Assim eu disse à Dorotéia

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Minha tartaruga Dorotéia Genoveva já me disse que está comigo em tudo que eu decidir. Entretanto, também já me disse que a agitação da cidade grande não é pra ela. A coitadinha prefere o silêncio e a tranquilidade de Belo Horizonte às ambulâncias de São Paulo, aos ônibus, aos caminhões sinistros que furam o silêncio da madrugada em direção aos buracos que escondem gasodutos. Mas sei que ela reclama de barriga cheia. Sua vida é muito fácil. Sempre esteve ali, em cima do monitor, sorrindo descabelada. Tudo bem que ela tem que aturar a minha cara por mais tempo do que desejaria. Mas, eu também tenho que aturar a dela. E confesso que às vezes fica difícil me concentrar em minhas leituras eletrônicas, diante de tão insólita figura.

Acabo de voltar da roça grande e não levei minha pobre e nostálgica amiga. Saí de viagem e a deixei aqui, com a poeira e a poluição, imóvel sobre o monitor. Em compensação, levamos uma grande conversa na volta. Eu contei a ela minhas impressões adquiridas. Disse a ela que a paz e o relativo isolamento do mundo, de que gozei esses dias em que lá estive, fizeram-me pensar uma ou duas coisas sobre gastar muito tempo on-line. Tive tempo de ler longe de um computador. Depois de muito tempo, abri e fechei um livro longe de um computador e gostei daquilo. Ler livros em frente ao computador tem lá suas vantagens (dicionários, pesquisas bibliográficas, checagem de termos). Mas, a relação literária parece mais autêntica sem esse barulhinho de HDs e coolers por perto, e sem essa emanação de elétrons da tela. Dorotéia logo se preocupou, assustada com a possibilidade de eu me distanciar do monitor e, logo, dela. Eu disse a ela que não tem com que se preocupar, já que minha maneira de vencer os problemas é na base da força de vontade. Vou me esforçar para não olhar e-mails enquanto leio, para não ficar passeando na Web sempre que virar a terceira página, enfim, não interromper a leitura com atividades eletrônicas. Vou reconstruir a relação literária, quer o computador e meus vícios gostem ou não. E um dia, quem sabe, comprarei um computador mais silencioso. Este aqui faz um barulho dos infernos.

E Dorotéia agora está mais feliz, inclusive por causa da perspectiva de repousar sobre um novo monitor, ainda que a longo prazo.

Ainda não contei nada a ela sobre o Islã ou sobre o Perfeito Idiota Latinoamericano. Essas coisas são muito fortes para o seu pobre coraçãozinho, tadinha.

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