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Archive for February, 2004

Eu chinês

Eu, no horóscopo chinês (concordei com tudo!):

Coelho

O quarto ramo da astrologia chinesa é simbolizado pelo Coelho (Mao). Os
nativos desse signo são extremamente diplomáticos: dão mil voltas numa
situação até obter os resultados que desejam. Não confiam nas pessoas com
facilidade e podem tornar-se solitários por opção. Aparentam serenidade,
autoconfiança e sofisticação, mas no fundo são bastante ambiciosos e nunca
deixam de lutar pelas coisas que querem. Graças ao seu notável jogo de
cintura, as pessoas que nascem sob o signo de Coelho raramente cultivam
inimizades e conseguem se sair bem das mais diversas situações. São
estudiosas e é provável que se interessem pelo ramos das artes. Nunca se
precipitam e por isso mesmo costumam ser bem-sucedidas em todos os seus
projetos.

Quadro astral do Coelho
Classificação chinesa: Mao, o conformista
Signos complementares: Carneiro e Javali
Signo oposto: Galo
Palavra-chave: Sensibilidade
Desafio: Manter em equilíbrio a razão e a emoção

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Bernardo e o ermitão

Chamo-me Zinfas, o Ermitão. Meu nome tem uma origem. Eu, inicialmente, não tinha um. Certa feita, um curioso alpinista me perguntou “faz muito tempo que você está aí nessa caverna”, ao que respondi fanho, pois estava gripado na ocasião: “Zim. Faz”. Depois adaptei as letras e criei o tal nome. É importante ter um nome. Todos deveriam ter. Pensando bem, todos têm um nome.

Bem, acontece que eu, Zinfas, aqui do alto, em minha caverna, sinto falta de praças, de Sol, de mar, de caminhos verdes. Estou aqui e a vista é fria, mata-me por dentro às vezes, quando não estou voltado para dentro de mim. Eu não me basto. Bastar-se é uma ilusão que muitos vivem. Eu também vivi, por isso vim até aqui, alojar-me nesta caverna, com meu Livro Sagrado do Conhecimento Eterno. É um livro interessante. Tem 50000 páginas em um único tomo. Depois conto mais sobre ele. Mas o fato é que não me basto, as 50000 páginas não me bastam, 50 milhões delas não me bastariam, ou “bastar-me-não-iam”, como gosto de dizer, em mesóclise negativa, uma invenção minha.

Agora, depois destas 50000 páginas, quero viver, correr por parques, destilar meu suor em mil camisetas, lançar-me contra as ondas de mil mares, sentir o cheiro dos mexilhões muito molhados e mal-lavados, tatear a humidade e a secura de mil cidades, conhecer pessoas chatas e pessoas interessantes, ouvir latidos de cães e o barulho do vento e das folhas das árvores. A única coisa que não quero é o barulho dos carros. Malditos carros! Ouço cada buzina e cada sirene até aqui do alto de minha montanha! São tantos deles que não consigo não ouvi-los.

Depois de tantos milênios aqui dentro, percebi uma coisa: um homem não vive sem viajar ao menos uma vez por mês. Mas quem viaja uma vez por mês? Eu? Tu? Ele? Nós? Vós? Eles? Sempre “eles”, os bem-aventurados, os exemplares, os que nunca vi e nunca verei, mas que servem de ideal, os terceiros (aqueles dos cheques).

Então resta este fato cru. E minha raiz se aprofundando terra adentro, raiz de obrigações as mais diversas, limitações, pentelhidades, privações, e eu que não viajo, não saio daqui nem a pau. Prisioneiro de metáforas, abstrações, imaginações de todo tipo, e prisioneiro do sucesso que elas fazem, dos aplausos que elas recebem de meu Ego, que atende também pelo nome de Bernardo.

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Mesmo os mais mundanos assuntos podem ser lidos com admiração. Para tanto, basta que o autor os ligue a sua verdadeira origem, alhures. Aos valores mais elevados que a humanidade conquistou às custas de milênios de reflexão e aprendizado, bem diferentes do materialismo-pragmatismo-cronocentrismo grotesco dos jornais. Senão, vejamos.

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Uma ou duas lições

Nestes tempos em que mesmo os mais ignorantes agem como se soubessem tudo o que se passa no mundo, sentindo-se até no direito de criticar povos e nações inteiras sem o menor pudor, ou de se dizerem seus amigos (o que dá no mesmo, pois pressupõe a mesma intimidade da amizade), nestes tempos é preciso valorizar a humildade. Precisamos reconhecer que existem milhares de lugares que não conhecemos, onde moram milhares de pessoas que também nunca vimos. Essas pessoas vivem suas vidas normalmente em lugares por onde nunca passamos, estão familiarizadas com ruas, praças e avenidas onde nunca estivemos.

Tudo isso parece banal, mas não é. O fato é que a impressão de onisciência – mais ou menos equivalente à sensação de ser o centro do mundo – é um dos sentimentos mais fáceis que existem. Digo isso por experiência própria. Quantas vezes me surpreendi com cidades que visitei pela primeira vez… Quantas vezes tive vontade de me mudar, viver a vida daquelas pessoas. E de fato o fiz duas vezes. Com o passar do tempo, entretanto, fui percebendo que essa vontade de mudar de cidade se repetia em cada nova cidade que eu visitava, mas em diferentes graus de intensidade. E fui aprendendo a lidar com esses graus de intensidade. Fui aprendendo que devemos, sim, buscar um lugar melhor para viver, mas que essa busca tem limites se não quisermos nos tornar nômades inveterados.

Acho que o sentimento de que estou falando pode ser chamado de descoberta da familiaridade. Você pode e deve fruí-lo toda vez que vai a um lugar novo para você. Extrai-se um grande prazer dessa descoberta, um prazer gradual e lento de que se vai desfrutando à medida que se entra em uma padaria nova, um café ou um restaurante, ou que se percorre uma rua pitoresca, ou que se sente o cheiro do ar (sim, cada cidade tem seu próprio cheiro!).

Se você souber tirar uma ou duas lições a partir dessa “descoberta da familiaridade”, já andou um passo em direção ao auto-conhecimento e à humildade. Em linguagem simples, pode-se dizer que o auto-conhecimento, aqui, consiste em saber que fotos e imagens não descrevem lugares do ponto de vista “humano” – que no fim das contas é o que mais importa quando se fala de cidades e locais habitados (portanto, desligue sua televisão, já que ler um livro vai te dar muito mais conhecimento sobre uma cidade do que assistir a um documentário). E a humildade… Bem, dessa eu nem preciso falar. Vou dar apenas um exemplo: eu não tenho a mínima condição de dizer que os americanos estão errados ou certos em terem escolhido o Bush como presidente. Eu não vivi nos lugares onde eles viveram, não tive as experiências que eles tiveram. O que me resta é apenas uma capacidade imaginativa abstrata, que me permite tentar reconstruir tudo isso em minha mente e tentar entender uma coisa que para os americanos deve ser óbvia: o verdadeiro significado de liberdade. Os significados estão embutidos nas coisas mais banais. Quando você entra em um café no Rio de Janeiro, pode ver centenas de milhares de significados pululando pelas mesas e cadeiras. Da mesma forma, quando entra em um restaurante de Nova Iorque, provavelmente verá muitas coisas que nunca tinha visto. Imagino que dê muito trabalho visitar uma enorme quantidade de lugares nos Estados Unidos ou em qualquer outro país. Além disso, você pode também visitá-los e nunca descobrir seus significados. Basta que você continue sempre se comportando como um turista, maravilhando-se com tudo, confundindo o gostar com o reverenciar (e demais equívocos próprios de turistas deslumbrados). Da mesma forma, dá um trabalhão reconstruir imaginativamente familiaridades – a partir de leituras literárias, filosóficas, históricas etc etc, familiaridades que levam ao entendimento do significado, para cada povo, das grandes conquistas, por exemplo, morais da humanidade. Você pode se comportar como um turista teórico, e ficar andando em círculos pela vida afora.

Essas foram algumas das lições que tirei de minha visita ao Rio de Janeiro, cidade que nunca senti vontade de visitar. Ainda bem que venci meu desdém. Quando você vence um sentimento ruim, sempre recebe uma recompensa. A minha foi algumas centenas de milhares de significados e experiências que não aparecem em campanhas publicitárias bobinhas de auto-engrandecimento regional e nem muito menos no cansado slogan “Cidade Maravilhosa”. Recebi a linda recompensa da familiaridade, concebida discretamente, a cada esquina, pelas cidades verdadeiramente belas. Acrescente-se a isso a companhia de uma grande amiga e guia local, e tem-se a recompensa na medida exata. Se melhorar, estraga!

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Tenho saudade da redoma de vidro. Saudade de achar bons os livros nas estantes das livrarias. Saudade de achar legal um professor anti-alguma-coisa. Saudade de ler um poema péssimo e achar ousado. De ver o Abujamra e achar engraçado. De ouvir a ladainha e achar novidade.

Quando eu mal tinha saído do ovo e já queria ter as manha, neguinho me disseram um monte de coisas sobre isso e aquilo. E eu tenho saudade de ter acreditado. É uma saudade meio abstrata, sabe? É uma saudade de querer ter tido saudade de ser como todo mundo e querer mudar o mundo. Todo mundo quer mudar o mundo. Alguém então pergunta: “se todo mundo quer mudar o mundo, então por que o mundo não muda?” E eu digo: já está mudando, seu idiota. Só que está mudando pra pior. E, como na sua cabecinha de gorgulho não entra a hipótese de o mundo mudar pra pior (e por culpa sua, ainda por cima), você continua fazendo o maior esforço pra mudar “isso tudo que está aí”, pois, se está ruim, só pode ser porque não está mudando etc etc.

Entendeu por que a minha saudade não é propriamente uma saudade? Eu tenho, ou melhor, eu tivera, tinha ou quereria ter vontade de ser esse idiota. Assim eu gostaria de todas as coisas de que eu não gosto e não conheceria nenhuma das coisas de que gosto.

Complicado? Assim é se lhe parece, ou não.

Mas, pensando bem, eu não tenho é saudade nenhuma, ora bolas!

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Comunicado

Caros condôminos-neurônios do edifício Cabeça do Evandro,

Venho por meio desta comunicar a todos os moradores deste prédio-gosminha que estão temporariamente suspensas as festas que se utilizem de DJornalistas e equipamentos sonoros de alta intensidade político-econômica, bem como quaisquer recursos visuais destinados à exploração das emoções baratas e superficiais, principalmente a piedade (mais conhecida como peninha).

Estamos esperando sugestões dos senhores quanto a ações de enfrentamento da Zotoridade, que, em nome do combate à Zelite, certamente tentará nos dissuadir quanto à presente iniciativa.

Lembramos ainda que, embora as festas estejam proibidas, os senhores ficam livres para se divertirem esporadicamente com os DJornalistas e com os referidos equipamentos, desde que não os tragam para o âmago de nosso edifício, perturbando a paz e a tranqüilidade deste recinto.

Outrossim, sugerimos futura votação em assembléia quanto à possível proibição, nas áreas públicas deste condomínio, de comentários relacionados às experiências oriundas do referido convívio esporádico.

Esperamos contar com a compreensão e a colaboração de todos, essenciais à sanidade do convívio.

Sem mais,

O síndico.

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Segundo estes jovenzinhos aí embaixo, o mundo não é uma piada. É um lugar muito sério, viu? Hein? Viu?!

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