O Cabeçudo e a descoberta da fofura

Quando eu nasci, minha cabeça mal passou. Depois passei minha infância tirando boas notas na escola.

Não que isso fosse grande coisa. Minha escola era uma bosta. Até os 13 anos eu não conseguia comprar lanche na cantina porque não tinha fila e eu não conseguia emergir da massa de marmanjos que se formava na frente do caixa. Quando eu conseguia comprar um lanche, alguém tomava ele de mim e saía correndo. Quando, na sétima série, apareceu um professor bom (era de matemática), eu tive que estudar mais um pouco (durante 4 horas na véspera da prova, eu estudava equações do segundo grau). Mas logo logo os pais arranjaram um jeito de tirar o coitado. A mais avançada técnica pedagógica descoberta neste País para elevar as notas dos alunos é despedir o professor e contratar um mais fraco. Acho que não estou falando nenhuma novidade, mas tudo bem, ou não.

Não estou querendo dizer que eu era um coitado. Como quase todo mundo que não teve a sorte de ser matriculado em um colégio civilizado, eu tive momentos bons e ruins e os ruins ocupavam um espaço que, às vezes, parecia maior que o desejável. Quando eu mesmo, por livre iniciativa, resolvi mudar para um colégio melhor, percebi que eles não apenas pareciam, eles realmente ocupavam um espaço bem maior que o desejável.

Mas eu me virava naquele antrinho. Por exemplo, sempre batalhei para ficar na mesma turma, de terminação “2”, de modo que estudei na turma 12, 22, 32, 42, etc etc, até 102. Era a única turma civilizada da escola. Todas as outras eram uma porcaria. Nós nem passávamos perto, pra não tomar porrada. Um fenômeno deveras curioso: o espírito de união e auto-preservação dos seres humanos em meio aos bichos selvagens.

No segundo ano do segundo grau, quando mudei de colégio, ir à escola deixou de ser uma tortura. Eu gostava mesmo. Os professores eram bons e os colegas queriam fazer amizade em vez de se sacanear mutuamente até os limites do aceitável. Mais tarde descobri que os professores de Humanas eram ruins, mas de uma maneira diferente, marxista. Mas essa é uma outra história: a descoberta de que, só porque você está achando, em determinado momento (pode ser até uma vida inteira!), que uma coisa é boa, não quer dizer que seja.

Depois foi um vôo de descobertas rápidas, umas boas outras ruins, todas novas. Perdi amigos por falta de afinidade, ganhei outros pelo oposto. Esse movimento se repetiu várias vezes. Em geral, tudo era bem interessante e divertido.

Foi mais ou menos no meio da faculdade que minhas asas se quebraram e eu caí de cabeça na biblioteca. Na verdade não foi bem assim. Primeiro eu entrei com as asas mesmo. Peguei uns tantos livros que faziam os professores gostarem de mim quando me viam com eles na mão, na sala de aula. Depois comecei a pegar uns outros, que faziam os professores olharem curiosos e perguntarem quem eram seus autores. Um dia, um professor imaginário não gostou do que eu estava lendo e cortou minhas asas.

Estou até hoje assistindo a elas em seu longo processo de regeneração. Um dia elas ficam grandes e eu vou voar de novo. Mas só de chato eu não vou passar por nenhum dos lugares por que eu passei da outra vez. Em verdade vos digo que não vou passar por lugar nenhum. Vou passar pelo Tempo e chegar do outro lado, onde as árvores têm folhas que nunca caem, de tão fortes; onde os rios são como lagos, de tão calmos; onde o Sol está sempre naquela intensidade das oito e meia da manhã e não precisa chover pra ficar úmido. Lá… Só digo “lá” por falta de opção lingüística, porque na verdade não é um lugar. Prefiro até dizer “alhures”, que é palavra que ninguém conhece e que por isso se parece menos com lugar. Alhures vai estar cheio de passarinhos mansos e cachorrinhos com o rabo abanando. Conversarei com os cachorrinhos e eles dirão coisas interessantes e logo depois abanarão seus rabinhos e ninguém vai achar nada demais nisso. Você já imaginou um sábio fofo? Tente! Aposto que não vai conseguir. Agora eu cheguei perto do inefável, não cheguei? Pois é. Esta é a minha visão de alhures. Esta é a minha visão do inefável: ser inteligente, sábio mesmo, infinitamente sábio, saber tudo ou quase, e ao mesmo tempo ser fofo, simples, singelo. Seria uma espécie de versão verdadeira da hipocrisia do beautiful people. Sabe quando você vai a uma palestra acadêmica com um professorzinho famoso qualquer e ele fala aquelas coisas ininteligíveis e amargas durante horas e depois faz cara de bonzinho, singelo e fofo? O que eu imagino seria o oposto disso. Sabe a cara que o Gilberto Gil faz quando fala dos coitadinhos múltiplos? Idem. Acho difícil explicar, mas seria mais ou menos como ouvir uma pessoa falar coisas profundas durante horas e ao mesmo tempo ver seu rabinho abanar e sentir vontade de rir muito e passar a mão nela com carinho. Parece ridículo. E é. Só que você não vai achar ridículo quando vir, porque ridículo é o ser humano que quer parecer que não é.

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