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Archive for March, 2004

Começo a ver manifestações hostis ao Islamismo nos blogs de amigos meus. Aí, pessoal, como bem disse o Felipe Ortiz, já está passando da hora de se começar a estudar o Islã. O Felipe falou disso aqui. Mas, sinceramente, não acho legal começar pelo lado militante da coisa. Isso aqui é bem mais interessante.

Eu já comecei. Comecei por aqui e por aqui e por aqui. Fica então a sugestão.

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Zigmut, meu cerebelo de estimação, ensinou-me que não devemos desagradar as pessoas. “As pessoas” são aqueles seres bonzinhos e sensatos, simpáticos e amigáveis, que ficam putos quando você não concorda com eles em gênero, número e grau. Quando eu escrevi meu primeiro texto provando que fulano estava errado até o pescoço, Zigmut não gostou. Perguntou-me aonde eu queria chegar com tudo aquilo. Deu-me uma ou duas lições de moral e disse que estava muito decepcionado.

Foi-se embora e nem deixou recado. Meu cerebelinho querido. Equilíbrio de meus gestos, coordenação do meu caminho etc etc. Nem um bilhete.

Reencontrei-o tempos depois. Estava totalmente diferente. Mal me reconheceu. Conversamos por horas e horas e veio a reconciliação. Mas ele já não era o mesmo. Onde estava todo aquele equilíbrio? Onde o senso de orientação? Fui procurar as más línguas e elas me disseram que ele havia cruzado o mundo em busca de aventuras. Aprendeu hebraico só pra cantar rap e deitou-se com todas as mulheres de todos os litorais imagináveis, embora nunca tenha penetrado nos continentes. Havia perdido totalmente o senso de direção.

Ainda assim aceitei-o. Meu querido Zigmut, razão de meu frágil controle, prudência desorientada que me leva imaginariamente aos quatro cantos de um lugar estranho, onde a concórdia mata milhões e a discórdia é execrada como baratas de uma exposição do Itaú Cultural.

Um dia livrar-me-ei de ti, Zigmut. Amo-te e te odeio. Teus dias estão contados não sei pra quando. Um dia minha ortodoxia te expurgará de minha mente. E transformar-me-ei numa alma nobre, comedida, leve, inabalável, homogênea, serena, decidida, absoluta, simpática, perfeita, milagrosa? Cruz credo!

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Quando as suas mãos estiverem bem macias, pegue um novelo de tinta rosa e dilua em três cordas de violão. Você vai notar que as notas dó, ré e mim foram para as cucuias. Não se preocupe. Acrescente duas pitadas de cabo de guarda-chuva molhado (o cabo é que tem de estar molhado, não o guarda-chuva) e cinco pães de queijo fritos em azeite de dendê. Quando a coisa toda começar a pegar consciência, acrescente água de fofo a gosto e espere cozinhar mais uns 3 metros.

Agora vem a parte mais importante: você. Rá! Brincadeirinha, viu? A parte mais importante: jogue caldo de berinjela da Pérsia e dois gramas de gema de ovo. Acrescente uma flecha de três quilos e dois mamilos. Quando a receita começar a emitir sons agudos de flauta em dó, ré e mim, tire o mim e acrescente eu, digo, você. Se parar de tocar, não deu certo. Repita desde o início e certifique-se de que fez tudo certo.

Se der certo, você ouvirá um som exótico de perfume francês, misturado com leite de rosas. Aí é só partir em fatias suaves de centeio azul e agradecer aos céus por esse abismo que Deus lhe deu.

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“Objetivo: aperfeiçoar a fluência na língua inglesa usando documentários, telejornais, filmes, internet, sitcoms, talkshows e outros materiais como motivação para o desenvolvimento das habilidades comunicativas. Desenvolver a expressão e a capacidade de compreensão de forma integrada.”

[Curso “Happy Hour: Conversação em Inglês”, na PUC do Rio]

Lá no pântano, resolveram fazer um happy hour, assim em itálico mesmo, pra ficar mais importante. Chamaram uns garçons pra servir vitamina de maracujá com leite de cabra e vinho Almadén de 10 reais, sem gelo (são duas bebidas, viu? Não é uma só não). O objetivo era desenvolver a expressão e a capacidade de compreensão de forma integrada, mesmo porque expressar-se sem compreender é uma absurdidade. Não obstante as sitcoms, os filmes e os talk shows exibidos, aqueles mortinhos burrinhos lá debaixo d’água não conseguiam desenvolver suas habilidades comunicativas, talvez pela ausência de itálicos nos termos do programa. Ou então os materiais exibidos não estavam servindo de motivação a uma dinâmica grupal produtiva no que tange à potencial aquisição de uma fluência no idioma alienígena. Pensou-se em cortar o vinho, que estaria prejudicando a concentração, mas logo se eliminou a idéia, mediante protestos generalizados e cusparadas de vitamina de maracujá com leite de cabra.

Lá pelas tantas, uma linda donzela de canelas roxas levantou-se (seus cabelos quase tocaram a superfície da água) e proferiu um discurso disléxico, quase uma monografia de faculdade, daqueles textos que os seus colegas de grupo escreviam e te entregavam pra “juntar com o seu” e entregar ao professor. Sua peça de desoratória era, até ali, a prova mais concreta de que havia um problema de motivação, ou talvez de pedagogia integrada, que estava impedindo aqueles mortinhos burrinhos de desenvolver suas blá blá blás.

Foi assim que terminou o primeiro happy hour com objetivo realizado no pântano de flores cheirosas.

Depois disso, quiseram fundar uma escola com administração inclusiva no pântano, mas os mortinhos burrinhos não caíram nessa (não eram tão burrinhos assim, pelo visto). Eles disseram aos três burofratas (assim com f mesmo) autores da iniciativa de busca motivacional-pedagógica que inclusão de c* é rola e foram beber mais vinho Almadén de 10 reais, sem gelo. Graças a isso (ao xingamento, não ao vinho), hoje os mortinhos estão um pouco mais inteligentes. Descobriram o algodão doce, que enxertaram na névoa do pântano, dando origem ao famoso misty cotton. Já não fazem mais happy hours com objetivo e já não se importam mais com motivação (afinal, motivação de c* é rola) nem com a integração entre compreensão e expressão, o que no final das contas perceberam ser apenas uma maneira chic de dizer que a galera fica falando merda e não compreendendo merda nenhuma. Viche Maria!

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De vez em quando reviro os arquivos do Agonizando e sinto cheiros de mim. Tem vários cheiros. Meu preferido é o cheiro suave de melancolia. Adoro não resolver problemas e ficar melancólico. Odeio a cura psicológica. Quem inventou a cura psicológica certamente fez um grande mal à humanidade (haha! Adoro generalizar!). Depois desse dia ninguém mais achou digno de um homem ficar chorando as mágoas, a não ser que fosse para afogá-las e sair “libertado” ou alguma coisa nesse sentido (“Alguma coisa nesse sentido” quase foi o nome do meu blog, mas acabou sendo “Agonizando” mesmo). Foi-se o tempo do jovem Werther, o tempo dos tuberculosos de espírito romântico. Hoje a humanidade é uma horda de pacientes potenciais buscando libertação das dores da vida. Qualquer tristezinha e pum! Lá vem um doutor receitar um remédio ou diagnosticar uma depressão. Se eu tivesse depressão, fundaria uma ONG para lutar contra a globalização da depressão.

Gosto de ler coisas que eu escrevi e ver que eu tenho raivas, tristezas, que eu me sinto impedido de fazer certas coisas. Gosto de me ler (de verdade e metaforicamente) e ver que meus desabafos não são atestados de auto-repressão. Espumem de raiva, psicólogos! Eu sou normal o suficiente para viver sem vocês. E não adianta vocês dizerem que se eu estou dizendo isso é porque, inconscientemente, sinto vontade de fazer terapia. Essa armadilha lógica não funciona comigo. Eu sou vacinado contra fraudes teóricas.

Quando eu tiver 333 mil anos, vou ler meus blogs e rir e chorar de mim mesmo. Ainda terei raivas, angústias, melancolias, tristezas, prisões. Ainda assim, serei amável, equilibrado, alegre, feliz e livre. Ainda sentirei o peso da opinião alheia, mesmo tendo escrito contra ela por mil vidas. E ao mesmo tempo não sentirei peso algum. Sairei à rua e sentirei raiva das pessoas mal educadas e não conseguirei gritar com elas por ser educado demais. Mesmo assim serei livre como um passarinho. Livre na prisão. Não é assim que todo mundo é e sempre vai ser? Livre na prisão ou prisioneiro da liberdade. E quem acha que não é livre só porque está na prisão não sabe o sentido da palavra liberdade. Até hoje não conheci ninguém mais livre que meu cachorro, mesmo quando está de coleira. O homem moderno é um cachorro que quer tirar a coleira para ser livre, quando a liberdade está muito pra lá da coleira. A coleira fica no pescoço, atrás de nossos olhos. Por isso, quem passa a vida inteira tentando tirar a coleira nem chega a olhar pra frente.

Hoje eu olhei pra frente e vi um pântano de flores cheirosas. As águas estavam turvas de pólen e a névoa era algodão-doce em pó, misturado com talco johnson. Debaixo d’água estavam trezentas pessoas mortas conversando. Uma delas se levantou e disse a mim que o papo estava bom, mas no pântano não tinha cerveja. Eu perguntei se podia ser vinho e ela me disse que tinto podia ser. Conversamos mais um pouco e eu disse que ia assar umas berinjelas, comprar umas garrafas de vinho e voltar. Voltei amanhã e eles não estavam mais lá. Acho que vi coisas. Pensamentos funestos, diria um chato. Mas era só uma galerinha querendo conversar comigo. Além do mais, ia ser legal entrar naquela água cheia de pólen e dar uns espirros submarinos.

Amanhã vou viajar a um maravilhoso jardim florido de margaridas malcheirosas, só pra ver que a felicidade pode ser tão triste quanto a tristeza pode ser feliz. Conversarei com pessoas vivas e alegres que não bebem vinho nem cerveja e verei que o papo está chato demais, embora todas elas estejam ali, naquele jardim, banhadas de Sol e de orvalho fresco.

E agora chega de falar berinjelas, digo, abobrinhas.

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O gato na janela deve estar vendo muito mais coisas do que jamais sonharia um felino. A paulicéia desvairada cheia de informações visuais só não faz paté do cérebro dele porque ele é bem esperto, sabe selecionar aquilo em que presta atenção.

Mal sabe ele que está em um puleiro padronizado. Seu prédio é como um padrão repetitivo de qualquer coisa trançada com qualquer outra coisa. As janelas todas iguais, as linhas todas iguais, as formas… um prédio é uma coisa de louco mesmo. Você está ali na janela e olha para longe e vê muitas coisas e pensa “estou em casa olhando lá pra fora”, mas não pensa que existem mais dezenas de “casas” iguais à sua, grudadas na sua e suspensas nas alturas. Você não pensa nisso porque não está vendo o seu próprio prédio. O prédio dos outros é uma tristeza pra você, mas pra eles não é. Se cada prédio tivesse um espelho gigante em frente, todo mundo ia achar que mora num cortiço e ficaria deprimido.

Edifícios são cortiços de cegos. Ninguém vê o lugar onde mora e, assim, fica todo mundo feliz! Plim!

Mas o gato não está pensando em nada disso. O gato é eterno. Cada momento pra ele é importante como um arregalar de olhos e um espremer de patas. Seu ímpeto de perseguir miragens o impele ao outro lado da sala à toda velocidade. Tapetes se arranham pelo caminho, copos caem. Mas agora não tem nada disso. Agora é paz e contemplação na janela do cortiço de cego. Será que ele está olhando pra cá? Vou soltar o Perseu em direção a ele.

(…)

Perseu e o gato voaram pra longe. I wonder where they are now. Talvez num campo de lírios e jasmins. Perseu dando rasantes nas flores só pra cheirar o ventinho e o gato pulando a cada passagem, tentando arranhar a capa “desse carneiro chato que não quer me dar carona”.

Acho que estou tendo alucinações. Juro que ouvi o barulho de um interfone tocando aqui do meu lado!

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Poeirinhas

Desligar-se da realidade é a única maneira efetiva de se viver no Brasil. O máximo que se pode fazer é um movimento cíclico. Vai-se e volta-se da realidade um pouco a cada dia. Enquanto a maioria vive um dia após o outro, como o Stallone em Rambo 2 (ou 3?), os cabeçudos vão às livrarias tomar a sua dose daquilo que chamam de “tudo isso que está aí”, analisado pelos mais (in)variados experts do momento (e “o momento” aqui em Pindorama é eterno, não se esqueçam disso).

No meio disso tudo estou eu. Sim! Eu! Um blogueiro sem importância. Mas, bolas, tenho muita importância para mim – afinal, eu sou eu e estou comigo o tempo inteiro. Então sou obrigado a – vejam só vocês! – dar conta da poeira. Então, varro tudo pra baixo do tapete e depois vou retirando em doses homeopáticas. Algumas doses eu transformo em praguejamento, outras em análise social, outras ainda em desvario puro e simples.

Hoje, por exemplo, fiquei 30 minutos com minha mulher num estacionamento, procurando vaga. Perdemos duas vagas que eram nossas por direito, porque os sujeitinhos nos fecharam e queriam brigar. Para um eu falei “nós piscamos antes, mas não queremos briga e estamos indo embora, falou?”. Para o outro eu gritei “é por isso que o Brasil não vai pra frente”. É preciso deixar bem claro que eu não fiz isso com essa facilidade que pode parecer a quem lê estas linhas. Para uma pessoa normal, gritar para um estranho é uma experiência extremamente desagradável. Sempre que eu faço isso, por raiva momentânea, fico com o corpo todo tremendo.

Depois fomos assistir a um filme muito bom – “Big Fish” – feito bem longe daqui. E agora a poeira da tarde está embaixo do tapete. A falta de educação, etc etc. Ela está lá, a poeira, junto com milhares de outras poeirinhas humanas de milhares de dias. Queria ter nascido noutro lugar. Adiantaria? Rá! O mundo está ficando cada vez mais parecido com o Brasil: cheio de pessoas legais, mas em geral uma merda só. Mas ao menos acho que as poeirinhas que você vai recolhendo diariamente são em menor número fora daqui. Mas esse assunto não leva a nada, já que eu nasci aqui e seria um estranho em qualquer outro lugar. Emigrar, só se fosse inevitável.

Um mês atrás: estou levantando o tapete. Êpa! Saiu um carneiro fofo. Sua lã está pedindo pra ser tirada, mas eu não vou fazer isso com o coitado. Ele está aqui correndo pela minha sala pequena e eu correndo atrás dele. O chão já está todo sujo e a peste não pára de correr. Ah, peguei você. Agora posso te apertar, seu fofo. Parou de berrar, né? Acho que vou te adotar. Você vai se chamar Perseu (…).

Perseu tem uma capa vermelha igual à do Super-Homem. Quando não está comendo pra engordar, gosta de voar por aí. O gato do vizinho fica olhando da janela. Gostaria de fazer o mesmo, mas não consegue, o coitado. Nas horas vagas, Perseu me conta confidências de seus tempos de descascador de batatas num navio cargueiro da rota Miami-Santos, onde aprendeu a falar espanhol e onde também fez a tatuagem que se encontra um pouco a esquerda do seu rabicó: o desenho meio gótico meio cômico de uma mussarela de búfala com vinagre balsâmico (tem até olhinhos e uma boca sorridente).

Ainda não consegui arrancar de Perseu a história de como ganhou sua capa voadora. Tenho umas pistas, mas ainda não sei.

(…)

Esta poeirinha já está sublimada.

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