No bar

Tomei chopp demais? Meus olhos se encheram de malte e vi um quadro do Pelé na parede e o quadro começou a ser mais do que era antes. Uma perna à frente e a outra atrás faziam malabarismos em torno da bola muito branca. Em preto e branco a foto, mas fazia diferença? A bola branca, o moleque preto, tudo bem!

Isso era do outro lado do bar que os meus olhos atravessaram. Mas a bola me viu e correu pra mim. Dentro dela tinha uns bilhetes da década de sei lá o quê. Um dizia sim, outro dizia não e um outro era de amor. Minhas perguntas eram se o rumo era certo e se eu podia parar. E o amor foi de surpresa, pegando bem fundo no peito e me deitando no chão rente à grama. Quando me deitei foi sem querer, mas depois já estava bom e nunca mais parou. A bola ficou ali, conversando comigo, contando indecências dos tempos passados, muita lama, chuva, sol e milhares de milhares de pessoas gritando muito, de alegria e de tristeza. Pra ela era futebol, pra mim era muito mais, então ficamos amigos por afinidades diversas. Eu contava a ela muito mais e ela me ouvia e contava a mim futebolidades, que eu abstraía em mil metáforas e jogava de volta em dez segundos.

A vida, por dez minutos eternos, foi um bater e voltar, cair e levantar, sorrir e chorar, falar e calar, esquecer e lembrar. E depois continuou sendo.

[Para Ricardo Procópio]

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Pequena metafísica do cachorro e da galinha d’angola

Ali, do outro lado daquela montanha, está a minha vida de tranqüilos caminhos bucólicos em direção ao nada. Respirando fundo, passos certos, persigo a próxima lombada. Sei que do outro lado não há mais que uma descida, talvez uma galinha perdida ou um cachorro com buracos no pêlo.

É indescritível o prazer de perseguir algo tão insignificante quanto uma galinha d’angola perdida numa estrada de terra. Não há preocupações. Nada pode acontecer de surpreendente. É um sentimento de segurança e plenitude do existir, longe de tudo que se pareça com agitação.

Ali, do outro lado daquele cachorro com buracos no pêlo, estão meus sonhos que podem esperar. O cachorro sorri, abana o rabo e pede um pedaço de qualquer coisa. Eu dou um pedaço de carinho e parece que dei comida, porque os sonhos podem esperar. Para um cachorro, sonhar é estar aqui. Sonhar é desfrutar lentamente de cada sonho, sem pressa de realizar, porque os sonhos acabam se realizando de qualquer jeito. Mais perigoso que não realizar um sonho é o sonho se realizar e você nem perceber, de tão ocupado que estava em realizar o próximo. Eu sou um cachorro.

Tudo o que eu quero nesse mundo é caminhar lentamente junto com os cachorros na praia, ouvindo a espuma na areia e sentindo a brisa, o cheiro da brisa, o cheiro perfeito porque não tem cheiro e ao mesmo tempo tem. Os cachorros sorriem para mim, olham-me como se soubessem do cheiro da brisa, espremem os olhinhos no vento como se soubessem desfrutar das coisas todas. Eu, de algum modo, sei que eles sabem das coisas.

Aqui, dentro da minha cabeça, um turbilhão de coisas se misturam, mas no final é a paz. Não sei como tantas vontades e ausências se transformam em paz e ordem e nem sei como é essa ordem. Sinto que ela está aqui. Tudo está organizado, mas não parece. Minha mente é uma casa cheia de móveis dispostos aleatoriamente. Eu olho para os quartos, para a sala, para a cozinha. Está tudo lá, empilhado ou enfileirado, limpíssimo, brilhando de cera e cheirando bem. Meus olhos vêem bagunça, mas sinto tudo organizado. É como as sonatas de Haendel. A matéria é uma bagunça, o espírito é ordem. Mas onde está o espírito? Não se vê, apenas está lá, como a brisa.

Vejo apenas os móveis, o cachorro, a montanha, a espuma, a galinha d’angola, as lombadas, a terra. E sinto que está tudo bem, apesar dos pesares. Que pesares? Sei lá. Algumas gotas de água salgada, algumas feridas futuras, os buracos no pêlo do cachorro.

Deixe-me ver o que mais tem aqui…