistindo, como quem joga Civilization: é só posicionar os bonequinhos e deixar que se matem. Aí, sobe aquela fumacinha vermelha e azul, com cheiro de mortadela defumada. A gente de fode, mas pelo menos se diverte.

Fui ontem a uma livraria e fiquei feliz de ver a quantidade de livros “conservadores” nas estantes. É realmente uma pequena revolução bibliográfica, o que está em curso no Brasil. Por outro lado, é também a mais nova fase de uma outra revolução, e esta não é nada boa. Trata-se da revolução dos mal alfabetizados, na falta de um nome mais respeitável, científico, sei lá. São pessoas que não sabem escrever direito em sua língua materna, indivíduos a quem falta o domínio básico do idioma, aquele mínimo de formação lingüística que nos permite perceber que uma preposição não se usa com tal verbo, que um substantivo, mesmo sendo sinônimo exato de outro, não cabe na frase porque ninguém jamais o utiliza nem utilizou assim; enfim, tudo aquilo que nos impede de dizer que o “cão aquecido se encontra custoso” em vez de “o cachorro quente está caro”. Claro que este exemplo é hiperbólico. Mas, acreditem, a coisa não está tão longe disso quanto gostaríamos que estivesse.

Por exemplo, um amigo me informa que, na mais nova tradução de Chesterton no Brasil, a Autobiografia, que saiu pela editora Ecclesiae, o tradutor Ronald Robson verteu da seguinte maneira a primeira frase do capítulo XI:

Moro, já há um bom tempo, na cidade de Beaconsfield, no condado de Bucks, a cidade que alguns colonos imaginam ter sido batizada após o Lord Beaconsfield, o político.

Antes de comentar qualquer coisa, transcrevo o original:

I had been living, already for a long time, in the town of Beaconsfield in the County of Bucks; the town which some Colonials imagine to have been named after Lord Beaconsfield the politician.

Percebem a gravidade do problema? Chesterton disse que “estava morando”, ou que “morava”, havia um bom tempo, na tal cidade. O que dizer de um tradutor que erra até o tempo dos verbos ou de um revisor que não conserta um erro desses, caso tenha sido uma distração esporádica?

Mas o pior não é isso. O leitor, por acaso, já ouviu falar de alguém ser batizado “após” alguém – exceto, é claro, após o bebê anterior, em um desses batismos coletivos tão comuns hoje em dia? Veja bem, não se trata de um errinho. A acepção está no dicionário Houaiss:

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E até no Michaelis, que é bem pior:

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Diz-se que uma cidade recebeu seu nome “em homenagem a” fulano, não “após” o coitado, o que é mera tradução literal.

Quando digo essas coisas, posso parecer chato. Podem dizer que estou procurando pêlo em ovo, que é normal esses deslizes etc etc. Pois eu digo que não é normal. Essas coisas simplesmente não acontecem em traduções mais antigas. E não acontecem por um motivo muito simples: as pessoas sabiam escrever antigamente. Em algum momento dos anos setenta, essas pessoas pararam de surgir. Entre os tradutores profissionais de hoje, nas grandes editoras, há indivíduos que sabem escrever minimamente e não cometem erros desse tipo, embora a leitura de traduções lusas me tenha mostrado que estão longe de serem bons tradutores. Entre as editoras menores, porém, a coisa é desesperadora. Alguns amigos, não raro, confessam-me que tiveram de abandonar um ou outro livro que compraram – da Vide Editorial, da Mundo Cristão, da Simonsen (para citar algumas) – e passar ao original, porque o texto simplesmente não parecia estar em português. Isso é muito grave, sobretudo no caso das editoras diretamente inspiradas pelo professor Olavo de Carvalho, que há tantos anos vem apontando justamente o problema da decadência da cultura brasileira, da necessidade de ler literatura, de desenvolver um respeito pela língua portuguesa. Criou-se uma situação em que, antes de comprar um livro, é preciso vasculhar o texto em busca de sinais de má tradução – como a tão freqüente enxurrada de pronomes pessoais (“ele”, “ela”) facilmente ocultáveis. Felizmente, ou infelizmente, estes não tardam a aparecer, poupando-nos o prejuízo financeiro da aquisição, mas deixando-nos com aquele gostinho do quase acesso à tradução de um autor amado.

Pessoalmente, confesso que não compro mais esses livros, embora muito me alegre por estarem ocupando, nas prateleiras das livrarias, o lugar outrora ocupado por lixo esquerdista da pior espécie. Isso não impede, contudo, que eu me entristeça também. É lamentável ver grandes autores, como Chesterton, Hugo de São Vítor, C. S. Lewis (meu Deus! o que são aquelas traduções deste coitado pela Vida Livros!), traduzidos mal e porcamente a dezessete reais a lauda (ou até doze reais, acreditem!), quando o mercado paga entre vinte e cinco e trinta e cinco reais, e por tradutores amadores, sem nenhuma formação na área e que nem escritores são (o que antigamente era o mínimo que se esperava, de um tradutor não profissional, como garantia de que sabia alguma coisa de português).

Reconheço que todas essas pessoas estão muito bem intencionadas e tal, mas para isso há sempre aquele velho ditado: De boas intenções o inferno está cheio.

Todo o mundo sabe que, hoje em dia no Brasil, é raro que prédios de três andares tenham porteiro fixo, ao menos durante o dia. Todo o mundo, menos os Correios. Esta magnífica empresa jurássica e monopolista possui uma “norma” – ah! que linda palavra! tão linda que até nome de ópera já foi – segundo a qual os entregadores não podem tocar o interfone para entregar aos moradores as encomendas que necessitem de assinatura de recebimento. Quem deve recebê-las e assinar o formulário é o porteiro. Caso não haja porteiro, as encomendas voltam para o depósito, após três tentativas de entrega (preste bem atenção: TRÊS, ou seja, o sujeito tem de voltar ao prédio TRÊS vezes, mesmo sabendo que não há porteiro) e um aviso de chegada é deixado na caixa de correio do edifício.

Agora imagine um bairro inteiramente composto de prédios de três andares sem porteiro. Imagine o entregador voltando três vezes a todos eles, mesmo sabendo que o faz inutilmente, e imagine ainda o coitado do eleitor da Dilma preenchendo centenas de avisos de recebimento toda semana e os deixando nas caixas de correspondência dos edifícios. Pura burrice, não é mesmo? Ainda mais para um sujeito que não ganha por hora de serviço e que, portanto, receberá, ao fim do mês, sempre o mesmo salário, independente do trabalho que tenha.

Imagino, então, que seja por isso que o funcionário dos Correios que trabalha aqui no bairro entregando as tais encomendas necessitadas de assinatura de recebimento tenha-se saído com a brilhante idéia de simplesmente tocar nos interfones dos apartamentos (que nem são tantos assim; nunca o vi entregando mais que umas duas encomendas por edifício, e ainda “pula” vários deles), aguardar lá embaixo por uns trinta segundos, até que os moradores desçam, entregar-lhes as benditas caixinhas e ainda por cima – ó raios! – fazer amizade com os supracitados, a ponto de que até os cachorrinhos destes o reconheçam na rua e façam-lhe festa. Que magnífico desafio, à la jeitinho brasileiro, à burrice estabelecida, não? Que linda forma de humanizar as relações burocráticas. Chego a perdoá-lo por ter votado na Dilma (sim! ele mo confessou, arrependido, certa vez).

Mas há um porém: o brasileiro, geralmente, só aprende apanhando, isso quando aprende. Decerto que meu ilustre amigo se deu conta disso tudo porque, ao tentar cumprir a “norma”, passou pela ingrata experiência descrita acima. Por isso, quando ele sai de férias, eu sempre recebo uma advertência do entregador, naquele tom polido e professoral dos cumpridores de normas burocráticas imbecis, de que ele não deveria estar fazendo o que está fazendo, ou seja, entregando-me minha encomenda pessoalmente, pois a norma… bem, vocês já sabem.

  
Cormac McCarthy, em Meridiano de Sangue, em tradução excelente de Paulo Faria para a editora Relógio D’Água, de Portugal.

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