Eu chinês

Eu, no horóscopo chinês (concordei com tudo!):

Coelho

O quarto ramo da astrologia chinesa é simbolizado pelo Coelho (Mao). Os
nativos desse signo são extremamente diplomáticos: dão mil voltas numa
situação até obter os resultados que desejam. Não confiam nas pessoas com
facilidade e podem tornar-se solitários por opção. Aparentam serenidade,
autoconfiança e sofisticação, mas no fundo são bastante ambiciosos e nunca
deixam de lutar pelas coisas que querem. Graças ao seu notável jogo de
cintura, as pessoas que nascem sob o signo de Coelho raramente cultivam
inimizades e conseguem se sair bem das mais diversas situações. São
estudiosas e é provável que se interessem pelo ramos das artes. Nunca se
precipitam e por isso mesmo costumam ser bem-sucedidas em todos os seus
projetos.

Quadro astral do Coelho
Classificação chinesa: Mao, o conformista
Signos complementares: Carneiro e Javali
Signo oposto: Galo
Palavra-chave: Sensibilidade
Desafio: Manter em equilíbrio a razão e a emoção

Bernardo e o ermitão

Chamo-me Zinfas, o Ermitão. Meu nome tem uma origem. Eu, inicialmente, não tinha um. Certa feita, um curioso alpinista me perguntou “faz muito tempo que você está aí nessa caverna”, ao que respondi fanho, pois estava gripado na ocasião: “Zim. Faz”. Depois adaptei as letras e criei o tal nome. É importante ter um nome. Todos deveriam ter. Pensando bem, todos têm um nome.

Bem, acontece que eu, Zinfas, aqui do alto, em minha caverna, sinto falta de praças, de Sol, de mar, de caminhos verdes. Estou aqui e a vista é fria, mata-me por dentro às vezes, quando não estou voltado para dentro de mim. Eu não me basto. Bastar-se é uma ilusão que muitos vivem. Eu também vivi, por isso vim até aqui, alojar-me nesta caverna, com meu Livro Sagrado do Conhecimento Eterno. É um livro interessante. Tem 50000 páginas em um único tomo. Depois conto mais sobre ele. Mas o fato é que não me basto, as 50000 páginas não me bastam, 50 milhões delas não me bastariam, ou “bastar-me-não-iam”, como gosto de dizer, em mesóclise negativa, uma invenção minha.

Agora, depois destas 50000 páginas, quero viver, correr por parques, destilar meu suor em mil camisetas, lançar-me contra as ondas de mil mares, sentir o cheiro dos mexilhões muito molhados e mal-lavados, tatear a humidade e a secura de mil cidades, conhecer pessoas chatas e pessoas interessantes, ouvir latidos de cães e o barulho do vento e das folhas das árvores. A única coisa que não quero é o barulho dos carros. Malditos carros! Ouço cada buzina e cada sirene até aqui do alto de minha montanha! São tantos deles que não consigo não ouvi-los.

Depois de tantos milênios aqui dentro, percebi uma coisa: um homem não vive sem viajar ao menos uma vez por mês. Mas quem viaja uma vez por mês? Eu? Tu? Ele? Nós? Vós? Eles? Sempre “eles”, os bem-aventurados, os exemplares, os que nunca vi e nunca verei, mas que servem de ideal, os terceiros (aqueles dos cheques).

Então resta este fato cru. E minha raiz se aprofundando terra adentro, raiz de obrigações as mais diversas, limitações, pentelhidades, privações, e eu que não viajo, não saio daqui nem a pau. Prisioneiro de metáforas, abstrações, imaginações de todo tipo, e prisioneiro do sucesso que elas fazem, dos aplausos que elas recebem de meu Ego, que atende também pelo nome de Bernardo.

A paz da ONU é uma piada

Mesmo os mais mundanos assuntos podem ser lidos com admiração. Para tanto, basta que o autor os ligue a sua verdadeira origem, alhures. Aos valores mais elevados que a humanidade conquistou às custas de milênios de reflexão e aprendizado, bem diferentes do materialismo-pragmatismo-cronocentrismo grotesco dos jornais. Senão, vejamos.

Uma ou duas lições

Nestes tempos em que mesmo os mais ignorantes agem como se soubessem tudo o que se passa no mundo, sentindo-se até no direito de criticar povos e nações inteiras sem o menor pudor, ou de se dizerem seus amigos (o que dá no mesmo, pois pressupõe a mesma intimidade da amizade), nestes tempos é preciso valorizar a humildade. Precisamos reconhecer que existem milhares de lugares que não conhecemos, onde moram milhares de pessoas que também nunca vimos. Essas pessoas vivem suas vidas normalmente em lugares por onde nunca passamos, estão familiarizadas com ruas, praças e avenidas onde nunca estivemos.

Tudo isso parece banal, mas não é. O fato é que a impressão de onisciência – mais ou menos equivalente à sensação de ser o centro do mundo – é um dos sentimentos mais fáceis que existem. Digo isso por experiência própria. Quantas vezes me surpreendi com cidades que visitei pela primeira vez… Quantas vezes tive vontade de me mudar, viver a vida daquelas pessoas. E de fato o fiz duas vezes. Com o passar do tempo, entretanto, fui percebendo que essa vontade de mudar de cidade se repetia em cada nova cidade que eu visitava, mas em diferentes graus de intensidade. E fui aprendendo a lidar com esses graus de intensidade. Fui aprendendo que devemos, sim, buscar um lugar melhor para viver, mas que essa busca tem limites se não quisermos nos tornar nômades inveterados.

Acho que o sentimento de que estou falando pode ser chamado de descoberta da familiaridade. Você pode e deve fruí-lo toda vez que vai a um lugar novo para você. Extrai-se um grande prazer dessa descoberta, um prazer gradual e lento de que se vai desfrutando à medida que se entra em uma padaria nova, um café ou um restaurante, ou que se percorre uma rua pitoresca, ou que se sente o cheiro do ar (sim, cada cidade tem seu próprio cheiro!).

Se você souber tirar uma ou duas lições a partir dessa “descoberta da familiaridade”, já andou um passo em direção ao auto-conhecimento e à humildade. Em linguagem simples, pode-se dizer que o auto-conhecimento, aqui, consiste em saber que fotos e imagens não descrevem lugares do ponto de vista “humano” – que no fim das contas é o que mais importa quando se fala de cidades e locais habitados (portanto, desligue sua televisão, já que ler um livro vai te dar muito mais conhecimento sobre uma cidade do que assistir a um documentário). E a humildade… Bem, dessa eu nem preciso falar. Vou dar apenas um exemplo: eu não tenho a mínima condição de dizer que os americanos estão errados ou certos em terem escolhido o Bush como presidente. Eu não vivi nos lugares onde eles viveram, não tive as experiências que eles tiveram. O que me resta é apenas uma capacidade imaginativa abstrata, que me permite tentar reconstruir tudo isso em minha mente e tentar entender uma coisa que para os americanos deve ser óbvia: o verdadeiro significado de liberdade. Os significados estão embutidos nas coisas mais banais. Quando você entra em um café no Rio de Janeiro, pode ver centenas de milhares de significados pululando pelas mesas e cadeiras. Da mesma forma, quando entra em um restaurante de Nova Iorque, provavelmente verá muitas coisas que nunca tinha visto. Imagino que dê muito trabalho visitar uma enorme quantidade de lugares nos Estados Unidos ou em qualquer outro país. Além disso, você pode também visitá-los e nunca descobrir seus significados. Basta que você continue sempre se comportando como um turista, maravilhando-se com tudo, confundindo o gostar com o reverenciar (e demais equívocos próprios de turistas deslumbrados). Da mesma forma, dá um trabalhão reconstruir imaginativamente familiaridades – a partir de leituras literárias, filosóficas, históricas etc etc, familiaridades que levam ao entendimento do significado, para cada povo, das grandes conquistas, por exemplo, morais da humanidade. Você pode se comportar como um turista teórico, e ficar andando em círculos pela vida afora.

Essas foram algumas das lições que tirei de minha visita ao Rio de Janeiro, cidade que nunca senti vontade de visitar. Ainda bem que venci meu desdém. Quando você vence um sentimento ruim, sempre recebe uma recompensa. A minha foi algumas centenas de milhares de significados e experiências que não aparecem em campanhas publicitárias bobinhas de auto-engrandecimento regional e nem muito menos no cansado slogan “Cidade Maravilhosa”. Recebi a linda recompensa da familiaridade, concebida discretamente, a cada esquina, pelas cidades verdadeiramente belas. Acrescente-se a isso a companhia de uma grande amiga e guia local, e tem-se a recompensa na medida exata. Se melhorar, estraga!

Pequeno mergulho no ex-Eu

Tenho saudade da redoma de vidro. Saudade de achar bons os livros nas estantes das livrarias. Saudade de achar legal um professor anti-alguma-coisa. Saudade de ler um poema péssimo e achar ousado. De ver o Abujamra e achar engraçado. De ouvir a ladainha e achar novidade.

Quando eu mal tinha saído do ovo e já queria ter as manha, neguinho me disseram um monte de coisas sobre isso e aquilo. E eu tenho saudade de ter acreditado. É uma saudade meio abstrata, sabe? É uma saudade de querer ter tido saudade de ser como todo mundo e querer mudar o mundo. Todo mundo quer mudar o mundo. Alguém então pergunta: “se todo mundo quer mudar o mundo, então por que o mundo não muda?” E eu digo: já está mudando, seu idiota. Só que está mudando pra pior. E, como na sua cabecinha de gorgulho não entra a hipótese de o mundo mudar pra pior (e por culpa sua, ainda por cima), você continua fazendo o maior esforço pra mudar “isso tudo que está aí”, pois, se está ruim, só pode ser porque não está mudando etc etc.

Entendeu por que a minha saudade não é propriamente uma saudade? Eu tenho, ou melhor, eu tivera, tinha ou quereria ter vontade de ser esse idiota. Assim eu gostaria de todas as coisas de que eu não gosto e não conheceria nenhuma das coisas de que gosto.

Complicado? Assim é se lhe parece, ou não.

Mas, pensando bem, eu não tenho é saudade nenhuma, ora bolas!

Comunicado

Caros condôminos-neurônios do edifício Cabeça do Evandro,

Venho por meio desta comunicar a todos os moradores deste prédio-gosminha que estão temporariamente suspensas as festas que se utilizem de DJornalistas e equipamentos sonoros de alta intensidade político-econômica, bem como quaisquer recursos visuais destinados à exploração das emoções baratas e superficiais, principalmente a piedade (mais conhecida como peninha).

Estamos esperando sugestões dos senhores quanto a ações de enfrentamento da Zotoridade, que, em nome do combate à Zelite, certamente tentará nos dissuadir quanto à presente iniciativa.

Lembramos ainda que, embora as festas estejam proibidas, os senhores ficam livres para se divertirem esporadicamente com os DJornalistas e com os referidos equipamentos, desde que não os tragam para o âmago de nosso edifício, perturbando a paz e a tranqüilidade deste recinto.

Outrossim, sugerimos futura votação em assembléia quanto à possível proibição, nas áreas públicas deste condomínio, de comentários relacionados às experiências oriundas do referido convívio esporádico.

Esperamos contar com a compreensão e a colaboração de todos, essenciais à sanidade do convívio.

Sem mais,

O síndico.

Gorgulho de ser brasileiro

Eu não moro no Brasil. Eu moro no décimo primeiro andar de um prédio. Daqui vejo o céu, que hoje está azulzinho azulzinho. Também vejo uma jardineira, que está na varanda e que está cheia de flores vermelhas, muitas delas. Nunca achei, quando a comprei, que nasceriam tantas. Escuto sirenes apressadas de vez em quando, menos de vez em quando do que gostaria. Do meu lado direito estão uns 30 livros, na minha frente está este através do qual escrevo estas mal-traçadas.

Atrás de mim há um passado, que um dia chorei por perder, ao som da Valsa da Dor de Villa-Lobos (e da minha também). Acima de mim há mais 54 apartamentos, 54 varandas, mais de 54 passados e o céu de que falei.

Dentro de mim tenho tantas coisas que mal cabem. Elas querem ir para esse céu, querem pegar um foguete e ir para o mar, mergulhar até esquecer e lembrar tudo. Elas querem sair andando por aí. Já não agüentam mais tanta clausura. Mas não querem simplesmente viver. Querem ser. Não querem passar os olhos em tudo e depois esperar o dia seguinte para passar os olhos em mais coisas, e depois esperar o dia seguinte de novo. Não querem saber do tempo. O tempo está fora de moda para elas. O tempo é um velho ranzinza que pensa que é Deus e manda em todo mundo, engloba tudo e todos, até que não pareça existir mais nada além dele, até que os homens fiquem deste tamanhozinho de tão presos no fluxo do rio, na torrente da ninharia pseudo-eterna.

As coisas que mal cabem dentro de mim querem o espaço! Este não engana ninguém, pois realmente engloba tudo. E a paz que encerra? Faz pensar. E quando penso, até fujo do espaço em direção a outro espaço ainda maior. E se não penso, apenas contemplo, a mente vazia, pura, eterna, silenciosa.

Sim! Definitivamente, muito melhor.

Brasil? Alguém aí falou de Brasil? Se eu vivesse no Brasil nem estaria escrevendo estas linhas. Estaria preocupadíssimo com o escândalo da Telerj, com ministros, secretários, sub-secretários… que abrangem o universo inteiro com seus tentáculos efêmeros, eternos mas só enquanto duram as badaladas de um sino que nem ouço mais. Minto. Ouço o sino, mas apenas quando preencho algum documento ou quando, por meio de algum mecanismo burocrático ou silêncio consensual, declaro minha pobre reverência compulsória ao monstro que nos come a todos alegando que um dia nos curará. Alguns dizem que ele responde pela alcunha de “Social”. Mas há controvérsias.

Um certo senhor proibido me disse que, para viver no Brasil, só abstraindo. Enquanto pessoas viram zumbis-concretos-indignados-conscientes-etc, eu me abstraio. Então, seria eu um zumbi-abstrato? Acho que não. Estou num campo de flores e não vejo nenhum zumbi por aqui, só alecrins e outras pessoas parecidas comigo. Sou um lunático, com muito orgulho. As pessoas não têm o absurdo orgulho de serem brasileiras? Então! Por que eu não posso ter orgulho de ser lunático? Aliás, tenho uma teoria: as pessoas que se orgulham de serem brasileiras são, na verdade, parasitas da identidade de outras, as quais vêm a ser os verdadeiros brasileiros. Afinal, orgulho é um sentimento ranzinza demais pra ser brasileiro. E, pra piorar, ainda rima com gorgulho.

Eliaquim e as uvas

Eliaquim comprou duas uvas-itália, de um vendedor ambulante, na calçada perto de sua casa.

Duas uvas?

Sim! Duas bastavam. Eram como caquis, de tão grandes e suculentas. Reluziam debaixo do Sol como dois grandes seios de atrizes norte-americanas de segunda classe. Eliaquim podia imaginar-se mordendo aquelas duas frutas. O caldo jorrando por entre a casca e molhando sua boca.

Caminhando para casa, as mãos nos bolsos, uma uva em cada uma delas, Eliaquim mal se agüentou de ansiedade. Cada bloco de concreto da calçada parecia um grande quarteirão daqueles da Paulista em dia-de-semana de Sol rachante, com seus milhares de pedestres trombando uns nos outros. E tinha que andar dez deles até chegar em casa. Dez!

Finalmente chegou. Foi morder as uvas, começou pela do bolso esquerdo, uma só grande mordida, e o caldo espalhou-se, mas junto com o caldo havia um gosto amargo, trinta e cinco sementes, uma gosma estranha e só no final sentia um gosto maravilhoso. Fez o mesmo com a uva da mão direita, o mesmo caldo, o mesmo gosto amargo, a mesma gosma, o mesmo gosto maravilhoso no final.

Horrível. Do total de minutos que durava a experiência de se comer uma uva daquelas, apenas uns 10% eram bons. Mas Eliaquim não conseguia se libertar. O gosto final era tão bom que transformava o trauma dos momentos anteriores em uma etapa antes do final. Em verdade vos digo: só havia o Final. Um pequeno e voluptuoso Final por que Eliaquim esperava enquanto mordia as uvas, cuspia fora 35 sementes pentelhas e engolia aquela gosma nojenta que parecia um cuspe.

Isso foi há 20 anos. Até hoje Eliaquim compra as uvas todos os dias na calçada perto de sua casa, sempre em número de duas, anda dez quarteirões daqueles da Paulista em dia-de-semana de Sol rachante e repete a experiência sentado em sua cozinha, perto da lixeira, que é para cuspir as sementes, 70 ao todo. A cada 90 segundos de chateação correspondem 10 de felicidade. Eliaquim gosta e não gosta, gosta e não gosta, gosta e não gosta.

Só não sei explicar por que o vendedor ambulante continua lá, na calçada, se essas duas uvas são tudo o que ele vende por dia.

ÚHMG

No curso de Publicidade me mandavam não usar ponto de exclamação. O ponto de exclamação anda sem moral. Não serve mais pra nada. Hoje é todo mundo blasé, ou então a linguagem comercial já é tão exageradamente exclamatória que nem precisa de “!”.

Mas eu tenho essa vontade, sabe? essa vontade enorme de usar exclamação, de ser enfático. Então eu jurei pra mim mesmo que só usaria exclamação quando eu estivesse realmente querendo ser enfático. Quando o meu espírito estiver se remexendo dentro de mim e a pele estiver quase se rompendo de tão insuficiente o tamanho do corpo para conter a alma excitada e enfática, nesse momento, somente nesse momento eu vou usar o “!” (lê-se “úhmg”). Jamais farei como um publicitário de segundo escalão, que escreve “Venha conferir nossas promoções, você não vai se arrepender!”

Não!

Farei apenas como Bilac. Experimente ler isto, imaginando a alma remexendo de espanto e indignação naquele ponto de exclamação do oitavo verso:

OS GOIASIS

Ainda viveis, espíritos obscenos
Como nos dias do Brasil inculto
Na inteligência anãos, como no vulto
Como no corpo, no moral pequenos

Espremeis a impotência do ódio estulto
Em pérfidos esguichos de venenos…
Tendes baixeza em tudo: nem, ao menos,
Força na inveja e elevação no insulto!

Répteis humanos, no coleio dobre
De rastos babujais templos e lares;
Contra os bons, contra os fortes de alma nobre,

Línguas e dentes dardejais nos ares:
Mas só podeis ferir, na raiva pobre,
Em vez dos corações, os calcanhares.

Imagino o auge do poema, bem no lugar onde está o úhmg, no oitavo verso. Depois vejo os répteis humanos a se arrastar em seu coleio dobre, velhacos, dissimulados, babujando templos e lares. Mas então o auge já passou, não há mais triunfo. Só se molham os calcanhares.

Agora leia isto, com a devida ênfase também:

XX

Olha-me! O teu olhar sereno e brando
Entra-me o peito, como um largo rio
De ondas de ouro e de luz, límpido, entrando
O ermo de um bosque tenebroso e frio.

Fala-me! Em grupos doudejantes, quando
Falas, por noites cálidas de estio,
As estrelas acendem-se, radiando,
Altas, semeadas pelo céu sombrio.

Olha-me assim! Fala-me assim! De pranto
Agora, agora de ternura cheia,
Abre em chispas de fogo essa pupila…

E enquanto eu ardo em sua luz, enquanto
Em seu fulgor me abraso, uma sereia
Soluce e cante nessa voz tranqüila!

Pois é.