Uma ou duas lições

Nestes tempos em que mesmo os mais ignorantes agem como se soubessem tudo o que se passa no mundo, sentindo-se até no direito de criticar povos e nações inteiras sem o menor pudor, ou de se dizerem seus amigos (o que dá no mesmo, pois pressupõe a mesma intimidade da amizade), nestes tempos é preciso valorizar a humildade. Precisamos reconhecer que existem milhares de lugares que não conhecemos, onde moram milhares de pessoas que também nunca vimos. Essas pessoas vivem suas vidas normalmente em lugares por onde nunca passamos, estão familiarizadas com ruas, praças e avenidas onde nunca estivemos.

Tudo isso parece banal, mas não é. O fato é que a impressão de onisciência – mais ou menos equivalente à sensação de ser o centro do mundo – é um dos sentimentos mais fáceis que existem. Digo isso por experiência própria. Quantas vezes me surpreendi com cidades que visitei pela primeira vez… Quantas vezes tive vontade de me mudar, viver a vida daquelas pessoas. E de fato o fiz duas vezes. Com o passar do tempo, entretanto, fui percebendo que essa vontade de mudar de cidade se repetia em cada nova cidade que eu visitava, mas em diferentes graus de intensidade. E fui aprendendo a lidar com esses graus de intensidade. Fui aprendendo que devemos, sim, buscar um lugar melhor para viver, mas que essa busca tem limites se não quisermos nos tornar nômades inveterados.

Acho que o sentimento de que estou falando pode ser chamado de descoberta da familiaridade. Você pode e deve fruí-lo toda vez que vai a um lugar novo para você. Extrai-se um grande prazer dessa descoberta, um prazer gradual e lento de que se vai desfrutando à medida que se entra em uma padaria nova, um café ou um restaurante, ou que se percorre uma rua pitoresca, ou que se sente o cheiro do ar (sim, cada cidade tem seu próprio cheiro!).

Se você souber tirar uma ou duas lições a partir dessa “descoberta da familiaridade”, já andou um passo em direção ao auto-conhecimento e à humildade. Em linguagem simples, pode-se dizer que o auto-conhecimento, aqui, consiste em saber que fotos e imagens não descrevem lugares do ponto de vista “humano” – que no fim das contas é o que mais importa quando se fala de cidades e locais habitados (portanto, desligue sua televisão, já que ler um livro vai te dar muito mais conhecimento sobre uma cidade do que assistir a um documentário). E a humildade… Bem, dessa eu nem preciso falar. Vou dar apenas um exemplo: eu não tenho a mínima condição de dizer que os americanos estão errados ou certos em terem escolhido o Bush como presidente. Eu não vivi nos lugares onde eles viveram, não tive as experiências que eles tiveram. O que me resta é apenas uma capacidade imaginativa abstrata, que me permite tentar reconstruir tudo isso em minha mente e tentar entender uma coisa que para os americanos deve ser óbvia: o verdadeiro significado de liberdade. Os significados estão embutidos nas coisas mais banais. Quando você entra em um café no Rio de Janeiro, pode ver centenas de milhares de significados pululando pelas mesas e cadeiras. Da mesma forma, quando entra em um restaurante de Nova Iorque, provavelmente verá muitas coisas que nunca tinha visto. Imagino que dê muito trabalho visitar uma enorme quantidade de lugares nos Estados Unidos ou em qualquer outro país. Além disso, você pode também visitá-los e nunca descobrir seus significados. Basta que você continue sempre se comportando como um turista, maravilhando-se com tudo, confundindo o gostar com o reverenciar (e demais equívocos próprios de turistas deslumbrados). Da mesma forma, dá um trabalhão reconstruir imaginativamente familiaridades – a partir de leituras literárias, filosóficas, históricas etc etc, familiaridades que levam ao entendimento do significado, para cada povo, das grandes conquistas, por exemplo, morais da humanidade. Você pode se comportar como um turista teórico, e ficar andando em círculos pela vida afora.

Essas foram algumas das lições que tirei de minha visita ao Rio de Janeiro, cidade que nunca senti vontade de visitar. Ainda bem que venci meu desdém. Quando você vence um sentimento ruim, sempre recebe uma recompensa. A minha foi algumas centenas de milhares de significados e experiências que não aparecem em campanhas publicitárias bobinhas de auto-engrandecimento regional e nem muito menos no cansado slogan “Cidade Maravilhosa”. Recebi a linda recompensa da familiaridade, concebida discretamente, a cada esquina, pelas cidades verdadeiramente belas. Acrescente-se a isso a companhia de uma grande amiga e guia local, e tem-se a recompensa na medida exata. Se melhorar, estraga!

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