Enquanto isso, na Egolãndia…

De vez em quando reviro os arquivos do Agonizando e sinto cheiros de mim. Tem vários cheiros. Meu preferido é o cheiro suave de melancolia. Adoro não resolver problemas e ficar melancólico. Odeio a cura psicológica. Quem inventou a cura psicológica certamente fez um grande mal à humanidade (haha! Adoro generalizar!). Depois desse dia ninguém mais achou digno de um homem ficar chorando as mágoas, a não ser que fosse para afogá-las e sair “libertado” ou alguma coisa nesse sentido (“Alguma coisa nesse sentido” quase foi o nome do meu blog, mas acabou sendo “Agonizando” mesmo). Foi-se o tempo do jovem Werther, o tempo dos tuberculosos de espírito romântico. Hoje a humanidade é uma horda de pacientes potenciais buscando libertação das dores da vida. Qualquer tristezinha e pum! Lá vem um doutor receitar um remédio ou diagnosticar uma depressão. Se eu tivesse depressão, fundaria uma ONG para lutar contra a globalização da depressão.

Gosto de ler coisas que eu escrevi e ver que eu tenho raivas, tristezas, que eu me sinto impedido de fazer certas coisas. Gosto de me ler (de verdade e metaforicamente) e ver que meus desabafos não são atestados de auto-repressão. Espumem de raiva, psicólogos! Eu sou normal o suficiente para viver sem vocês. E não adianta vocês dizerem que se eu estou dizendo isso é porque, inconscientemente, sinto vontade de fazer terapia. Essa armadilha lógica não funciona comigo. Eu sou vacinado contra fraudes teóricas.

Quando eu tiver 333 mil anos, vou ler meus blogs e rir e chorar de mim mesmo. Ainda terei raivas, angústias, melancolias, tristezas, prisões. Ainda assim, serei amável, equilibrado, alegre, feliz e livre. Ainda sentirei o peso da opinião alheia, mesmo tendo escrito contra ela por mil vidas. E ao mesmo tempo não sentirei peso algum. Sairei à rua e sentirei raiva das pessoas mal educadas e não conseguirei gritar com elas por ser educado demais. Mesmo assim serei livre como um passarinho. Livre na prisão. Não é assim que todo mundo é e sempre vai ser? Livre na prisão ou prisioneiro da liberdade. E quem acha que não é livre só porque está na prisão não sabe o sentido da palavra liberdade. Até hoje não conheci ninguém mais livre que meu cachorro, mesmo quando está de coleira. O homem moderno é um cachorro que quer tirar a coleira para ser livre, quando a liberdade está muito pra lá da coleira. A coleira fica no pescoço, atrás de nossos olhos. Por isso, quem passa a vida inteira tentando tirar a coleira nem chega a olhar pra frente.

Hoje eu olhei pra frente e vi um pântano de flores cheirosas. As águas estavam turvas de pólen e a névoa era algodão-doce em pó, misturado com talco johnson. Debaixo d’água estavam trezentas pessoas mortas conversando. Uma delas se levantou e disse a mim que o papo estava bom, mas no pântano não tinha cerveja. Eu perguntei se podia ser vinho e ela me disse que tinto podia ser. Conversamos mais um pouco e eu disse que ia assar umas berinjelas, comprar umas garrafas de vinho e voltar. Voltei amanhã e eles não estavam mais lá. Acho que vi coisas. Pensamentos funestos, diria um chato. Mas era só uma galerinha querendo conversar comigo. Além do mais, ia ser legal entrar naquela água cheia de pólen e dar uns espirros submarinos.

Amanhã vou viajar a um maravilhoso jardim florido de margaridas malcheirosas, só pra ver que a felicidade pode ser tão triste quanto a tristeza pode ser feliz. Conversarei com pessoas vivas e alegres que não bebem vinho nem cerveja e verei que o papo está chato demais, embora todas elas estejam ali, naquele jardim, banhadas de Sol e de orvalho fresco.

E agora chega de falar berinjelas, digo, abobrinhas.

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