Bernardo e o ermitão

Chamo-me Zinfas, o Ermitão. Meu nome tem uma origem. Eu, inicialmente, não tinha um. Certa feita, um curioso alpinista me perguntou “faz muito tempo que você está aí nessa caverna”, ao que respondi fanho, pois estava gripado na ocasião: “Zim. Faz”. Depois adaptei as letras e criei o tal nome. É importante ter um nome. Todos deveriam ter. Pensando bem, todos têm um nome.

Bem, acontece que eu, Zinfas, aqui do alto, em minha caverna, sinto falta de praças, de Sol, de mar, de caminhos verdes. Estou aqui e a vista é fria, mata-me por dentro às vezes, quando não estou voltado para dentro de mim. Eu não me basto. Bastar-se é uma ilusão que muitos vivem. Eu também vivi, por isso vim até aqui, alojar-me nesta caverna, com meu Livro Sagrado do Conhecimento Eterno. É um livro interessante. Tem 50000 páginas em um único tomo. Depois conto mais sobre ele. Mas o fato é que não me basto, as 50000 páginas não me bastam, 50 milhões delas não me bastariam, ou “bastar-me-não-iam”, como gosto de dizer, em mesóclise negativa, uma invenção minha.

Agora, depois destas 50000 páginas, quero viver, correr por parques, destilar meu suor em mil camisetas, lançar-me contra as ondas de mil mares, sentir o cheiro dos mexilhões muito molhados e mal-lavados, tatear a humidade e a secura de mil cidades, conhecer pessoas chatas e pessoas interessantes, ouvir latidos de cães e o barulho do vento e das folhas das árvores. A única coisa que não quero é o barulho dos carros. Malditos carros! Ouço cada buzina e cada sirene até aqui do alto de minha montanha! São tantos deles que não consigo não ouvi-los.

Depois de tantos milênios aqui dentro, percebi uma coisa: um homem não vive sem viajar ao menos uma vez por mês. Mas quem viaja uma vez por mês? Eu? Tu? Ele? Nós? Vós? Eles? Sempre “eles”, os bem-aventurados, os exemplares, os que nunca vi e nunca verei, mas que servem de ideal, os terceiros (aqueles dos cheques).

Então resta este fato cru. E minha raiz se aprofundando terra adentro, raiz de obrigações as mais diversas, limitações, pentelhidades, privações, e eu que não viajo, não saio daqui nem a pau. Prisioneiro de metáforas, abstrações, imaginações de todo tipo, e prisioneiro do sucesso que elas fazem, dos aplausos que elas recebem de meu Ego, que atende também pelo nome de Bernardo.

Advertisements

A paz da ONU é uma piada

Mesmo os mais mundanos assuntos podem ser lidos com admiração. Para tanto, basta que o autor os ligue a sua verdadeira origem, alhures. Aos valores mais elevados que a humanidade conquistou às custas de milênios de reflexão e aprendizado, bem diferentes do materialismo-pragmatismo-cronocentrismo grotesco dos jornais. Senão, vejamos.