De passagem

Olhei na bola de cristal e não vi nada. O futuro é besta como uma mulher apressada. E o passado… Ah, o passado serve para tantas coisas! Até para planejar o futuro. O passado é que veste o futuro com um vestido longo de um tecido leve, esvoaçante, meio transparente, que faz da mulher besta apressada uma dama de verdade. De apressada a atarefada. De besta a compromissada. De desembestada a determinada. Mas a dose de futuro deve ser repensada a cada dia, deve ser mantida em níveis mínimos. O charme da dama vem mais do vestido e dos gestos tranqüilos que da determinação e do fazer das tarefas. Note que a besta parece menos besta por causa do vestido. É uma compensação, não uma cura!

O futuro é uma doença. Ainda bem que só existe se pensamos nele.

O passado não. Já existiu, já se esgotou, verteu cada gota de plenitude e se foi, exaurido, realizado. É melhor que pensemos nele, senão ele volta por conta própria para nos assombrar com a marca de sua existência!

E o presente?

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Meu lugar

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“Este é o meu lugar”… Êta frase difícil de dizer!

Ainda não conheci um lugar de onde eu, do alto de uma sonhada segurança, possa dizer a tal frase.

Gostaria de ter nascido em uma daquelas épocas em que as famílias moravam em uma mesma casa, em um mesmo lugar, por gerações e gerações. Gostaria de ter tido essa casa, lá, sempre à minha disposição, esperando o dia de qualquer volta. Eu então viajaria pelos quatro cantos do mundo, em doses homeopáticas, e sempre voltaria e veria os mesmos móveis, a mesma pintura, o mesmo cachorro, a mesma família (mesmo que não as mesmas pessoas).

Em vez disso, tenho sim uma casa, duas até. Mas uma está distante e a outra está cheia de fantasmas. À primeira não volto propriamente, mas apenas vou, visitar meus pais que de repente estão tão distantes. À segunda, bem, é um pouco mais complicado. Lá moram fantasmas e plantas e, esporadicamente, meu irmão. Os fantasmas são bonitos. Já estou aprendendo a ver a beleza das antigas recordações, embora não consiga escapar da tristeza que elas trazem. E as plantas estão meio murchas, parecem sentir a falta do calor humano de outrora, quando a casa estava cheia. Mas ao menos estão vivas, sempre vivas, na varanda dos meus dias felizes de verão, inverno, outono e primavera. E meu irmão está lá. Creio que leva consigo os mesmos sentimentos ambíguos que eu tenho.

Não vou negar que sinto um certo medo de dizer de algum lugar aquela frase ali do começo. Estabelecer-se definitivamente é um sonho? Ou será que o sonho é voltar? Nem sei. Parece. Mas ao mesmo tempo parece com morrer um pouco a cada dia. Ao mesmo tempo, trago em mim uma impressão misteriosa de que morrer é bom. Não de repente, mas um pouquinho a cada dia. Morrer parece o mesmo que viver. Sinto-me tão bem com este sentimento novo… Sinto que entendi algo que eu não entendia antes.

Quero andar, mas também quero repousar. Quero correr em êxtase, mas também quero dormir. Quero falar alto, mas também quero silenciar. Ainda não me acostumei a não voltar. Acho que nem devo. Lá parece um lar. Mas não tem ninguém lá, porque estão todos aqui e em outro lugar.