O gato no cortiço de cego

O gato na janela deve estar vendo muito mais coisas do que jamais sonharia um felino. A paulicéia desvairada cheia de informações visuais só não faz paté do cérebro dele porque ele é bem esperto, sabe selecionar aquilo em que presta atenção.

Mal sabe ele que está em um puleiro padronizado. Seu prédio é como um padrão repetitivo de qualquer coisa trançada com qualquer outra coisa. As janelas todas iguais, as linhas todas iguais, as formas… um prédio é uma coisa de louco mesmo. Você está ali na janela e olha para longe e vê muitas coisas e pensa “estou em casa olhando lá pra fora”, mas não pensa que existem mais dezenas de “casas” iguais à sua, grudadas na sua e suspensas nas alturas. Você não pensa nisso porque não está vendo o seu próprio prédio. O prédio dos outros é uma tristeza pra você, mas pra eles não é. Se cada prédio tivesse um espelho gigante em frente, todo mundo ia achar que mora num cortiço e ficaria deprimido.

Edifícios são cortiços de cegos. Ninguém vê o lugar onde mora e, assim, fica todo mundo feliz! Plim!

Mas o gato não está pensando em nada disso. O gato é eterno. Cada momento pra ele é importante como um arregalar de olhos e um espremer de patas. Seu ímpeto de perseguir miragens o impele ao outro lado da sala à toda velocidade. Tapetes se arranham pelo caminho, copos caem. Mas agora não tem nada disso. Agora é paz e contemplação na janela do cortiço de cego. Será que ele está olhando pra cá? Vou soltar o Perseu em direção a ele.

(…)

Perseu e o gato voaram pra longe. I wonder where they are now. Talvez num campo de lírios e jasmins. Perseu dando rasantes nas flores só pra cheirar o ventinho e o gato pulando a cada passagem, tentando arranhar a capa “desse carneiro chato que não quer me dar carona”.

Acho que estou tendo alucinações. Juro que ouvi o barulho de um interfone tocando aqui do meu lado!

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Poeirinhas

Desligar-se da realidade é a única maneira efetiva de se viver no Brasil. O máximo que se pode fazer é um movimento cíclico. Vai-se e volta-se da realidade um pouco a cada dia. Enquanto a maioria vive um dia após o outro, como o Stallone em Rambo 2 (ou 3?), os cabeçudos vão às livrarias tomar a sua dose daquilo que chamam de “tudo isso que está aí”, analisado pelos mais (in)variados experts do momento (e “o momento” aqui em Pindorama é eterno, não se esqueçam disso).

No meio disso tudo estou eu. Sim! Eu! Um blogueiro sem importância. Mas, bolas, tenho muita importância para mim – afinal, eu sou eu e estou comigo o tempo inteiro. Então sou obrigado a – vejam só vocês! – dar conta da poeira. Então, varro tudo pra baixo do tapete e depois vou retirando em doses homeopáticas. Algumas doses eu transformo em praguejamento, outras em análise social, outras ainda em desvario puro e simples.

Hoje, por exemplo, fiquei 30 minutos com minha mulher num estacionamento, procurando vaga. Perdemos duas vagas que eram nossas por direito, porque os sujeitinhos nos fecharam e queriam brigar. Para um eu falei “nós piscamos antes, mas não queremos briga e estamos indo embora, falou?”. Para o outro eu gritei “é por isso que o Brasil não vai pra frente”. É preciso deixar bem claro que eu não fiz isso com essa facilidade que pode parecer a quem lê estas linhas. Para uma pessoa normal, gritar para um estranho é uma experiência extremamente desagradável. Sempre que eu faço isso, por raiva momentânea, fico com o corpo todo tremendo.

Depois fomos assistir a um filme muito bom – “Big Fish” – feito bem longe daqui. E agora a poeira da tarde está embaixo do tapete. A falta de educação, etc etc. Ela está lá, a poeira, junto com milhares de outras poeirinhas humanas de milhares de dias. Queria ter nascido noutro lugar. Adiantaria? Rá! O mundo está ficando cada vez mais parecido com o Brasil: cheio de pessoas legais, mas em geral uma merda só. Mas ao menos acho que as poeirinhas que você vai recolhendo diariamente são em menor número fora daqui. Mas esse assunto não leva a nada, já que eu nasci aqui e seria um estranho em qualquer outro lugar. Emigrar, só se fosse inevitável.

Um mês atrás: estou levantando o tapete. Êpa! Saiu um carneiro fofo. Sua lã está pedindo pra ser tirada, mas eu não vou fazer isso com o coitado. Ele está aqui correndo pela minha sala pequena e eu correndo atrás dele. O chão já está todo sujo e a peste não pára de correr. Ah, peguei você. Agora posso te apertar, seu fofo. Parou de berrar, né? Acho que vou te adotar. Você vai se chamar Perseu (…).

Perseu tem uma capa vermelha igual à do Super-Homem. Quando não está comendo pra engordar, gosta de voar por aí. O gato do vizinho fica olhando da janela. Gostaria de fazer o mesmo, mas não consegue, o coitado. Nas horas vagas, Perseu me conta confidências de seus tempos de descascador de batatas num navio cargueiro da rota Miami-Santos, onde aprendeu a falar espanhol e onde também fez a tatuagem que se encontra um pouco a esquerda do seu rabicó: o desenho meio gótico meio cômico de uma mussarela de búfala com vinagre balsâmico (tem até olhinhos e uma boca sorridente).

Ainda não consegui arrancar de Perseu a história de como ganhou sua capa voadora. Tenho umas pistas, mas ainda não sei.

(…)

Esta poeirinha já está sublimada.