Rosinha, a insípida

Rosinha perdeu o paladar numa noite de lua cheia, quando olhava para um gato laranja e balbuciava versos de “Noites na Taverna”.

Depois, nunca mais. Teve de aprender a viver sem provar do néctar amargo da vida.

Nunca mais sentiu raiva de nada, nem indignação. Seu sorriso aberto ficou conhecido por toda a vizinhança. Gostava muito de comer arroz japonês, batatas fritas do McDonald’s, feijão de self-service e pão light.

Um dia encontrou Jesus Cristo e viu que não era o Willem Dafoe.

Foi vista dando gargalhadas e rolando na calçada, perto do prédio da Gazeta. Os transeuntes estranharam um pouco. Alguém ofereceu uma pitada de sal, mas ela cuspiu, arrancou um espinho do canteiro e deu em troca.

Também gostava de ler. Mas teve de parar, porque tudo que lia se invertia nela. Leu “O Perfume” e perdeu o olfato, leu as obras de Mário Ferreira dos Santos e ficou burra, leu “O Senhor dos Anéis” e deixou de acreditar em elfos e na Liv Tyler.

Por fim, leu os Great Books e se tornou amoral. Foi vista pela última vez pregando os Salmos para uma platéia de cães numa pet shop.

Rosinha provou de tudo na vida e, para todos os efeitos, ficou com o melhor, já que não conseguia sentir o gosto de nada.

[Para Dennis D.]

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