Pequeno mergulho no ex-Eu

Tenho saudade da redoma de vidro. Saudade de achar bons os livros nas estantes das livrarias. Saudade de achar legal um professor anti-alguma-coisa. Saudade de ler um poema péssimo e achar ousado. De ver o Abujamra e achar engraçado. De ouvir a ladainha e achar novidade.

Quando eu mal tinha saído do ovo e já queria ter as manha, neguinho me disseram um monte de coisas sobre isso e aquilo. E eu tenho saudade de ter acreditado. É uma saudade meio abstrata, sabe? É uma saudade de querer ter tido saudade de ser como todo mundo e querer mudar o mundo. Todo mundo quer mudar o mundo. Alguém então pergunta: “se todo mundo quer mudar o mundo, então por que o mundo não muda?” E eu digo: já está mudando, seu idiota. Só que está mudando pra pior. E, como na sua cabecinha de gorgulho não entra a hipótese de o mundo mudar pra pior (e por culpa sua, ainda por cima), você continua fazendo o maior esforço pra mudar “isso tudo que está aí”, pois, se está ruim, só pode ser porque não está mudando etc etc.

Entendeu por que a minha saudade não é propriamente uma saudade? Eu tenho, ou melhor, eu tivera, tinha ou quereria ter vontade de ser esse idiota. Assim eu gostaria de todas as coisas de que eu não gosto e não conheceria nenhuma das coisas de que gosto.

Complicado? Assim é se lhe parece, ou não.

Mas, pensando bem, eu não tenho é saudade nenhuma, ora bolas!

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Comunicado

Caros condôminos-neurônios do edifício Cabeça do Evandro,

Venho por meio desta comunicar a todos os moradores deste prédio-gosminha que estão temporariamente suspensas as festas que se utilizem de DJornalistas e equipamentos sonoros de alta intensidade político-econômica, bem como quaisquer recursos visuais destinados à exploração das emoções baratas e superficiais, principalmente a piedade (mais conhecida como peninha).

Estamos esperando sugestões dos senhores quanto a ações de enfrentamento da Zotoridade, que, em nome do combate à Zelite, certamente tentará nos dissuadir quanto à presente iniciativa.

Lembramos ainda que, embora as festas estejam proibidas, os senhores ficam livres para se divertirem esporadicamente com os DJornalistas e com os referidos equipamentos, desde que não os tragam para o âmago de nosso edifício, perturbando a paz e a tranqüilidade deste recinto.

Outrossim, sugerimos futura votação em assembléia quanto à possível proibição, nas áreas públicas deste condomínio, de comentários relacionados às experiências oriundas do referido convívio esporádico.

Esperamos contar com a compreensão e a colaboração de todos, essenciais à sanidade do convívio.

Sem mais,

O síndico.