A multidão e o vazio

Toda vez que uma multidão sai às ruas, uma grande tristeza me toma. Tento encontrar o motivo desta tristeza, mas não consigo delineá-lo bem. Tem a ver com a impotência que se pode enxergar nas manifestações, esse fenômeno tão típico do século vinte. Vejo todas aquelas pessoas clamando por paz e pelo fim de alguma coisa, mas as vejo clamando em direção a lugar nenhum. Gostaria de saber se na cabeça delas há um “destinatário” do clamor, mas temo que não haja. Eu, quando participei de passeatas na época do Collor, lembro que jamais passou por minha cabeça nenhum destinatário.

Se você perguntar, provavelmente vai receber respostas diversas: o governo, os terroristas, os capitalistas, a humanidade, etc etc. Mas, pense bem, e verá que a multiplicidade de respostas é extremamente triste, porque já traz em si o vazio em que estamos caindo. Pensar que “o governo” fará – ou poderá fazer – algo, ou que “os terroristas” vão se comover com multidões etc etc, tudo isso é inútil. As multidões aumentam a cada dia, as ruas se enchem, e tudo isso alimenta um ciclo interminável de decadência, marcado pela revolta, pela violência e pela atribuição de culpa ao “outro”, sempre ao outro. Não há união. A união é ilusória. Todas aquelas pessoas ali juntas, todas as opiniões em uníssono, é tudo ilusão. Na verdade, ninguém sabe aonde está indo, ninguém ouve o som que vem do quarto ao lado, onde os nenéns estão chorando. Está todo mundo preocupado em ouvir os sons de além-mar e em organizar passeatas e plebiscitos. O amor é um mero detalhe nesse ciclo todo. A compreensão é uma nuvem de vapor indefinida, quase invisível.

Sei que dentro das multidões há amor, há pessoas comovidas, há sinceridade. Mas só consigo ver impotência, incoerência e falta de sentido, porque no dia seguinte a multidão sumiu e os garis vão catar papéis e tudo continua como está, pelo simples fato de que as opiniões continuam as mesmas, as certezas continuam as mesmas e os inimigos continuam sendo as mesmas indéias nebulosas e vagas na cabeça das pessoas, idéias idiotas que impedem governos de fazer algo efetivo, impedem povos de se defenderem, impedem a verdade de se manifestar.

A verdadeira “manifestação”, a verdadeira “passeata” é a passeata do espírito. É mudar de idéia. É parar para pensar e ver que talvez as coisas não sejam tão simples quanto se pensava antes. É ser humilde e tentar entender, ao invés de sair por aí com cara de quem sabe tudo, reivindicando alguma coisa para ninguém. Quem pede já sabe o que quer, já entendeu o que está acontecendo. Você já entendeu o que está acontecendo? Eu não. Por isso não saio por aí em passeatas. Ao invés, choro pelos inocentes que morrem todo dia. Choro com palavras, que é o único meio que encontrei de chorar por quem nunca vi. Estas aqui são o meu choro pelos espanhóis.

Choro em caracteres, na esperança de que um dia entedamos esse fantasma diabólico que se chama opinião pública (por enquanto, os jornalistas não estão deixando). Só nesse dia começaremos realmente a lutar contra o terrorismo.

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