A nossa história e a dos outros

“A história é sempre mais complicada do que a gente imagina. Quando a gente conta a nossa história, a gente gosta de contá-la com todos os detalhes e com todas as contradições, para que as pessoas não nos confundam. E quando a gente olha a história dos outros, sempre simplifica e esquematiza, que é para poder falar mal do sujeito mais facilmente. Isto viola o 2º mandamento: vamos conceder aos outros a mesma análise vagarosa e cuidadosa que concedemos a nós mesmos. Pessoas capazes de passar anos num divã de psicanalista contando todas as confusões da sua mente olham o outro e simplificam, botam um carimbo. Mas se o outro é tão simples assim, por que você há de ser tão complicado? Acho que ele é tão complicado quanto você.”

[Olavo de Carvalho, História Essencial da Filosofia, Aula 10 – Santo Agostinho]

Sabe por que eu larguei a faculdade de filosofia? Porque lá ninguém seria capaz de ver que essa reflexão aí em cima está em Santo Agostinho. Porque lá ninguém era capaz de falar de filósofos como de pessoas. Ninguém era capaz de enxergar, nas Confissões de Santo Agostinho ou em qualquer outra obra, a experiência pessoal de um homem, a vida de um homem em busca de auto-conhecimento e respostas. Na faculdade estuda-se “o conceito de Deus em Santo Agostinho”, que é um conjunto de letras numa folha de papel. Não se estuda Agostinho, um homem que escreveu um livro reconstruindo as experiências e impressões de sua própria vida, para tentar entender por que carregamos dentro de nós esta vontade de saber como viemos a existir, já que não somos causa de nós mesmos.

Certamente se fala dos filósofos como pessoas, na faculdade. Mas apenas daquele modo vulgar: o professor tenta montar uma personagem, a qual basicamente se resume a uma pessoa simpática e desejosa de conhecimento. Um estereótipo bobinho que não vale uma mensalidade de X reais, ou melhor, não vale uma ida à aula, enfrentando engarrafamentos e engolindo fumaça de ônibus e caminhões.

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