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Antes de tudo, quero dar um conselho: Não leia esse livro nesta tradução (Rocco, 2001). A língua portuguesa no Brasil está em franco processo de auto-destruição por analfabetismo funcional, e essa tradução é um sintoma quase perfeito disso.

Ravelstein é muitas coisas: autobiografia ficcional (provavelmente baseada, ao menos em parte, em experiências reais), biografia ficcional, romance narrado em primeira pessoa, filosofia, sociologia etc. Dizer isso é ser redundante, claro, mas ressalta um aspecto peculiar do livro: o estilo de crônica.

O título é o sobrenome de um professor de filosofia política, uma figura “excêntrica”, mas entre aspas porque trata-se de uma legitimidade e não de uma excentricidade. Em tempos de falsificação e mentira generalizada nos meios acadêmicos, quem busca a verdade e vive uma vida inteira com sinceridade torna-se um excêntrico. Em terra de loucos, os normais é que são socialmente reconhecidos como loucos. E o mundo hoje é, acima de tudo, terra de loucos – loucos burgueses politicamente engajados em qualquer merda que surja na frente e que esteja a serviço da destruição da civilização ocidental e, ao mesmo tempo, loucos com medo de tudo e de todos e da morte enfim. Presas fáceis de inimigos como o Islã, o comunismo russo renovado em putinismo e a Nova Era. E, acima de tudo (no caso desta obra em particular) o anti-semitismo.

São reflexões como essas que povoam o livro de Saul Bellow, um Nobel que merece ser Nobel, ao contrário de um Modiano e de um Saramago, dois insossos, este mais ainda que aquele.

As reflexões, dentro de um romance, parecem sempre mais interessantes, mais verossímeis, obviamente porque estão entremeadas com a narrativa, que nos dá esse contato com a realidade que a filosofia em geral não dá diretamente (mas deveria e, de fato, dá quando é verdadeira e boa). E neste romance aqui, escrito em tom de bate-papo, de história que bem poderia estar sendo contada em uma sala de estar por um amigo íntimo, reflexão é sinônimo de auto-análise existencial. O narrador se analisa enquanto analisa o “biografado” Ravelstein e os outros personagens, também parcialmente biografados e, acima de tudo, psicologicamente sondados.

Não sei bem por que não lhe dei cinco estrelas. Talvez porque falte algo, talvez porque eu gostaria que o autor fosse mais poético, o que é mais uma expectativa minha do que qualquer outra coisa. A verdade é que temos aqui um ótimo livro, que nos faz pensar em nossa própria vida, nossos próprios problemas, defeitos, imbecilidades, em como somos burgueses ávidos por uma segurança material e psicológica que corrói a legitimidade e reduz a nada o sentido da vida. E quando digo “burgueses”, e quando o autor o diz, não é como um socialista o diria, não é como um ambientalista diria ao se referir a um yuppie; pois socialista e yuppie são papéis sociais, não são pessoas. Ravelstein, sob esse aspecto, é um yuppie em seus hábitos, na maneira como se veste e nas coisas que compra. Aqui está a melhor característica do livro, o que lhe confere sua profundidade: Ravelstein é uma pessoa que não pode ser “lida” pelo que veste ou compra. Ele é muito mais que isso, embora também seja vítima de seu tempo em vários aspectos – afinal quem o não é?

Além de ser o perfil de um biografado ficcional, o livro é o perfil do biógrafo e de algumas outras personagens, como a ex-mulher deste e sua atual mulher. O mais importante, porém, é que é o perfil de uma época, é o retrato do mal do século ocidental. E tudo isso sem deixar de ser literatura, muito boa literatura.

Descobri por acaso uma contista norte-americana, a Lydia Davis. Em um de seus contos, ela narra sua fixação com uma lagarta que encontrou em seu quarto. Diz que não mata nenhum ser vivo desnecessariamente, então pega a lagarta com um papel e, como não havia nenhuma janela de onde pudesse jogá-la, resolve descer as escadas de casa e deixá-la no jardim. No caminho, porém, a lagarta cai e, muito pequena, some de vista na escadaria. Por várias horas, a narradora se lembra do assunto, chega mesmo a procurar a lagarta várias vezes, até que desiste. Tudo isso é contado nos mínimos detalhes. Fiquei pensando em como parecemos importantes na Internet, quando na verdade somos como essa mulher, no dia a dia. Ou nem isso, pois qual de nós seria capaz de descrever as coisas que faz, mesmo as mais idiotas, com um pouco de precisão que seja?

Aos poucos

Aos poucos, vou descobrindo por que, por tanto tempo, eu não gostei de literatura. A tradução brasileira é uma merda. Provavelmente, metade dos livros que a gente acha ruim é por culpa do tradutor, esse porco imundo que se arrasta pelos rincões da existência, sem nem ao menos valer-lhe a dignidade do anonimato na caridade de sua oferta. Oferece-nos, o porco, umas pérolas encharcadas de lama e esterco. Chafurdamos ali, então, por anos a fio. Quem sai do outro lado, ou vai se limpar, ou porco já se tornou também.

 

Dia desses fui buscar na biblioteca daqui um livro de Mauriac. Mas não pude retirá-lo: estava na seção de obras raras, informou-me a bibliotecária, pois era “de 1943!” (palavras da “mesma”). E por oito reais, recebo hoje este livro que figura na foto, impresso – pasmem – em 1938! Suponho que, quando eu tiver oitenta anos, metade do que hoje se encontra nas prateleiras daquele triste lugar estará na seção de obras raras. Pior: eu mesmo lá estarei!

Certa vez, meu irmão, a quem agrada admirar casas antigas, parou em frente a uma casa na cidade de Anchieta (Espírito Santo) e ficou olhando-a. Havia, na fachada, a data da construção. Pois bem, ao lado do meu irmão estava meu tio, e a data da casa era posterior à do nascimento deste. Meu tio disse então ao meu irmão: “Por que você não olha pra mim, em vez de olhar para a casa?”

Se um simples romance de 1943 está na seção de obras raras e, conforme me informou a sempre solícita bibliotecária, “só pode ser manuseado com luvas”, imagino que meu tio – que ainda está vivo e tem mais de noventa anos – deva estar sendo atualmente conservado em formol. Vou telefonar aos meus primos e perguntar-lhes se a suposição confere! 

Verdade seja dita: A suposta habilidade das novas gerações para lidar com a informática não passa de um mito. Os jovens de hoje, salvo as exceções de sempre, não sabem realizar as mais básicas operações, como fazer buscas decentes no Google, gerenciar arquivos num drive virtual, ou até mesmo efetuar registro e login em serviços de internet. Não são capazes de aprender sozinhos as funções básicas dos mais intuitivos softwares do mercado, não conseguem fazer download se o botão não trouxer estampada a palavra “download” (e não houver nenhuma outra etapa no processo) etc etc. Hoje rasgo mentalmente todos aqueles textos pseudoproféticos escritos por americanos empolgadinhos – falando de quarta onda, baby boomers, generation x – que eu li na faculdade de comunicação. Tudo enganação. O que vale mesmo é a boa e velha decadência cultural, com seus sintomas arquiconhecidos – como, neste caso específico, a dificuldade de intuir procedimentos e padrões de funcionamento, e de lidar com imprevistos secundários que não alteram o rumo de um processo. É, meus amigos, autodidatismo! Conhecem?

Traduções brasileiras de literatura, quando não estão simplesmente erradas, soam mal.

Dou um exemplo, sem identificar o autor, que é pra não influenciar. Perceba, além do fluir da fonética, a riqueza do vocabulário e da sintaxe:

Tradução portuguesa:

“Desmond Pepperdine (Desmond, Des, Desi), o autor deste documento, tinha quinze anos e meio. E a sua caligrafia, hoje em dia, era compenetradamente elegante; as letras costumavam inclinar-se para trás, mas ele treinara pacientemente incliná-las para diante; e quando tudo se combinava com lisura ele começava a acrescentar pequenos floreados (o seu ‘e’ era positivamente ornado — como um ‘w’ virado de lado). Usando o computador que agora partilhava com o tio, Des ministrara a si próprio um curso de caligrafia, entre vários outros cursos.”

Tradução brasileira:

“Desmond Pepperdine (Desmond, Des, Desi), autor desse documento, tinha quinze anos e meio. E sua caligrafia, no momento, era de uma elegância tímida; as letras tendiam a se inclinar para trás, mas ele, com toda a paciência, as obrigava a inclinar-se para a frente; e quando tudo estava suavemente unido, adicionava pequeninos floreios (seu ‘e’ era sem dúvida ornamental — como um ‘W’ virado de lado). Usando o computador que agora compartilhava com o tio, Des resolveu fazer um curso completo de caligrafia, entre vários outros cursos.”

É nos detalhes que o bom tradutor trabalha. Perceba, por exemplo, como “mas ele treinara pacientemente incliná-las para diante” está muito mais bem resolvido que “mas ele, com toda a paciência, as obrigava a inclinar-se para a frente”; ou como “quando tudo se combinava com lisura” é mais natural que “quando tudo estava suavemente unido”; ou, ainda, o quanto “ministrara a si próprio um curso de caligrafia” é mais rico que “resolveu fazer um curso completo de caligrafia”.

Agora leia o trecho em inglês e veja como a tradução portuguesa, além de tudo, ainda guarda mais respeito ao original:

“Desmond Pepperdine (Desmond, Des, Desi), the author of this document, was fifteen and a half. And his handwriting, nowadays, was self-consciously elegant; the letters used to slope backward, but he patiently trained them to slope forward; and when everything was smoothly conjoined he started adding little flourishes (his e was positively ornate—like a w turned on its side). Using the computer he now shared with his uncle, Des had given himself a course on calligraphy, among several other courses.”

P.S.: O trecho é de “Lionel Asbo”, de Martin Amis.

Sobre o livro The Actual, de Saul Bellow, eu escrevi umas reflexões no Goodreads, em inglês, e depois as completei em português. Seguem abaixo. O que me levou à leitura foi o curso Literatura e Autobiografia, muito bom por sinal, recomendo-o fortemente a quem esteja interessado a viver sua vida pessoal com mais autenticidade, autoconsciência e, conseqüentemente, humanidade.

“I stood back from myself and looked into Amy’s face. No one else on all this earth had such features. This <i>was</i> the most amazing thing in the life of the world.” [p. 104]

I think what makes this book great is not that it is a love story or the story of two lives that come to accept each other, but rather that this acceptance is a spiritual one and therefore eminently REAL. Harry and Amy are always present to one another, always mutually actual. The other people who they meet in their lives, even husbands and wives, are not actual, even if they are real and present, because actuality is inside us. One can be with another person physically but not be with this person in actuality, i. e., spiritually connected or REALLY connected. That’s where the “magic” is. And what we sometimes call the magic of love is nothing more than the reality which is right in front of us but we refuse to see. It’s something simple, but then we’re so complicated that we don’t come to see it and accept it.


Escrevi mais coisas sobre o livro depois de conversar sobre ele com um amigo, então acrescento-as a esta resenha. Eis:

A vida dos personagens é um pouco diferente da minha, mas isso é interessante, porque funciona como uma “hiperbolização” da história, o que dá mais força às experiências e as torna mais “visíveis” a mim, o leitor. Eu vivi experiências semelhantes às deles, mas em grau reduzido de intensidade, digamos assim.

A prosa do Bellow é muito bonita, e isso não se transferiu para a tradução brasileira. É bonita de um jeito simples. Não há muita estetização, mas a leitura flui com suavidade, é como se estivéssemos ouvindo alguém falar, e falar perfeitamente claro, sem tropeços nem gaguejadas. Nas traduções portuguesas de que eu andei lendo trechos, isso aparece mais, porém não nas brasileiras. Alguém precisa ainda escrever um livro sobre a superioridade das traduções lusas sobre as brasileiras.

Sobre a mensagem do livro, acho que o título da tradução lusa revela bem a idéia: “A autêntica”. Eu traduziria não exatamente assim. Traduziria como “Autenticidade”. Seria perfeito, pois transmitiria aquilo que a Luciane fala na aula, todos aqueles significados da palavra “actual”. Pois a mensagem do livro é justamente isso, ou seja, a autenticidade do amor verdadeiro, que não depende de sentimentalismos ou de um romantismo medíocre, mas simplesmente de uma empatia profunda, essencial, em cima da qual se exerce – sem limites e sem a necessidade sequer da presença física – a imaginação de quem ama. É quando o protagonista reconhece isso, ou seja, quando ele aceita aquilo em si mesmo, que ele consegue transformar a potência de seu amor em ato.

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