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Archive for April, 2004

Esqueci-me de dizer que meus dedos estão se retorcendo. Minhas olheiras estão aumentando. Minha bunda amassada na cadeira pede uma noite de sono, mas os olhos querem ver a Luz. Estou ficando estranho. Na minha testa começam a surgir idéias. Idéias, imagine você!

Enquanto isso, na Sala de Justiça: “Santa Trindade, Batman! O que faremos com esse rapaz? Não consegue ver sensatez em ninguém…”

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Capítulos I e II

Os livros pululam nas estantes. O chão quer passar do chão, mas acaba ficando no mesmo lugar. O conhecimento quer ir aos céus, mas acaba ficando no mesmo lugar também, eternamente na horizontal (tá bom, tá bom, talvez ele tenha subido um pouquinho; mas só um pouquinho…). O bolso se esvazia progressivamente. Milhares de reais viram bens imóveis, imobilizados na prateleira, esperando pela hora de se esvairem em abstrações e passearem por neurônios frenéticos. Falta espaço nas prateleiras e sobra no cérebro. Sempre. As idéias não cabem nas folhas por excesso de materialidade e encontram dificuldade de entrar na cabeça, por falta de ordem. E a fila das futuras aquisições não cessa de aumentar. Tento impor regras: “não iniciarás a leitura de mais um livro enquanto não terminares um dos que já estás lendo”. E invento exceções: “mas agora não é um livro que estou querendo ler, mas sim uma apostila!” Oh, maldita criatividade humana. Na fila estão livros que nem conseguiria ler agora, pois precisaria ler outros primeiro para conseguir depois entendê-los. Você já abriu um livro e não entendeu bulhufas? Pois eu tenho uma dica: aprenda a arte de saber por que você não consegue entender um livro determinado. E depois que tiver essa arte, tente aplicá-la. Então você aprenderá a encontrar os livros que você precisa ler antes dos livros que você quer ler. Mas não exagere, senão nunca vai lê-los (os que você quer… ah, você entendeu…). Se não entendeu nada, então pule para o capítulo 2.

Capítulo 2

Os livros pululam nas estantes. O chão quer passar do chão, mas acaba ficando (…)

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Já estou cansado de fazer cursos só pra perceber que estudar em casa rende mais e que o único motivo real pelo qual os estou fazendo é o diplominha no currículo. E veja a hora em que eu tenho que acordar! Ninguém merece.

By the way, sou tradutor literário e de ciências humanas do inglês para o português (artigos, ensaios, livros etc etc). Alguém aí tem uns servicinhos pra me oferecer? No bom sentido, é claro…

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Estou fazendo pós-graduação em tudo. Acho que não tem na universidade. Primeiro vem tudo que eu já deveria saber. Depois vem o resto. Pena que muitas coisas estão em inglês (pena não pra mim, mas pra muitos), como estes livros que eu deveria ter lido no lugar de Maquiavel, Hobbes e Rousseau.

Alguns me têm por louco, por querer ler escritos de figuras que levitavam quando rezavam. Outros me têm por louco por admitir que contos da carochinha podem não ser tão carochísticos assim (estão aqui também). Aliás, pausa para comentário: petulância do homem moderno é a de pensar que os milhões de pessoas que tiveram experiências místicas em toda a história da humanidade estavam “viajando”, hipnotizadas por uma “mentalidade” atrasada mítico-religiosa ou auto-sugestionadas por seu próprio inconsciente (coletivo ou não). E nós? Por que não podemos estar tomados por uma mentalidade “atrasada” (as aspas são por motivos óbvios de imperfeição terminológica) quando pensamos que é óbvio que fulano estava mentindo sobre alguns milagres que viu? ou pior: sobre coisas que ele mesmo sentiu e viu. Como já disse Mortimer Adler apoiado na famosa lógica (já ouviram falar?), ajuntar milhares de evidências empíricas não transforma hipótese em verdade, mas apenas em probabilidade. A única coisa que transforma hipótese em verdade é a inteligência. A ciência é impotente diante de uma pessoa que diz que viu. E o inconformismo dos cientistas não diminui esta lamentável impotência, mas apenas alimenta sua criatividade teórica.

Fim da pausa e novo comentário inconveniente: sinto um sentimento de tristeza egoísta e felicidade altruísta quando um blogueiro começa a escrever menos. Isto quer dizer que eu vou ser privado de seus bons escritos, mas também significa que ele tem mais o que fazer do que ficar repassando o pouquíssimo conhecimento que tem sobre todas as coisas e decidiu que é melhor desligar o computador e ler uns livros.

Ou não. Eu, por exemplo, estou escrevendo menos porque comprei uns CDs da Britney e do Timberlake e estou achando-os o bicho! Escutá-los-ei por toda uma eternidade e levitarei em direção ao motor imóvel, levando comigo a Dorotéia e o Argemiro. Todos estão convidados, bastando que tragam suas Bíblias (em PDF não vale) e seu ódio-amor-indiferença por Olavo de Carvalho. Seremos todos felizes juntos, principalmente devido ao fim da exclusão social.

Ou não.

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Argemiro, O Gato

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Argemiro está comodamente instalado sobre uma apostila de Olavo de Carvalho, An Introduction to Austrian Economics e The Supreme Court Rules. É um gato metido a besta. Nasceu no Shopping Villa-Lobos. Logo no dia de sua aquisição, passou pela Livraria Cultura e entrou em uma sala de exibição do Cinemark. Alimenta-se de conhecimento, sacia a sede bebendo aromatizador de ambiente da L’Occitane, faz bolinhas de caquinha em forma de mônadas de Leibniz e peida jazz. Não obstante, Argemiro é muito simpático. Apesar de ter ataques de raiva quando abro a janela deixando entrar a poluição, O Gato é gente boa. Um dia desses tentou me ditar uma receita de bolo, mas percebi que sua memória não é muito boa. Disse-me que de onde está não consegue ouvir muito bem o programa da Nigella, mas eu não acreditei muito nessa balela. O fato é que O Gato é desmemoriado mesmo, não há como negar. Onde já se viu fazer um bolo de chocolate com apenas três ingredientes?

Argemiro tem arames enxertados em seu corpo, mais ou menos como o Wolverine, só que mais divertido: posso colocá-lo em qualquer posição, desde que não me preocupe em equilibrá-lo de pé. Sua boca manda-me beijinhos, mas isso é coisa de fru-fru, então não dou bola. Dois meses em cima de apostilas de filosofia não lhe fizeram muito bem. Não fossem nossas conversas periódicas sobre amenidades, não sei o que seria do pobre Gato. Quando viajamos, por exemplo, e voltamos, ele está lá imóvel, no mesmo lugar em que o deixamos. Se isso não é loucura, não sei o que é.

Se algum dia ele vier me dizer algo sobre a infinitude das mônadas de Leibniz, juro que corto sua alimentação. Diarréia metafísica também já é demais.

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Minha tartaruga Dorotéia Genoveva já me disse que está comigo em tudo que eu decidir. Entretanto, também já me disse que a agitação da cidade grande não é pra ela. A coitadinha prefere o silêncio e a tranquilidade de Belo Horizonte às ambulâncias de São Paulo, aos ônibus, aos caminhões sinistros que furam o silêncio da madrugada em direção aos buracos que escondem gasodutos. Mas sei que ela reclama de barriga cheia. Sua vida é muito fácil. Sempre esteve ali, em cima do monitor, sorrindo descabelada. Tudo bem que ela tem que aturar a minha cara por mais tempo do que desejaria. Mas, eu também tenho que aturar a dela. E confesso que às vezes fica difícil me concentrar em minhas leituras eletrônicas, diante de tão insólita figura.

Acabo de voltar da roça grande e não levei minha pobre e nostálgica amiga. Saí de viagem e a deixei aqui, com a poeira e a poluição, imóvel sobre o monitor. Em compensação, levamos uma grande conversa na volta. Eu contei a ela minhas impressões adquiridas. Disse a ela que a paz e o relativo isolamento do mundo, de que gozei esses dias em que lá estive, fizeram-me pensar uma ou duas coisas sobre gastar muito tempo on-line. Tive tempo de ler longe de um computador. Depois de muito tempo, abri e fechei um livro longe de um computador e gostei daquilo. Ler livros em frente ao computador tem lá suas vantagens (dicionários, pesquisas bibliográficas, checagem de termos). Mas, a relação literária parece mais autêntica sem esse barulhinho de HDs e coolers por perto, e sem essa emanação de elétrons da tela. Dorotéia logo se preocupou, assustada com a possibilidade de eu me distanciar do monitor e, logo, dela. Eu disse a ela que não tem com que se preocupar, já que minha maneira de vencer os problemas é na base da força de vontade. Vou me esforçar para não olhar e-mails enquanto leio, para não ficar passeando na Web sempre que virar a terceira página, enfim, não interromper a leitura com atividades eletrônicas. Vou reconstruir a relação literária, quer o computador e meus vícios gostem ou não. E um dia, quem sabe, comprarei um computador mais silencioso. Este aqui faz um barulho dos infernos.

E Dorotéia agora está mais feliz, inclusive por causa da perspectiva de repousar sobre um novo monitor, ainda que a longo prazo.

Ainda não contei nada a ela sobre o Islã ou sobre o Perfeito Idiota Latinoamericano. Essas coisas são muito fortes para o seu pobre coraçãozinho, tadinha.

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“A Paixão de Cristo”, o filme, não tem quase nenhum problema. Talvez umas duas câmeras lentas a mais do que deveria. Nada que incomode um espírito sensível. “Ouvi” alguém dizer que o aramaico, que se fala no filme, é uma língua feia, que seus sons vêm do baixo ventre etc etc. Mas, considerei o comentário apenas como um triste zumbido de uma mosquinha a dez mil quilômetros de distância. Besta, mesmo. Se o filme fosse em inglês, seria metade do que é.

Sim. É muito bom. E sutil, embora a opinião corrente seja a de que é grosseiro e violento.

Sabe o que incomodou tanta gente nesse filme? O fato de ele ser cristão. Todo mundo está acostumado com a mensagem cristã, mas não enunciada de modo cristão. Todo mundo está acostumado a palavras amenas, ao moralismo suave, que pode ser esquecido poucos minutos depois. Estamos habituados a ouvir alguém falar de Jesus como quem fala de um “cara gente boa” e do cristianismo como quem fala de mais uma manifestação cultural. Então, esperamos sempre ouvir amenidades, observações pseudo-inteligentes para se fazer enquanto se bebe uma taça de vinho numa festa de aniversário, em poucas palavras, filologia de boteco.

Mas, o que aconteceu com Jesus Cristo não foi ameno. Foi uma violência gigantesca. E com isso, acho que todos concordam. Entretanto, o ponto principal é que não foi apenas uma violação dos direitos humanos, ao menos não para um Cristão. E é isso que o filme quer deixar bem claro. É como se o filme dissesse: “Isto aqui não é uma questão de direitos. Isto aqui é um absurdo metafísico”. É por isso que o filme incomoda tanto: porque é sério. Os olhares que os personagens trocam entre si durante o filme inteiro (só um crítico que li falou desses olhares) são bem claros. Eles querem mostrar que aquilo que estava acontecendo ali era muito grave. Tão grave que palavras não poderiam descrever. E como, para nós, homens modernos, ateus, semi-ateus, pseudo-cristãos ou sei lá o quê, a Paixão de Cristo não é mais algo tão grave, é apenas um feriado prolongado ou, no máximo, uns dias de prece na Igreja… Isso se chama pseudo-religiosidade. Estou lendo um livro sobre o Islã, e lá o autor diz que, para o muçulmano, religião é a própria vida. Como conciliar isso com nossas exigências modernas? Difícil, não é? Mas poderíamos ao menos tentar. Seria um começo, literalmente, já que até agora não vi ninguém fazendo isso. De um lado, vejo tradicionalistas dizendo que usar pílula é aborto e tomar cerveja é pecado; de outro, vejo pervertidos querendo matar seus bebês à vontade. O famoso 8 ou 80 de sempre.

Voltando ao assunto, o filme incomoda porque é cristão. Se não fosse cristão, as chicotadas não doeriam tanto. O abutre arranca o olho do ladrão. Isso é violência despropositada? Não. Isso é barbárie. Isso é o quão grotesco um ser humano pode ser em suas ações, a ponto de criar uma situação em que aquilo pode acontecer. Notem como é ridículo e deprimente o soldado romano tentando espantar o abutre com uma vara. As reações dos personagens são exageradas? Eles sofrem demais, como no caso de Judas tendo alucinações e se matando ao lado de um animal putrefato? Para uma pessoa qualquer, pode parecer que sim. Mas, para um cristão, aquele é o sentimento de remorso proporcional ao pecado cometido, o maior de todos, entregar o filho de Deus à morte. Foi ali que Judas se redimiu. Ali onde um ateu só vê despropósito está a legítima mensagem divina que o filme fez questão de defender com unhas e dentes.

Percebem a sutileza? Está aí. E também na simbologia que perpassa todo o filme. Quando a câmera filma de trás a cruz sendo levada e fecha no braço de Jesus cruzado com o do judeu que o ajudava a carregá-la, só um imbecil não percebe que aquilo é redenção e amizade entre dois povos. O filme não defende abertamente a aliança entre judeus e cristãos. Talvez por isso tenha sido acusado de anti-semita, já que “respeitar outras culturas” hoje em dia é venerá-las a qualquer preço. Venerar a aliança com os judeus, no caso deste filme, seria desrespeitar a verdade histórica, já que, naquele momento, os judeus (ou ao menos seus líderes) queriam era ver Jesus morto, pois ele era um herege para eles. E aqui eu reafirmo a sutileza do filme: como não seria honesto fazer apologia dos judeus, recorreu-se a cenas simbólicas, como a dos braços se cruzando, entre outras.

O filme incomoda porque seu método de abordagem histórica não é científico, no sentido moderno. Ele não é neutro e hipócrita, não finge que está tudo bem, não é mais um acadêmico “olhar sobre os fatos”. Ele é um filme que mostra a religião desde dentro. Ser cristão é, por exemplo, não achar normal o homossexualismo e vê-lo como símbolo da sedução do pecado. Tolerância, de que tanto falam hoje em dia, mas que ninguém sabe o que é, é isso: não poder aceitar uma coisa e mesmo assim tolerá-la, e até amá-la, mas nunca praticá-la. É nesse sentido que os cristãos toleram e amam o homossexualismo. E sabe qual é a recompensa que têm? A mesma de que fala Jesus no filme: a violência, o açoite e a incompreensão dos inimigos. E o mesmo acontece com todas as affirmative actions. Quanto mais tolerância recebem, mais incompreensão e violência retribuem. Isso ocorre porque, na verdade, o que as affirmative actions querem não é tolerância, mas a rendição, a negação das crenças e da tradição. E o filme não se rende à hipocrisia. Talvez seja esse o verdadeiro sentido do amor de Jesus: amar uma coisa não é fingir que ela é normal, mas saber amá-la apesar de ela ser anormal.

Enfim, o principal mérito do filme, bem como o motivo pelo qual foi rechaçado pela mídia bem pensante, é o de deixar bem claro o seguinte. Assim como o cristianismo é uma crença se visto por um ateu, o ateísmo é uma crença se visto por um cristão. E é isso que um ateu não tolera. Ensinaram pra mim que um ateu tolera tudo, que é a figura mais sóbria que pode existir, já que não está tomado por nenhuma crença. Mas a verdade é que ele não tolera ver alguém que leve a religião a sério. E não admite, em última instância, que alguém afirme valores não-ateus (não compreende que, para um crente, a simples expressão “valores ateus” é puro nonsense). Todos os movimentos podem ser afirmativos, desde que sejam ateus. Os demais têm de ser passivos.

Diante de um filme como “A Paixão de Cristo”, um ateu é obrigado a ver que o que aconteceu naquele dia não admite passividade. Ele é obrigado a admitir que a obrigação de todo crente é afirmar a sua fé, bem como todas as implicações morais que dela emanam. E isso deixa o ateu furioso. Não só o ateu, mas também o pseudo-cristão e suas diversas variações, desde o teólogo da libertação até os jornalistas.

Uma das principais carcterísticas do ateísmo é querer falar o que quer sem ouvir o que não quer. E a cada dia que passa o ateísmo faz mais religiões se curvarem diante disso. Mas desta vez o cristianismo não se curvou, e disse o que bem quis. E os ateus devem estar morrendo de medo de isso virar moda.

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