Zigmut, razão de meu ser

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Zigmut, meu cerebelo de estimação, ensinou-me que não devemos desagradar as pessoas. “As pessoas” são aqueles seres bonzinhos e sensatos, simpáticos e amigáveis, que ficam putos quando você não concorda com eles em gênero, número e grau. Quando eu escrevi meu primeiro texto provando que fulano estava errado até o pescoço, Zigmut não gostou. Perguntou-me aonde eu queria chegar com tudo aquilo. Deu-me uma ou duas lições de moral e disse que estava muito decepcionado.

Foi-se embora e nem deixou recado. Meu cerebelinho querido. Equilíbrio de meus gestos, coordenação do meu caminho etc etc. Nem um bilhete.

Reencontrei-o tempos depois. Estava totalmente diferente. Mal me reconheceu. Conversamos por horas e horas e veio a reconciliação. Mas ele já não era o mesmo. Onde estava todo aquele equilíbrio? Onde o senso de orientação? Fui procurar as más línguas e elas me disseram que ele havia cruzado o mundo em busca de aventuras. Aprendeu hebraico só pra cantar rap e deitou-se com todas as mulheres de todos os litorais imagináveis, embora nunca tenha penetrado nos continentes. Havia perdido totalmente o senso de direção.

Ainda assim aceitei-o. Meu querido Zigmut, razão de meu frágil controle, prudência desorientada que me leva imaginariamente aos quatro cantos de um lugar estranho, onde a concórdia mata milhões e a discórdia é execrada como baratas de uma exposição do Itaú Cultural.

Um dia livrar-me-ei de ti, Zigmut. Amo-te e te odeio. Teus dias estão contados não sei pra quando. Um dia minha ortodoxia te expurgará de minha mente. E transformar-me-ei numa alma nobre, comedida, leve, inabalável, homogênea, serena, decidida, absoluta, simpática, perfeita, milagrosa? Cruz credo!

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