Eliaquim e as uvas

Eliaquim comprou duas uvas-itália, de um vendedor ambulante, na calçada perto de sua casa.

Duas uvas?

Sim! Duas bastavam. Eram como caquis, de tão grandes e suculentas. Reluziam debaixo do Sol como dois grandes seios de atrizes norte-americanas de segunda classe. Eliaquim podia imaginar-se mordendo aquelas duas frutas. O caldo jorrando por entre a casca e molhando sua boca.

Caminhando para casa, as mãos nos bolsos, uma uva em cada uma delas, Eliaquim mal se agüentou de ansiedade. Cada bloco de concreto da calçada parecia um grande quarteirão daqueles da Paulista em dia-de-semana de Sol rachante, com seus milhares de pedestres trombando uns nos outros. E tinha que andar dez deles até chegar em casa. Dez!

Finalmente chegou. Foi morder as uvas, começou pela do bolso esquerdo, uma só grande mordida, e o caldo espalhou-se, mas junto com o caldo havia um gosto amargo, trinta e cinco sementes, uma gosma estranha e só no final sentia um gosto maravilhoso. Fez o mesmo com a uva da mão direita, o mesmo caldo, o mesmo gosto amargo, a mesma gosma, o mesmo gosto maravilhoso no final.

Horrível. Do total de minutos que durava a experiência de se comer uma uva daquelas, apenas uns 10% eram bons. Mas Eliaquim não conseguia se libertar. O gosto final era tão bom que transformava o trauma dos momentos anteriores em uma etapa antes do final. Em verdade vos digo: só havia o Final. Um pequeno e voluptuoso Final por que Eliaquim esperava enquanto mordia as uvas, cuspia fora 35 sementes pentelhas e engolia aquela gosma nojenta que parecia um cuspe.

Isso foi há 20 anos. Até hoje Eliaquim compra as uvas todos os dias na calçada perto de sua casa, sempre em número de duas, anda dez quarteirões daqueles da Paulista em dia-de-semana de Sol rachante e repete a experiência sentado em sua cozinha, perto da lixeira, que é para cuspir as sementes, 70 ao todo. A cada 90 segundos de chateação correspondem 10 de felicidade. Eliaquim gosta e não gosta, gosta e não gosta, gosta e não gosta.

Só não sei explicar por que o vendedor ambulante continua lá, na calçada, se essas duas uvas são tudo o que ele vende por dia.

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