Poeirinhas

Desligar-se da realidade é a única maneira efetiva de se viver no Brasil. O máximo que se pode fazer é um movimento cíclico. Vai-se e volta-se da realidade um pouco a cada dia. Enquanto a maioria vive um dia após o outro, como o Stallone em Rambo 2 (ou 3?), os cabeçudos vão às livrarias tomar a sua dose daquilo que chamam de “tudo isso que está aí”, analisado pelos mais (in)variados experts do momento (e “o momento” aqui em Pindorama é eterno, não se esqueçam disso).

No meio disso tudo estou eu. Sim! Eu! Um blogueiro sem importância. Mas, bolas, tenho muita importância para mim – afinal, eu sou eu e estou comigo o tempo inteiro. Então sou obrigado a – vejam só vocês! – dar conta da poeira. Então, varro tudo pra baixo do tapete e depois vou retirando em doses homeopáticas. Algumas doses eu transformo em praguejamento, outras em análise social, outras ainda em desvario puro e simples.

Hoje, por exemplo, fiquei 30 minutos com minha mulher num estacionamento, procurando vaga. Perdemos duas vagas que eram nossas por direito, porque os sujeitinhos nos fecharam e queriam brigar. Para um eu falei “nós piscamos antes, mas não queremos briga e estamos indo embora, falou?”. Para o outro eu gritei “é por isso que o Brasil não vai pra frente”. É preciso deixar bem claro que eu não fiz isso com essa facilidade que pode parecer a quem lê estas linhas. Para uma pessoa normal, gritar para um estranho é uma experiência extremamente desagradável. Sempre que eu faço isso, por raiva momentânea, fico com o corpo todo tremendo.

Depois fomos assistir a um filme muito bom – “Big Fish” – feito bem longe daqui. E agora a poeira da tarde está embaixo do tapete. A falta de educação, etc etc. Ela está lá, a poeira, junto com milhares de outras poeirinhas humanas de milhares de dias. Queria ter nascido noutro lugar. Adiantaria? Rá! O mundo está ficando cada vez mais parecido com o Brasil: cheio de pessoas legais, mas em geral uma merda só. Mas ao menos acho que as poeirinhas que você vai recolhendo diariamente são em menor número fora daqui. Mas esse assunto não leva a nada, já que eu nasci aqui e seria um estranho em qualquer outro lugar. Emigrar, só se fosse inevitável.

Um mês atrás: estou levantando o tapete. Êpa! Saiu um carneiro fofo. Sua lã está pedindo pra ser tirada, mas eu não vou fazer isso com o coitado. Ele está aqui correndo pela minha sala pequena e eu correndo atrás dele. O chão já está todo sujo e a peste não pára de correr. Ah, peguei você. Agora posso te apertar, seu fofo. Parou de berrar, né? Acho que vou te adotar. Você vai se chamar Perseu (…).

Perseu tem uma capa vermelha igual à do Super-Homem. Quando não está comendo pra engordar, gosta de voar por aí. O gato do vizinho fica olhando da janela. Gostaria de fazer o mesmo, mas não consegue, o coitado. Nas horas vagas, Perseu me conta confidências de seus tempos de descascador de batatas num navio cargueiro da rota Miami-Santos, onde aprendeu a falar espanhol e onde também fez a tatuagem que se encontra um pouco a esquerda do seu rabicó: o desenho meio gótico meio cômico de uma mussarela de búfala com vinagre balsâmico (tem até olhinhos e uma boca sorridente).

Ainda não consegui arrancar de Perseu a história de como ganhou sua capa voadora. Tenho umas pistas, mas ainda não sei.

(…)

Esta poeirinha já está sublimada.

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