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Mais merquior

Das três funções históricas da arte literária: edificação moral, divertimento, e problematização da vida, a literatura da era contemporânea – a literatura da civilização industrial – cultiva preferencialmente a última. A hipertrofia da visão problematizadora é, desde o romantismo, uma característica fundamental das letras; de tal modo as grandes obras literárias se foram concentrando nesse objetivo, nessa atitude crítica ante a existência, que a edificação e o divertimento se viram quase excluídos da literatura de alta qualidade. De Goethe para cá, os textos predominantemente destinados a inculcar ideias morais estabelecidas, ou a distrair o espírito, situam-se à margem dos valores literários; ou então se confundem, pura e simplesmente, com a subliteratura. No entanto, autores tão importantes quanto Virgílio e Dante, Gil Vicente e Calderón criaram obras máximas dentro de direções fortemente edificantes; Boccaccio e Ariosto fizeram literatura de alto nível sem outra pretensão que o entretenimento; e da obra de Homero – ao mesmo tempo “romance de aventuras” e suma dos mitos que encerravam a educação helênica – pode-se dizer que está regida por uma fusão perfeita do divertir e do edificar.

Mas o que tornava praticável esse embutimento da distração na edificação? Na resposta a essa pergunta se encontra justamente a explicação da hegemonia da função problematizadora na literatura da sociedade moderna. É que o mundo de Homero possuía valores estáveis. Por isso, o próprio divertimento era capaz de atuar como veículo de formação ética. Em substância, o teatro medieval operou a partir de uma base cultural análoga. As sociedades tradicionais conheciam, naturalmente, muitas crises ideológicas e sérios conflitos sociais – mas preservavam, de um ou de outro modo, através das classes e das gerações, uma coesão espiritual que a nossa civilização não mais (ou ainda não?) experimenta, porque não mais oferece a seus filhos uma orientação global da existência unanimemente aceita e partilhada. Não havendo valores estáveis, a literatura, no seu papel de interpretação da vida por meio da palavra, passou a procurá-los: daí ter ela assumido uma visão problematizadora. Para nós, nomes como Goethe ou Hölderlin, Dostoiévski, Kafka ou Fernando Pessoa representam, antes de mais nada, grandiosas tentativas de discutir o sentido da existência; por causa disso é que eles se inscrevem no centro vivo da tradição moderna.

José Guilherme Merquior, em De Anchieta a Euclides.

Sim ou não

As cinco perguntas de tipo “sim ou não” que os cardeais fizeram ao Papa, principalmente a segunda, de tom quase irônico, são um verdadeiro tapa na cara do Vaticano II e sua linguagem repleta de “possibilidades hermenêuticas”:

1) Se adúlteros podem receber a Sagrada Comunhão.
2) Se existem normas morais absolutas que se devem seguir “sem exceções”.
3) Se o adultério como hábito é uma “situação objetiva de incursão habitual em pecado grave”.
4) Se as “circunstâncias ou intenções” podem transformar um ato intrinsecamente mau em um ato bom “do ponto de vista subjetivo”.
5) Se, com base nos ditames de sua “consciência”, um indivíduo pode contrariar “normas morais que proíbem atos intrinsecamente maus”, quando estas são de conhecimento geral das pessoas.

[Tradução minha]

Entender as coisas direito dá trabalho. E o que é pior: tem que saber inglês para isso. E pior ainda, tem que ler os livros “do contra”, ó horror dos horrores!

Claro, muitos livros “do contra” acabam se revelando os mais sensatos. Mas não sem que gastemos muitos neurônios no processo.

Regrettably, it is often the case that those who are most vocal in their opposition to Austrian economics and most insistent on its incompatibility with Catholicism who turn out to know the least about it. Not long ago, for example, John Sharpe, the head of a publishing house dedicated to books on Catholic social teaching, described “[t]his infatuation with Austrian economics” as “a strange phenomenon among Catholics.” It is practically certain that at the time he made that remark he had read essentially nothing by Mises or Rothbard. Yet he felt qualified to conclude:

“Many of the critics of Distributism repeatedly cite the words of Murray Rothbard, Ludwig von Mises, and others of the Austrian school in defense of their position. . . . The Austrian economists were liberals, plain and simple, following on the heels of the French Physiocrats and the liberal English Political Economists. They opposed socialism not because it violates the natural law as taught by true philosophy and confirmed by Revelation, but because it is less efficiently productive of material wealth than the free market.”
No one who had ever read anything by Mises, or especially by Rothbard, could have made such a remark. We find here no acquaintance with the basic ideas of the Austrian School of economics, let alone the distinction between the Austrian and Chicago schools (the latter of which does indeed place great emphasis on economic “efficiency”). St. Thomas Aquinas went out of his way to understand his opponents’ arguments in order better to refute them. He demonstrated this kind of charity even when dealing with the arguments of outright heretics. Surely we have a right to expect that our fellow Catholics, before launching such attacks, likewise acquaint themselves with the matter at hand.
Mises did, of course, point out the inefficiencies of socialism, though why this should render him suspect is far from clear: even Aristotle implied the inefficiency of socialism when he spoke about the extra care with which we treat property that is our own. Economists’ preoccupation with “economic efficiency” is routinely cited as evidence of their moral perversity—do they not know that there is more to life than mere efficiency? But surely efficiency is a value. It is simply the avoidance of waste. Any conception of man’s stewardship of the things of the earth must inevitably involve a concern for the avoidance of waste. As historian Ralph Raico has noted, it is a good thing that the capitalists of the eighteenth century were every bit as committed to costcutting and efficiency as their modern-day critics claim they were, since in a society as poor as theirs any waste came at the expense of the well-being of the great mass of the population.
Moreover, Mises’ economic argument against socialism went far beyond the mere question of efficiency as that term is popularly understood. His intellectual demolition of socialism constituted a work of such genius that one can scarcely imagine grounds on which an intelligent Catholic could simply dismiss it as a product of “liberalism” unworthy of his attention.

Fonte: Thomas E. Woods, The Church and the Market: A Catholic Defense of the Free Economy.

Uma lembrança

Deixei a inocência no passado. Posso vê-la me acenando de algum lugar dos anos noventa. Também lá deixei uma alegria pura, sem preocupações. Não que eu tenha motivos de preocupação, o futuro a Deus pertence. Mas é mais forte que eu. Não posso evitar. Nem que seja uma preocupação com o passado, uma pós-ocupação, de lembrar e pensar e ver tanta coisa atrás de mim e eu aqui ainda sem saber o que sou e para onde vou. Se o Céu é um lugar perfeito, deve ser como uma lembrança.

Fui tirar um cochilo às sete da noite. Minha cadelinha, feliz da vida, enfiou-se embaixo da cama e eu pude ouvir suas bufadas. Depois se espreguiçou e eu fiquei ali sentado, lendo um pouco até o sono chegar. Acordei às oito ouvindo um pernilongo. Quando acendi a luz, sumiu, como costuma acontecer. De novo no escuro, acabei matando-o com um tapa no travesseiro. Meu Deus! Que loucura é a vida. Toda uma eternidade de alegria ou tristeza pela frente, de Céu ou de Inferno, anjos e demônios lutando pela salvação ou danação das almas, e a gente aqui cochilando com bicho de estimação e matando pernilongo no escuro! Tendes noção do tamanho da besteira que fizeram Adão e Eva?

Pretérito perfeito

A foto aí de cima sou eu por dentro, muitas vezes. Menos ou mais do que eu gostaria, dependendo do dia. Nas minhas memórias mora um monte de ruínas. Coisa de quem nasceu em Brasília (talvez já tenha dito isso aqui) e passava as tarde de domingo andando de bicicleta entre os prédios ermos de concreto sujo. Isso entrou em mim, de algum modo. Sinto uma paz interior em lugares ermos, abandonados até. Fico feliz. Até o lazer, na minha infância, era numa paisagem de ruínas. As quadras de futebol de salão eram esburacadas, com grama nascendo entre as placas de concreto já quase sem tinta, as traves do gol meio tortas, sem rede, como as cestas de basquete, quando existiam ainda. Foi nesse ambiente que eu fiz amigos, amei meninas, sofri e fui feliz. A gente cresce no meio da feiúra e nem sabe, ama no concreto e sonha nas ruínas e nem se dá conta disso. Talvez por isso minha alma parece seca, às vezes. Mas me lembro de tudo aquilo e quero viver de novo, passar pelo mesmo, não escolher um mundo diferente de jeito nenhum.

Ai, que alívio escrever isso aqui.

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