Sobre a Seriedade e a Sutileza Daquilo Que Não se Quer Ouvir

“A Paixão de Cristo”, o filme, não tem quase nenhum problema. Talvez umas duas câmeras lentas a mais do que deveria. Nada que incomode um espírito sensível. “Ouvi” alguém dizer que o aramaico, que se fala no filme, é uma língua feia, que seus sons vêm do baixo ventre etc etc. Mas, considerei o comentário apenas como um triste zumbido de uma mosquinha a dez mil quilômetros de distância. Besta, mesmo. Se o filme fosse em inglês, seria metade do que é.

Sim. É muito bom. E sutil, embora a opinião corrente seja a de que é grosseiro e violento.

Sabe o que incomodou tanta gente nesse filme? O fato de ele ser cristão. Todo mundo está acostumado com a mensagem cristã, mas não enunciada de modo cristão. Todo mundo está acostumado a palavras amenas, ao moralismo suave, que pode ser esquecido poucos minutos depois. Estamos habituados a ouvir alguém falar de Jesus como quem fala de um “cara gente boa” e do cristianismo como quem fala de mais uma manifestação cultural. Então, esperamos sempre ouvir amenidades, observações pseudo-inteligentes para se fazer enquanto se bebe uma taça de vinho numa festa de aniversário, em poucas palavras, filologia de boteco.

Mas, o que aconteceu com Jesus Cristo não foi ameno. Foi uma violência gigantesca. E com isso, acho que todos concordam. Entretanto, o ponto principal é que não foi apenas uma violação dos direitos humanos, ao menos não para um Cristão. E é isso que o filme quer deixar bem claro. É como se o filme dissesse: “Isto aqui não é uma questão de direitos. Isto aqui é um absurdo metafísico”. É por isso que o filme incomoda tanto: porque é sério. Os olhares que os personagens trocam entre si durante o filme inteiro (só um crítico que li falou desses olhares) são bem claros. Eles querem mostrar que aquilo que estava acontecendo ali era muito grave. Tão grave que palavras não poderiam descrever. E como, para nós, homens modernos, ateus, semi-ateus, pseudo-cristãos ou sei lá o quê, a Paixão de Cristo não é mais algo tão grave, é apenas um feriado prolongado ou, no máximo, uns dias de prece na Igreja… Isso se chama pseudo-religiosidade. Estou lendo um livro sobre o Islã, e lá o autor diz que, para o muçulmano, religião é a própria vida. Como conciliar isso com nossas exigências modernas? Difícil, não é? Mas poderíamos ao menos tentar. Seria um começo, literalmente, já que até agora não vi ninguém fazendo isso. De um lado, vejo tradicionalistas dizendo que usar pílula é aborto e tomar cerveja é pecado; de outro, vejo pervertidos querendo matar seus bebês à vontade. O famoso 8 ou 80 de sempre.

Voltando ao assunto, o filme incomoda porque é cristão. Se não fosse cristão, as chicotadas não doeriam tanto. O abutre arranca o olho do ladrão. Isso é violência despropositada? Não. Isso é barbárie. Isso é o quão grotesco um ser humano pode ser em suas ações, a ponto de criar uma situação em que aquilo pode acontecer. Notem como é ridículo e deprimente o soldado romano tentando espantar o abutre com uma vara. As reações dos personagens são exageradas? Eles sofrem demais, como no caso de Judas tendo alucinações e se matando ao lado de um animal putrefato? Para uma pessoa qualquer, pode parecer que sim. Mas, para um cristão, aquele é o sentimento de remorso proporcional ao pecado cometido, o maior de todos, entregar o filho de Deus à morte. Foi ali que Judas se redimiu. Ali onde um ateu só vê despropósito está a legítima mensagem divina que o filme fez questão de defender com unhas e dentes.

Percebem a sutileza? Está aí. E também na simbologia que perpassa todo o filme. Quando a câmera filma de trás a cruz sendo levada e fecha no braço de Jesus cruzado com o do judeu que o ajudava a carregá-la, só um imbecil não percebe que aquilo é redenção e amizade entre dois povos. O filme não defende abertamente a aliança entre judeus e cristãos. Talvez por isso tenha sido acusado de anti-semita, já que “respeitar outras culturas” hoje em dia é venerá-las a qualquer preço. Venerar a aliança com os judeus, no caso deste filme, seria desrespeitar a verdade histórica, já que, naquele momento, os judeus (ou ao menos seus líderes) queriam era ver Jesus morto, pois ele era um herege para eles. E aqui eu reafirmo a sutileza do filme: como não seria honesto fazer apologia dos judeus, recorreu-se a cenas simbólicas, como a dos braços se cruzando, entre outras.

O filme incomoda porque seu método de abordagem histórica não é científico, no sentido moderno. Ele não é neutro e hipócrita, não finge que está tudo bem, não é mais um acadêmico “olhar sobre os fatos”. Ele é um filme que mostra a religião desde dentro. Ser cristão é, por exemplo, não achar normal o homossexualismo e vê-lo como símbolo da sedução do pecado. Tolerância, de que tanto falam hoje em dia, mas que ninguém sabe o que é, é isso: não poder aceitar uma coisa e mesmo assim tolerá-la, e até amá-la, mas nunca praticá-la. É nesse sentido que os cristãos toleram e amam o homossexualismo. E sabe qual é a recompensa que têm? A mesma de que fala Jesus no filme: a violência, o açoite e a incompreensão dos inimigos. E o mesmo acontece com todas as affirmative actions. Quanto mais tolerância recebem, mais incompreensão e violência retribuem. Isso ocorre porque, na verdade, o que as affirmative actions querem não é tolerância, mas a rendição, a negação das crenças e da tradição. E o filme não se rende à hipocrisia. Talvez seja esse o verdadeiro sentido do amor de Jesus: amar uma coisa não é fingir que ela é normal, mas saber amá-la apesar de ela ser anormal.

Enfim, o principal mérito do filme, bem como o motivo pelo qual foi rechaçado pela mídia bem pensante, é o de deixar bem claro o seguinte. Assim como o cristianismo é uma crença se visto por um ateu, o ateísmo é uma crença se visto por um cristão. E é isso que um ateu não tolera. Ensinaram pra mim que um ateu tolera tudo, que é a figura mais sóbria que pode existir, já que não está tomado por nenhuma crença. Mas a verdade é que ele não tolera ver alguém que leve a religião a sério. E não admite, em última instância, que alguém afirme valores não-ateus (não compreende que, para um crente, a simples expressão “valores ateus” é puro nonsense). Todos os movimentos podem ser afirmativos, desde que sejam ateus. Os demais têm de ser passivos.

Diante de um filme como “A Paixão de Cristo”, um ateu é obrigado a ver que o que aconteceu naquele dia não admite passividade. Ele é obrigado a admitir que a obrigação de todo crente é afirmar a sua fé, bem como todas as implicações morais que dela emanam. E isso deixa o ateu furioso. Não só o ateu, mas também o pseudo-cristão e suas diversas variações, desde o teólogo da libertação até os jornalistas.

Uma das principais carcterísticas do ateísmo é querer falar o que quer sem ouvir o que não quer. E a cada dia que passa o ateísmo faz mais religiões se curvarem diante disso. Mas desta vez o cristianismo não se curvou, e disse o que bem quis. E os ateus devem estar morrendo de medo de isso virar moda.

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