ÚHMG

No curso de Publicidade me mandavam não usar ponto de exclamação. O ponto de exclamação anda sem moral. Não serve mais pra nada. Hoje é todo mundo blasé, ou então a linguagem comercial já é tão exageradamente exclamatória que nem precisa de “!”.

Mas eu tenho essa vontade, sabe? essa vontade enorme de usar exclamação, de ser enfático. Então eu jurei pra mim mesmo que só usaria exclamação quando eu estivesse realmente querendo ser enfático. Quando o meu espírito estiver se remexendo dentro de mim e a pele estiver quase se rompendo de tão insuficiente o tamanho do corpo para conter a alma excitada e enfática, nesse momento, somente nesse momento eu vou usar o “!” (lê-se “úhmg”). Jamais farei como um publicitário de segundo escalão, que escreve “Venha conferir nossas promoções, você não vai se arrepender!”

Não!

Farei apenas como Bilac. Experimente ler isto, imaginando a alma remexendo de espanto e indignação naquele ponto de exclamação do oitavo verso:

OS GOIASIS

Ainda viveis, espíritos obscenos
Como nos dias do Brasil inculto
Na inteligência anãos, como no vulto
Como no corpo, no moral pequenos

Espremeis a impotência do ódio estulto
Em pérfidos esguichos de venenos…
Tendes baixeza em tudo: nem, ao menos,
Força na inveja e elevação no insulto!

Répteis humanos, no coleio dobre
De rastos babujais templos e lares;
Contra os bons, contra os fortes de alma nobre,

Línguas e dentes dardejais nos ares:
Mas só podeis ferir, na raiva pobre,
Em vez dos corações, os calcanhares.

Imagino o auge do poema, bem no lugar onde está o úhmg, no oitavo verso. Depois vejo os répteis humanos a se arrastar em seu coleio dobre, velhacos, dissimulados, babujando templos e lares. Mas então o auge já passou, não há mais triunfo. Só se molham os calcanhares.

Agora leia isto, com a devida ênfase também:

XX

Olha-me! O teu olhar sereno e brando
Entra-me o peito, como um largo rio
De ondas de ouro e de luz, límpido, entrando
O ermo de um bosque tenebroso e frio.

Fala-me! Em grupos doudejantes, quando
Falas, por noites cálidas de estio,
As estrelas acendem-se, radiando,
Altas, semeadas pelo céu sombrio.

Olha-me assim! Fala-me assim! De pranto
Agora, agora de ternura cheia,
Abre em chispas de fogo essa pupila…

E enquanto eu ardo em sua luz, enquanto
Em seu fulgor me abraso, uma sereia
Soluce e cante nessa voz tranqüila!

Pois é.

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