Supra-Manifesto

Este blog eu criei com uma finalidade específica – que obviamente não será seguida, conforme acontece com todos os blogs. Eu queria ter um blog diferente do meu outro. Lá no Agonizando, eu agonizo mundanamente, descarrego minhas aflições mundanas e encho o saco de minha meia dúzia de leitores com meus pensamentos mundanos, circunscritos à esfera terrena, à política, à cultura, ao dia-a-dia. Tudo isso teoricamente, claro, porque muitas vezes há também maravilhosas, profundas reflexões filosóficas que se elevam acima deste mundo material!

Então, o objetivo (aaargh!) deste blog aqui é ser um lugar que está em outro lugar, diferente do mundo, um jardim de alhures, onde é proibido falar deste mundo onde estamos, a não ser como ponto de partida em direção a um lugar mais elevado, mais nobre, mais, digamos, perene. Ou simplesmente perene, eterno, já que “mais” ou “menos” não se aplica à eternidade.

Mas, como eu não pretendo que este seja um blog totalmente sério (não acredito em ortobloxia), este será também um blog bivalente e ambíguo, pois partiu de dois sentimentos que eu tenho. O primeiro é o sentimento do eterno mesmo, aquela sensação de mistério e de desligamento desta vida. Quando durmo, por exemplo, digo adeus, momentaneamente, a esta vida. Tanto que, ao acordar, sinto um desânimo completo, tenho preguiça de voltar. Outro exemplo: quando vejo “pessoas sérias” falando dos problemas do mundo, também sinto um desânimo enorme. Não consigo evitar o meu sentimento de que tudo isso são bobagens que só existem para desviar nossa atenção dos verdadeiros problemas. Mas aí é que entra o segundo sentimento: que “verdadeiros problemas”, cara pálida? Quem sou eu para falar de verdadeiros problemas? Eu sou apenas um merdinha qualquer, preso entre o eterno e o efêmero, entre a seriedade e a palhaçada, entre a transcendência e a imanência. Se olho à minha volta e acho tudo ridículo, é porque faço parte dessa palhaçada também. Se o mundo não tem importância diante do eterno, eu também não tenho.

Resumindo, quero alcançar algo que não está ao meu alcance. Por isso, sinto-me ridículo. Ainda assim, acho que minha obrigação é ao menos agir com um mínimo de classe, a classe de quem ao menos tem consciência das impossibilidades dessa vida, que no fim são todas derivadas da impossibilidade suprema: não conseguir transcendê-la objetivamente. A outra opção é fingir que não há nada a ser alcançado, ou que, se há algo a ser alcançado, está nesse mundo mesmo, e seria a “paz” ou a “justiça social” etc etc. Mas não sou como a raposa que desdenha as uvas por não conseguir alcançá-las. Eu prefiro ser uma raposa que desenha uvas, como possibilidades a me guiar pela vida afora.

Provavelmente, este vai ser apenas mais um blog que fala de tudo, sem respeitar objetivos. Mas, ao menos quero deixar aqui a intenção, que procurei traduzir na relação do título com o subtítulo: a tensão entre o mundo e o que está além dele. “Tu és pó e ao pó voltarás”. Será? Será que não podemos nos encontrar no jardim de alhures? onde nosso desejo de transcendência, ou melhor, nossa INTUIÇÃO da transcendência seja tratada com o devido respeito? Conheço outros tantos blogs por aí que são jardins de alhures. E acho que é só por isso que a blogosfera faz sentido, por ser uma espécie de superação da chatomídia-impressa-imanentista. Deixo aqui também minha homenagem a esses blogs.

E a foto? Bem, a foto é a de um serzinho insignificante tentando se elevar deste mundo da maneira menos ineficiente que o ser humano conhece: lendo.

Advertisements