Gorgulho de ser brasileiro

Eu não moro no Brasil. Eu moro no décimo primeiro andar de um prédio. Daqui vejo o céu, que hoje está azulzinho azulzinho. Também vejo uma jardineira, que está na varanda e que está cheia de flores vermelhas, muitas delas. Nunca achei, quando a comprei, que nasceriam tantas. Escuto sirenes apressadas de vez em quando, menos de vez em quando do que gostaria. Do meu lado direito estão uns 30 livros, na minha frente está este através do qual escrevo estas mal-traçadas.

Atrás de mim há um passado, que um dia chorei por perder, ao som da Valsa da Dor de Villa-Lobos (e da minha também). Acima de mim há mais 54 apartamentos, 54 varandas, mais de 54 passados e o céu de que falei.

Dentro de mim tenho tantas coisas que mal cabem. Elas querem ir para esse céu, querem pegar um foguete e ir para o mar, mergulhar até esquecer e lembrar tudo. Elas querem sair andando por aí. Já não agüentam mais tanta clausura. Mas não querem simplesmente viver. Querem ser. Não querem passar os olhos em tudo e depois esperar o dia seguinte para passar os olhos em mais coisas, e depois esperar o dia seguinte de novo. Não querem saber do tempo. O tempo está fora de moda para elas. O tempo é um velho ranzinza que pensa que é Deus e manda em todo mundo, engloba tudo e todos, até que não pareça existir mais nada além dele, até que os homens fiquem deste tamanhozinho de tão presos no fluxo do rio, na torrente da ninharia pseudo-eterna.

As coisas que mal cabem dentro de mim querem o espaço! Este não engana ninguém, pois realmente engloba tudo. E a paz que encerra? Faz pensar. E quando penso, até fujo do espaço em direção a outro espaço ainda maior. E se não penso, apenas contemplo, a mente vazia, pura, eterna, silenciosa.

Sim! Definitivamente, muito melhor.

Brasil? Alguém aí falou de Brasil? Se eu vivesse no Brasil nem estaria escrevendo estas linhas. Estaria preocupadíssimo com o escândalo da Telerj, com ministros, secretários, sub-secretários… que abrangem o universo inteiro com seus tentáculos efêmeros, eternos mas só enquanto duram as badaladas de um sino que nem ouço mais. Minto. Ouço o sino, mas apenas quando preencho algum documento ou quando, por meio de algum mecanismo burocrático ou silêncio consensual, declaro minha pobre reverência compulsória ao monstro que nos come a todos alegando que um dia nos curará. Alguns dizem que ele responde pela alcunha de “Social”. Mas há controvérsias.

Um certo senhor proibido me disse que, para viver no Brasil, só abstraindo. Enquanto pessoas viram zumbis-concretos-indignados-conscientes-etc, eu me abstraio. Então, seria eu um zumbi-abstrato? Acho que não. Estou num campo de flores e não vejo nenhum zumbi por aqui, só alecrins e outras pessoas parecidas comigo. Sou um lunático, com muito orgulho. As pessoas não têm o absurdo orgulho de serem brasileiras? Então! Por que eu não posso ter orgulho de ser lunático? Aliás, tenho uma teoria: as pessoas que se orgulham de serem brasileiras são, na verdade, parasitas da identidade de outras, as quais vêm a ser os verdadeiros brasileiros. Afinal, orgulho é um sentimento ranzinza demais pra ser brasileiro. E, pra piorar, ainda rima com gorgulho.

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Eliaquim e as uvas

Eliaquim comprou duas uvas-itália, de um vendedor ambulante, na calçada perto de sua casa.

Duas uvas?

Sim! Duas bastavam. Eram como caquis, de tão grandes e suculentas. Reluziam debaixo do Sol como dois grandes seios de atrizes norte-americanas de segunda classe. Eliaquim podia imaginar-se mordendo aquelas duas frutas. O caldo jorrando por entre a casca e molhando sua boca.

Caminhando para casa, as mãos nos bolsos, uma uva em cada uma delas, Eliaquim mal se agüentou de ansiedade. Cada bloco de concreto da calçada parecia um grande quarteirão daqueles da Paulista em dia-de-semana de Sol rachante, com seus milhares de pedestres trombando uns nos outros. E tinha que andar dez deles até chegar em casa. Dez!

Finalmente chegou. Foi morder as uvas, começou pela do bolso esquerdo, uma só grande mordida, e o caldo espalhou-se, mas junto com o caldo havia um gosto amargo, trinta e cinco sementes, uma gosma estranha e só no final sentia um gosto maravilhoso. Fez o mesmo com a uva da mão direita, o mesmo caldo, o mesmo gosto amargo, a mesma gosma, o mesmo gosto maravilhoso no final.

Horrível. Do total de minutos que durava a experiência de se comer uma uva daquelas, apenas uns 10% eram bons. Mas Eliaquim não conseguia se libertar. O gosto final era tão bom que transformava o trauma dos momentos anteriores em uma etapa antes do final. Em verdade vos digo: só havia o Final. Um pequeno e voluptuoso Final por que Eliaquim esperava enquanto mordia as uvas, cuspia fora 35 sementes pentelhas e engolia aquela gosma nojenta que parecia um cuspe.

Isso foi há 20 anos. Até hoje Eliaquim compra as uvas todos os dias na calçada perto de sua casa, sempre em número de duas, anda dez quarteirões daqueles da Paulista em dia-de-semana de Sol rachante e repete a experiência sentado em sua cozinha, perto da lixeira, que é para cuspir as sementes, 70 ao todo. A cada 90 segundos de chateação correspondem 10 de felicidade. Eliaquim gosta e não gosta, gosta e não gosta, gosta e não gosta.

Só não sei explicar por que o vendedor ambulante continua lá, na calçada, se essas duas uvas são tudo o que ele vende por dia.

ÚHMG

No curso de Publicidade me mandavam não usar ponto de exclamação. O ponto de exclamação anda sem moral. Não serve mais pra nada. Hoje é todo mundo blasé, ou então a linguagem comercial já é tão exageradamente exclamatória que nem precisa de “!”.

Mas eu tenho essa vontade, sabe? essa vontade enorme de usar exclamação, de ser enfático. Então eu jurei pra mim mesmo que só usaria exclamação quando eu estivesse realmente querendo ser enfático. Quando o meu espírito estiver se remexendo dentro de mim e a pele estiver quase se rompendo de tão insuficiente o tamanho do corpo para conter a alma excitada e enfática, nesse momento, somente nesse momento eu vou usar o “!” (lê-se “úhmg”). Jamais farei como um publicitário de segundo escalão, que escreve “Venha conferir nossas promoções, você não vai se arrepender!”

Não!

Farei apenas como Bilac. Experimente ler isto, imaginando a alma remexendo de espanto e indignação naquele ponto de exclamação do oitavo verso:

OS GOIASIS

Ainda viveis, espíritos obscenos
Como nos dias do Brasil inculto
Na inteligência anãos, como no vulto
Como no corpo, no moral pequenos

Espremeis a impotência do ódio estulto
Em pérfidos esguichos de venenos…
Tendes baixeza em tudo: nem, ao menos,
Força na inveja e elevação no insulto!

Répteis humanos, no coleio dobre
De rastos babujais templos e lares;
Contra os bons, contra os fortes de alma nobre,

Línguas e dentes dardejais nos ares:
Mas só podeis ferir, na raiva pobre,
Em vez dos corações, os calcanhares.

Imagino o auge do poema, bem no lugar onde está o úhmg, no oitavo verso. Depois vejo os répteis humanos a se arrastar em seu coleio dobre, velhacos, dissimulados, babujando templos e lares. Mas então o auge já passou, não há mais triunfo. Só se molham os calcanhares.

Agora leia isto, com a devida ênfase também:

XX

Olha-me! O teu olhar sereno e brando
Entra-me o peito, como um largo rio
De ondas de ouro e de luz, límpido, entrando
O ermo de um bosque tenebroso e frio.

Fala-me! Em grupos doudejantes, quando
Falas, por noites cálidas de estio,
As estrelas acendem-se, radiando,
Altas, semeadas pelo céu sombrio.

Olha-me assim! Fala-me assim! De pranto
Agora, agora de ternura cheia,
Abre em chispas de fogo essa pupila…

E enquanto eu ardo em sua luz, enquanto
Em seu fulgor me abraso, uma sereia
Soluce e cante nessa voz tranqüila!

Pois é.

Alegria


Minha cozinha tem um rolo de toalha de papel com vaquinhas. Na verdade, é a mesma vaquinha, em várias posições, sempre alegre, sempre feliz. A vaquinha está dançando; ou de costas com um pedaço de capim na boca e olhando para trás; ou deitada descansando; ou sentada de braços abertos.

A toalha de enxugar a mão também tem uma vaquinha. Ela se chama Roseta e é rosa. Nós conversamos com ela de vez em quando, e de vez em quando a colocamos na máquina de lavar.

Já vejo militantes gays dizendo que eu preciso me assumir, psicanalistas pensando em estímulos vindos do inconsciente.

E se eu dissesse a eles que durmo com uma estrelinha de pano? Talvez dissessem que eu não superei o trauma de me separar da minha mamãezinha.

Um gay que não superou a separação materna!

Entrariam em parafuso de tanto prazer teórico. Teriam certeza. Seriam plenos de esclarecimento. Extrairiam de seus pensamentos tamanha alegria que se transformariam eles mesmos em vaquinhas felizes a cantarolar e comer capinzinho dentro da gaveta da geladeira. Eu veria então militantes e especialistas todos os dias, quando fosse pegar um limão pra jogar no salaminho.

Guide to whatever

Pegue este pedaço aqui e junte com aquele lá. Agora fure esta superfície aqui com uma furadeira – broca n. 6 – e passe uma corda pelo buraco. Mergulhe uma das extremidades da corda em querosene e a outra em geléia de goiabada diluída em água (meio a meio). Aguarde até que a corda fique embebida. Pode levar um tempo, então talvez não seja aconselhável esperar em pé, talvez o melhor seja mesmo ausentar-se do local por um certo tempo. Depois volte, pegue a corda de queroséia de goiabada juntamente com a superfície e amarre bem forte nesta outra superfície aqui. Amarre da maneira que quiser, apenas lembre-se de deixar uma sobra para fazer o laço. E as duas superfícies têm de ficar perpendiculares uma à outra. Agora pegue este pedaço de vidro jateado aqui e cole na ponta da corda (a ponta que estava na geléia, não a que estava no querosene). Na ponta que estava no querosene, cole este palhacinho de pano aqui.

Pronto!

Um décimo de milésimo de um testemunho individual

Se eu pudesse dizer tudo o que eu penso, seria engraçado – ou trágico. Então eu digo metade do que eu penso, e ainda com muita educação, que é pra não deixar ninguém com raivinha. Outra coisa interessante é essa do referencial. De acordo com o referencial, isso que eu estou falando muda mais ainda. (haha! que frase disléxica!)

Já encontrei muita gente que acha que eu digo tudo o que eu penso. Tem gente que diz um décimo de milésimo do que pensa e ainda fica com medo de desagradar. A pior maneira de dizer um décimo de milésimo do que você pensa é escrever uma monografia de faculdade. Quando eu fiz a minha, o professor queria que eu delimitasse o tema. Então delimitei assim: vai ser um décimo de milésimo do que eu penso. Passei um ano me reprimindo, bolando rodeios pra dizer com educação e sobriedade uma ou duas coisinhas que talvez viessem a parecer meio polêmicas. Foi brochante. E o resultado? Meu orientador virou meu inimigo. Mas pode ser pior.

Pior é dizer um décimo de milésimo do que se pensa e ainda estar errado.

Pior ainda é não conseguir pensar nada que desagrade aos outros.

Mas o pior mesmo é saber que você está certo e que o outro está errado, e não saber explicar por quê. É sobre isso que fala aquela frasezinha lá do site do Olavo de Carvalho: “Somente a consciência individual do agente dá testemunho dos atos sem testemunha, e não há ato mais desprovido de testemunha externa do que o ato de conhecer.”

Pois é. Eu, por exemplo, descobri que sou um pergaminho velho de papel-manteiga, onde se podem ler, em grego, impressas a jato de tinta, palavras desconexas de todo o tipo. Além disso, algumas coisas que lá se lêem fazem sentido para mim, mas não para os outros. Mas um dia eu ainda mostro pra todo mundo o que está aqui dentro do meu testemunho individual. Nesse dia, sabe o que vai acontecer? Provavelmente nada.

Jejum de Alhures

Um dia eu faço jejum, fico leve e saio flutuando até o céu, onde pés de hortelã roçarão meus pés por um caminho pitoresco do interior de Minas ou de uma prainha qualquer do Espírito Santo que eu visitava quando ciança. Então vou descobrir que olhar o céu e a terra e as vacas e as ondas do mar é tudo o que importa – além de apertar cães fofos com força, é claro. Também vou sentir um cheiro exótico que vai me puxar como acontecia com o Mickey Mouse quando cheirava uma torta de macã ao som de uma sinfonia. Aí vou flutuar ainda mais, com as minhas narinas presas à fragrância, vou atravessar paisagens inteiras, mares, hortas, estradas, metrópoles e continentes. Do outro lado de sei lá onde, vai estar a fonte do cheiro: enormes e suculentas uvas-Itália. Sim! sem sementes e com uma casca tão fina que parece nem existir. Basta colocar na boca e sentir o sabor maravilhoso de… uvas-Itália! Quer coisa melhor?

O sonho de todo virginiano é comer uvas sem casca e sem sementes – tanto literal como metaforicamente!