Em um lounge

Ontem à noite eu estava em um lounge, conversando com meu pai (ele tem 77 anos, então imagine a cena) sobre uma reportagem absurda sobre o filme do Mel Gibson na “Istoé Dinheiro”. Depois meu pai virou a Madonna, uma Madonna que entendia português e era gente boa, ou seja, não era bem a Madonna. E nós continuamos conversando sobre a “Istoé Dinheiro” e sobre outras coisas sobre as quais imagino que a Madonna não conversaria. Mas posso estar enganado sobre essa última informação, já que recentemente o Mel Gibson virou diretor de filmes sérios e o Arnold virou governador. Dois… digamos assim… ex-patolas.

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De passagem

Olhei na bola de cristal e não vi nada. O futuro é besta como uma mulher apressada. E o passado… Ah, o passado serve para tantas coisas! Até para planejar o futuro. O passado é que veste o futuro com um vestido longo de um tecido leve, esvoaçante, meio transparente, que faz da mulher besta apressada uma dama de verdade. De apressada a atarefada. De besta a compromissada. De desembestada a determinada. Mas a dose de futuro deve ser repensada a cada dia, deve ser mantida em níveis mínimos. O charme da dama vem mais do vestido e dos gestos tranqüilos que da determinação e do fazer das tarefas. Note que a besta parece menos besta por causa do vestido. É uma compensação, não uma cura!

O futuro é uma doença. Ainda bem que só existe se pensamos nele.

O passado não. Já existiu, já se esgotou, verteu cada gota de plenitude e se foi, exaurido, realizado. É melhor que pensemos nele, senão ele volta por conta própria para nos assombrar com a marca de sua existência!

E o presente?

Meu lugar

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“Este é o meu lugar”… Êta frase difícil de dizer!

Ainda não conheci um lugar de onde eu, do alto de uma sonhada segurança, possa dizer a tal frase.

Gostaria de ter nascido em uma daquelas épocas em que as famílias moravam em uma mesma casa, em um mesmo lugar, por gerações e gerações. Gostaria de ter tido essa casa, lá, sempre à minha disposição, esperando o dia de qualquer volta. Eu então viajaria pelos quatro cantos do mundo, em doses homeopáticas, e sempre voltaria e veria os mesmos móveis, a mesma pintura, o mesmo cachorro, a mesma família (mesmo que não as mesmas pessoas).

Em vez disso, tenho sim uma casa, duas até. Mas uma está distante e a outra está cheia de fantasmas. À primeira não volto propriamente, mas apenas vou, visitar meus pais que de repente estão tão distantes. À segunda, bem, é um pouco mais complicado. Lá moram fantasmas e plantas e, esporadicamente, meu irmão. Os fantasmas são bonitos. Já estou aprendendo a ver a beleza das antigas recordações, embora não consiga escapar da tristeza que elas trazem. E as plantas estão meio murchas, parecem sentir a falta do calor humano de outrora, quando a casa estava cheia. Mas ao menos estão vivas, sempre vivas, na varanda dos meus dias felizes de verão, inverno, outono e primavera. E meu irmão está lá. Creio que leva consigo os mesmos sentimentos ambíguos que eu tenho.

Não vou negar que sinto um certo medo de dizer de algum lugar aquela frase ali do começo. Estabelecer-se definitivamente é um sonho? Ou será que o sonho é voltar? Nem sei. Parece. Mas ao mesmo tempo parece com morrer um pouco a cada dia. Ao mesmo tempo, trago em mim uma impressão misteriosa de que morrer é bom. Não de repente, mas um pouquinho a cada dia. Morrer parece o mesmo que viver. Sinto-me tão bem com este sentimento novo… Sinto que entendi algo que eu não entendia antes.

Quero andar, mas também quero repousar. Quero correr em êxtase, mas também quero dormir. Quero falar alto, mas também quero silenciar. Ainda não me acostumei a não voltar. Acho que nem devo. Lá parece um lar. Mas não tem ninguém lá, porque estão todos aqui e em outro lugar.

A nossa história e a dos outros

“A história é sempre mais complicada do que a gente imagina. Quando a gente conta a nossa história, a gente gosta de contá-la com todos os detalhes e com todas as contradições, para que as pessoas não nos confundam. E quando a gente olha a história dos outros, sempre simplifica e esquematiza, que é para poder falar mal do sujeito mais facilmente. Isto viola o 2º mandamento: vamos conceder aos outros a mesma análise vagarosa e cuidadosa que concedemos a nós mesmos. Pessoas capazes de passar anos num divã de psicanalista contando todas as confusões da sua mente olham o outro e simplificam, botam um carimbo. Mas se o outro é tão simples assim, por que você há de ser tão complicado? Acho que ele é tão complicado quanto você.”

[Olavo de Carvalho, História Essencial da Filosofia, Aula 10 – Santo Agostinho]

Sabe por que eu larguei a faculdade de filosofia? Porque lá ninguém seria capaz de ver que essa reflexão aí em cima está em Santo Agostinho. Porque lá ninguém era capaz de falar de filósofos como de pessoas. Ninguém era capaz de enxergar, nas Confissões de Santo Agostinho ou em qualquer outra obra, a experiência pessoal de um homem, a vida de um homem em busca de auto-conhecimento e respostas. Na faculdade estuda-se “o conceito de Deus em Santo Agostinho”, que é um conjunto de letras numa folha de papel. Não se estuda Agostinho, um homem que escreveu um livro reconstruindo as experiências e impressões de sua própria vida, para tentar entender por que carregamos dentro de nós esta vontade de saber como viemos a existir, já que não somos causa de nós mesmos.

Certamente se fala dos filósofos como pessoas, na faculdade. Mas apenas daquele modo vulgar: o professor tenta montar uma personagem, a qual basicamente se resume a uma pessoa simpática e desejosa de conhecimento. Um estereótipo bobinho que não vale uma mensalidade de X reais, ou melhor, não vale uma ida à aula, enfrentando engarrafamentos e engolindo fumaça de ônibus e caminhões.

A multidão e o vazio

Toda vez que uma multidão sai às ruas, uma grande tristeza me toma. Tento encontrar o motivo desta tristeza, mas não consigo delineá-lo bem. Tem a ver com a impotência que se pode enxergar nas manifestações, esse fenômeno tão típico do século vinte. Vejo todas aquelas pessoas clamando por paz e pelo fim de alguma coisa, mas as vejo clamando em direção a lugar nenhum. Gostaria de saber se na cabeça delas há um “destinatário” do clamor, mas temo que não haja. Eu, quando participei de passeatas na época do Collor, lembro que jamais passou por minha cabeça nenhum destinatário.

Se você perguntar, provavelmente vai receber respostas diversas: o governo, os terroristas, os capitalistas, a humanidade, etc etc. Mas, pense bem, e verá que a multiplicidade de respostas é extremamente triste, porque já traz em si o vazio em que estamos caindo. Pensar que “o governo” fará – ou poderá fazer – algo, ou que “os terroristas” vão se comover com multidões etc etc, tudo isso é inútil. As multidões aumentam a cada dia, as ruas se enchem, e tudo isso alimenta um ciclo interminável de decadência, marcado pela revolta, pela violência e pela atribuição de culpa ao “outro”, sempre ao outro. Não há união. A união é ilusória. Todas aquelas pessoas ali juntas, todas as opiniões em uníssono, é tudo ilusão. Na verdade, ninguém sabe aonde está indo, ninguém ouve o som que vem do quarto ao lado, onde os nenéns estão chorando. Está todo mundo preocupado em ouvir os sons de além-mar e em organizar passeatas e plebiscitos. O amor é um mero detalhe nesse ciclo todo. A compreensão é uma nuvem de vapor indefinida, quase invisível.

Sei que dentro das multidões há amor, há pessoas comovidas, há sinceridade. Mas só consigo ver impotência, incoerência e falta de sentido, porque no dia seguinte a multidão sumiu e os garis vão catar papéis e tudo continua como está, pelo simples fato de que as opiniões continuam as mesmas, as certezas continuam as mesmas e os inimigos continuam sendo as mesmas indéias nebulosas e vagas na cabeça das pessoas, idéias idiotas que impedem governos de fazer algo efetivo, impedem povos de se defenderem, impedem a verdade de se manifestar.

A verdadeira “manifestação”, a verdadeira “passeata” é a passeata do espírito. É mudar de idéia. É parar para pensar e ver que talvez as coisas não sejam tão simples quanto se pensava antes. É ser humilde e tentar entender, ao invés de sair por aí com cara de quem sabe tudo, reivindicando alguma coisa para ninguém. Quem pede já sabe o que quer, já entendeu o que está acontecendo. Você já entendeu o que está acontecendo? Eu não. Por isso não saio por aí em passeatas. Ao invés, choro pelos inocentes que morrem todo dia. Choro com palavras, que é o único meio que encontrei de chorar por quem nunca vi. Estas aqui são o meu choro pelos espanhóis.

Choro em caracteres, na esperança de que um dia entedamos esse fantasma diabólico que se chama opinião pública (por enquanto, os jornalistas não estão deixando). Só nesse dia começaremos realmente a lutar contra o terrorismo.

O Cabeçudo e a descoberta da fofura

Quando eu nasci, minha cabeça mal passou. Depois passei minha infância tirando boas notas na escola.

Não que isso fosse grande coisa. Minha escola era uma bosta. Até os 13 anos eu não conseguia comprar lanche na cantina porque não tinha fila e eu não conseguia emergir da massa de marmanjos que se formava na frente do caixa. Quando eu conseguia comprar um lanche, alguém tomava ele de mim e saía correndo. Quando, na sétima série, apareceu um professor bom (era de matemática), eu tive que estudar mais um pouco (durante 4 horas na véspera da prova, eu estudava equações do segundo grau). Mas logo logo os pais arranjaram um jeito de tirar o coitado. A mais avançada técnica pedagógica descoberta neste País para elevar as notas dos alunos é despedir o professor e contratar um mais fraco. Acho que não estou falando nenhuma novidade, mas tudo bem, ou não.

Não estou querendo dizer que eu era um coitado. Como quase todo mundo que não teve a sorte de ser matriculado em um colégio civilizado, eu tive momentos bons e ruins e os ruins ocupavam um espaço que, às vezes, parecia maior que o desejável. Quando eu mesmo, por livre iniciativa, resolvi mudar para um colégio melhor, percebi que eles não apenas pareciam, eles realmente ocupavam um espaço bem maior que o desejável.

Mas eu me virava naquele antrinho. Por exemplo, sempre batalhei para ficar na mesma turma, de terminação “2”, de modo que estudei na turma 12, 22, 32, 42, etc etc, até 102. Era a única turma civilizada da escola. Todas as outras eram uma porcaria. Nós nem passávamos perto, pra não tomar porrada. Um fenômeno deveras curioso: o espírito de união e auto-preservação dos seres humanos em meio aos bichos selvagens.

No segundo ano do segundo grau, quando mudei de colégio, ir à escola deixou de ser uma tortura. Eu gostava mesmo. Os professores eram bons e os colegas queriam fazer amizade em vez de se sacanear mutuamente até os limites do aceitável. Mais tarde descobri que os professores de Humanas eram ruins, mas de uma maneira diferente, marxista. Mas essa é uma outra história: a descoberta de que, só porque você está achando, em determinado momento (pode ser até uma vida inteira!), que uma coisa é boa, não quer dizer que seja.

Depois foi um vôo de descobertas rápidas, umas boas outras ruins, todas novas. Perdi amigos por falta de afinidade, ganhei outros pelo oposto. Esse movimento se repetiu várias vezes. Em geral, tudo era bem interessante e divertido.

Foi mais ou menos no meio da faculdade que minhas asas se quebraram e eu caí de cabeça na biblioteca. Na verdade não foi bem assim. Primeiro eu entrei com as asas mesmo. Peguei uns tantos livros que faziam os professores gostarem de mim quando me viam com eles na mão, na sala de aula. Depois comecei a pegar uns outros, que faziam os professores olharem curiosos e perguntarem quem eram seus autores. Um dia, um professor imaginário não gostou do que eu estava lendo e cortou minhas asas.

Estou até hoje assistindo a elas em seu longo processo de regeneração. Um dia elas ficam grandes e eu vou voar de novo. Mas só de chato eu não vou passar por nenhum dos lugares por que eu passei da outra vez. Em verdade vos digo que não vou passar por lugar nenhum. Vou passar pelo Tempo e chegar do outro lado, onde as árvores têm folhas que nunca caem, de tão fortes; onde os rios são como lagos, de tão calmos; onde o Sol está sempre naquela intensidade das oito e meia da manhã e não precisa chover pra ficar úmido. Lá… Só digo “lá” por falta de opção lingüística, porque na verdade não é um lugar. Prefiro até dizer “alhures”, que é palavra que ninguém conhece e que por isso se parece menos com lugar. Alhures vai estar cheio de passarinhos mansos e cachorrinhos com o rabo abanando. Conversarei com os cachorrinhos e eles dirão coisas interessantes e logo depois abanarão seus rabinhos e ninguém vai achar nada demais nisso. Você já imaginou um sábio fofo? Tente! Aposto que não vai conseguir. Agora eu cheguei perto do inefável, não cheguei? Pois é. Esta é a minha visão de alhures. Esta é a minha visão do inefável: ser inteligente, sábio mesmo, infinitamente sábio, saber tudo ou quase, e ao mesmo tempo ser fofo, simples, singelo. Seria uma espécie de versão verdadeira da hipocrisia do beautiful people. Sabe quando você vai a uma palestra acadêmica com um professorzinho famoso qualquer e ele fala aquelas coisas ininteligíveis e amargas durante horas e depois faz cara de bonzinho, singelo e fofo? O que eu imagino seria o oposto disso. Sabe a cara que o Gilberto Gil faz quando fala dos coitadinhos múltiplos? Idem. Acho difícil explicar, mas seria mais ou menos como ouvir uma pessoa falar coisas profundas durante horas e ao mesmo tempo ver seu rabinho abanar e sentir vontade de rir muito e passar a mão nela com carinho. Parece ridículo. E é. Só que você não vai achar ridículo quando vir, porque ridículo é o ser humano que quer parecer que não é.