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Uma das coisas mais interessantes que o Ronald Robson constata em seu interessantíssimo ensaio do sexto número da Revista Nabuco é que a cordialidade do brasileiro, ao trazer tudo para o pessoal, impede-nos de enxergar a vida como algo eminentemente gerido por essa espécie de burocracia filosófica que a Nova Ordem Mundial quer impor ao mundo. Por aqui, mesmo com toda a lavagem cerebral que a mídia realiza via novelas e jornais, só ainda muito raramente topamos, numa ciclovia quase deserta, com aqueles seres exóticos que passam “buzinando” e reclamando que ali não é lugar de andarmos com o nosso cachorro; ou, no trânsito, com aquele pedestre revoltadinho que nos passa um sabão porque paramos muito em cima da faixa (a filosofia de vida burocrática ignora, por definição, a eventualidade de que possamos não ter visto o pedestre a tempo, ou de que a faixa esteja num local inapropriado; pois tudo para ela é perfeito, tudo funciona otimamente). O brasileiro tem um dom que não é necessariamente ruim. Esse dom, aliás, em tempos de Estado Moderno, é muito mais benéfico que maléfico:
 
“Alguém dirá que arriscado (…) é sofrermos nas mãos de que[m] não respeita o Estado e dele se vale para benefício próprio e malefício nosso. Mas esse risco só ocorre cronicamente numa sociedade em que existe um outro risco, muito mais benéfico, que é aquele de eu e você não darmos a mínima para a existência de Estado algum. Acredito que o que vem ocorrendo no Brasil é uma boa amostra de que, para o brasileiro, o rei sempre esteve nu, e que, se lhe beijamos a mão num momento, não nos é muito custoso chutá-lo porta afora no momento seguinte.”
 
As análises que o ensaísta faz sobre a história do Brasil e sobre as características próprias do brasileiro são complexas, ricas. Transcendem as simplificações, tanto as liberais quanto as esquerdistas, reconhecendo valor até mesmo em obras para as quais muitos conservadores olham torto, como as de Sérgio Buarque de Holanda. Ler o ensaio de Ronald Robson, apesar de todos os problemas sintáticos e gramaticais que o perpassam, deixou-me com vontade de ler um bom, um ótimo livro de história do Brasil e de sociologia do brasileiro, daquele tipo que ainda está por ser escrito sei lá por que aluno do Olavo. Talvez pelo próprio Robson. E deixou-me com vontade, também, de ser seu revisor!

Relato que um colega de profissão me enviou recentemente:
“Olá, Evandro! Tudo bem? Sou tradutor técnico inglês-português e há tempos acompanho seu blog. Não tenho formação acadêmica na área. Já fiz oficinas e cursos de curta duração, incluindo de tradução literária. 
Numa das últimas oficinas de tradução literária, no ano passado, lembro-me de ter levado para uma das aulas um post do seu blog com uma tradução de Meridiano de Sangue na edição portuguesa e brasileira. Tanto o professor (tradutor da ******** editora) quanto os alunos (todos formados em Letras e alguns cursando pós em tradução) disseram que, em primeiro lugar, o português de Portugal é diferente (!). Respondi que disso eu sabia. Apenas gostaria de lhes mostrar um exemplo de como as traduções portuguesas atualmente são melhores do que as brasileiras. O professor discordou e afirmou que nunca o Brasil contou com tantos tradutores bons como hoje. Quanto aos alunos, percebi que todos só liam tradutores brasileiros. Não só isso: para minha surpresa, os alunos não eram tão bons como eu imaginava (antes mesmo de começar eu já me coloquei para baixo, como o pior dos alunos, o pobrezinho…). Já no fim do curso, o professor nos entregou um artigo do Bagno! Conheci a figura naqueles artigos do Olavo. Surpresa ainda maior foi descobrir que TODOS os alunos conheciam o Bagno! Lembro-me de ouvir ‘Ah, já li um livro dele, muito bom!’, ‘Ah, tem um livro dele…’, ‘Li a gramática dele…’ Para terminar: em quase todos exercícios, o professor colocou os meus entre os melhores; mas eu sabia que havia muita coisa para melhorar.”
Só tenho um único comentário a fazer: Sim! Temos muito mais tradutores de qualidade hoje, pois nossa população quadruplicou. Na década de 1950 tínhamos uns 6. Hoje temos uns 8.

Captura de tela 2016-06-25 01.17.35

 

Esta foto de uma reles pesquisa no Google, da palavra “compass”, é minha humilde “homenagem” ao bobão que traduziu o livro “The Moral Compass”, de William J. Bennett, como “O livro das virtudes II: O COMPASSO moral”, para a Editora Nova Fronteira. Compasso teu c#, ô imbecil!

É comovente como, do dia para a noite, LITERALMENTE, os jornalistas passaram a referir-se a uma tal “cultura do estupro” com uma naturalidade quase infantil. Nada de novo, mas essas coisas são tão surreais – a maleabilidade, praticamente gelatinidade mental do homem moderno – que não canso de me admirar.

Na qualidade de escritor insignificante de Facebook, escrevo um post linkando um vídeo em que três figurões conversam sobre a intelectualidade de direita no Brasil. O post tem exatas 17 curtidas. Mesmo assim, um deles, editor famosíssimo, aparece nos comentários meio ofendido com o que eu possa ter insinuado a seu respeito e tenho de lhe explicar, aos trancos e barrancos, o que eu quis dizer, antes que ele saia correndo por falta de tempo.

Como explicar sua aparição? Ah, decerto os dedo-duros, bajuladores de Internet, smeagles de inbox, prontamente lhe enviaram o link do meu post, ansiosos por uma “treta” gratuita.

O Brasil não precisa de censura, já tem os brasileiros.

O que o Martim diz em 01:42:47 é uma das coisas mais importantes do mundo e que, convenhamos, POUQUÍSSIMA gente na “nova direita” faz.

Claro, não deveria ser nenhuma novidade para alunos do Olavo; é só mais uma daquelas idéias copiadas do grande mestre. Termina, porém, fazendo as vezes do “novo”, ao menos no sentido de que é algo que todos já ouviram, mas quase ninguém botou em prática.

 

Claro, como pude me esquecer do Charles Bukowski, no post anterior? Pode parecer pouco edificante ter como influência alguém como ele, mas conheci poucos autores mais sinceros, até hoje, que aquele velho safado. E para piorar, ou melhorar, ainda foi usuário de Macintosh no fim da vida. Deve ter sido um dos únicos usuários heterossexuais que a Apple já teve, fora eu.

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