Uma atrás

Um dia eu acordei bem cedo e não senti sono algum. Levantei-me, abri a janela e vi o céu muito azul. O vento era levemente frio e os papagaios do vizinho faziam vibrato com a língua. O dia não estava bonito dentro de mim, só fora. Dentro era só obrigação. Então fui para um lugar aonde não queria ir, fazer exercícios de memória e tradução simultânea dentro de uma cabine, alternando com uma colega. Funcionavam assim: a voz no headphone dizia uma frase em português e depois vinha uma pausa. Quando a segunda frase era pronunciada, eu deveria traduzir a primeira. Então a voz dizia uma terceira frase e eu traduzia a segunda. E assim por diante. A voz continuava dizendo frases e isso demorou muito tempo. Durante uns 10 minutos, as frases se seguiam uma à outra e eu as traduzia, sempre “uma atrás”.

O gato é branco. O telhado é alto. O trem está atrasado. Não faça isso. A faca está afiada. A rua está suja. O leite derramou. Seu conhecimento é universal. O livro está aberto. Suba na árvore. Minha mão está úmida. Meu pai é um bom homem. A cerveja está gelada.

É incrível a limitação do seu vocabulário em uma língua estrangeira. Erram-se coisas absurdas, como “chaminé” e “oco”.

Chegou a vez da minha colega e eu ficava só ouvindo sem ter de fazer nada. Fiquei escutando aquelas frases ocas, aquela sucessão de frases bobas, e aquilo começou a se intercalar com meu pensamento e meu sono. Depois de 5 minutos, parecia haver algum mistério no fato de o mar ser azul, o gato ser branco, ou em não fazer isso, fechar a porta etc etc. Comecei a sentir uma insuportável materialidade naquelas frases que, de tanto se seguirem umas às outras, impunham-se como uma espécie de massa informe de futilidades. Gatos começaram a jorrar do céu. Ruas sujas se atiravam na minha frente. Invernos frios iam e vinham mordendo meu pé. Ratos corriam em cima do leite derramado. Relógios batiam e as horas não passavam mesmo assim. O conhecimento universal sorria para mim, enquanto a aeromoça servia o lanche. Meu pai era um bom homem e alguém subia na árvore só porque o trem estava atrasado. Minha mão estava úmida apesar de o livro estar aberto e o telhado alto não me deixou ver qua a faca estava afiada.

Então percebi que o tempo havia parado. O tempo agora pertencia aos gatos e às ruas. Eu não mandava nada ali. Deus não mandava mais nada ali. Aquilo ali era uma fenda no tempo-espaço, um vácuo do ser. Eu percebia relações de causa e efeito entre coisas desconexas, ou então não percebia. Eu ouvia tantas frases e nenhuma ao mesmo tempo ou todas de uma vez. Eu era eu. As frases eram eu e as frases. Eu era. Não pensei em poemas concretos, mas devo ter chegado perto do que sente o Arnaldo Antunes when he gets high.

Cheguei a uma conclusão metafísica: o telhado é alto.

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