Um décimo de milésimo de um testemunho individual

Se eu pudesse dizer tudo o que eu penso, seria engraçado – ou trágico. Então eu digo metade do que eu penso, e ainda com muita educação, que é pra não deixar ninguém com raivinha. Outra coisa interessante é essa do referencial. De acordo com o referencial, isso que eu estou falando muda mais ainda. (haha! que frase disléxica!)

Já encontrei muita gente que acha que eu digo tudo o que eu penso. Tem gente que diz um décimo de milésimo do que pensa e ainda fica com medo de desagradar. A pior maneira de dizer um décimo de milésimo do que você pensa é escrever uma monografia de faculdade. Quando eu fiz a minha, o professor queria que eu delimitasse o tema. Então delimitei assim: vai ser um décimo de milésimo do que eu penso. Passei um ano me reprimindo, bolando rodeios pra dizer com educação e sobriedade uma ou duas coisinhas que talvez viessem a parecer meio polêmicas. Foi brochante. E o resultado? Meu orientador virou meu inimigo. Mas pode ser pior.

Pior é dizer um décimo de milésimo do que se pensa e ainda estar errado.

Pior ainda é não conseguir pensar nada que desagrade aos outros.

Mas o pior mesmo é saber que você está certo e que o outro está errado, e não saber explicar por quê. É sobre isso que fala aquela frasezinha lá do site do Olavo de Carvalho: “Somente a consciência individual do agente dá testemunho dos atos sem testemunha, e não há ato mais desprovido de testemunha externa do que o ato de conhecer.”

Pois é. Eu, por exemplo, descobri que sou um pergaminho velho de papel-manteiga, onde se podem ler, em grego, impressas a jato de tinta, palavras desconexas de todo o tipo. Além disso, algumas coisas que lá se lêem fazem sentido para mim, mas não para os outros. Mas um dia eu ainda mostro pra todo mundo o que está aqui dentro do meu testemunho individual. Nesse dia, sabe o que vai acontecer? Provavelmente nada.

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Jejum de Alhures

Um dia eu faço jejum, fico leve e saio flutuando até o céu, onde pés de hortelã roçarão meus pés por um caminho pitoresco do interior de Minas ou de uma prainha qualquer do Espírito Santo que eu visitava quando ciança. Então vou descobrir que olhar o céu e a terra e as vacas e as ondas do mar é tudo o que importa – além de apertar cães fofos com força, é claro. Também vou sentir um cheiro exótico que vai me puxar como acontecia com o Mickey Mouse quando cheirava uma torta de macã ao som de uma sinfonia. Aí vou flutuar ainda mais, com as minhas narinas presas à fragrância, vou atravessar paisagens inteiras, mares, hortas, estradas, metrópoles e continentes. Do outro lado de sei lá onde, vai estar a fonte do cheiro: enormes e suculentas uvas-Itália. Sim! sem sementes e com uma casca tão fina que parece nem existir. Basta colocar na boca e sentir o sabor maravilhoso de… uvas-Itália! Quer coisa melhor?

O sonho de todo virginiano é comer uvas sem casca e sem sementes – tanto literal como metaforicamente!