Alegria


Minha cozinha tem um rolo de toalha de papel com vaquinhas. Na verdade, é a mesma vaquinha, em várias posições, sempre alegre, sempre feliz. A vaquinha está dançando; ou de costas com um pedaço de capim na boca e olhando para trás; ou deitada descansando; ou sentada de braços abertos.

A toalha de enxugar a mão também tem uma vaquinha. Ela se chama Roseta e é rosa. Nós conversamos com ela de vez em quando, e de vez em quando a colocamos na máquina de lavar.

Já vejo militantes gays dizendo que eu preciso me assumir, psicanalistas pensando em estímulos vindos do inconsciente.

E se eu dissesse a eles que durmo com uma estrelinha de pano? Talvez dissessem que eu não superei o trauma de me separar da minha mamãezinha.

Um gay que não superou a separação materna!

Entrariam em parafuso de tanto prazer teórico. Teriam certeza. Seriam plenos de esclarecimento. Extrairiam de seus pensamentos tamanha alegria que se transformariam eles mesmos em vaquinhas felizes a cantarolar e comer capinzinho dentro da gaveta da geladeira. Eu veria então militantes e especialistas todos os dias, quando fosse pegar um limão pra jogar no salaminho.

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