Memorial da América Latrina

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Domingo passado fui pela primeira vez ao Memorial da América Latina. Terminei de ver as peças da Bienal de Design Gráfico e perguntei ao funcionário onde era o banheiro. “Lá”, disse ele, apontando para fora do pequeno prédio circular. Depois de andar uns 300 metros por um enorme chão de concreto velho e manchado, o sol cascando na careca, cheguei a um recinto que os funcionários públicos costumam chamar de banheiro: um conjunto de vasos sanitários encardidos e ensopados de mijo, dispostos sobre um chão de granilito (por que sempre granilito?) imundo. Nada de papel, obviamente, nem sabonete nem toalha nem trancas nas portas nem nada, apenas sujeira e um cheiro forte, acre, de mijo (agradeci aos céus que por ali não tinha passado nenhum ser necessitado de coisas mais, digamos, sólidas).

Voltei e fomos procurar algo para comer. Nada havia, além de barraquinhas azuis de rua, onde se vendiam isoporzitos da Elma Chips e otras cositas ainda menos recomendáveis.

Por todo o lugar, não havia propriamente um lugar (estou acostumado com isso, pois nasci e cresci em Brasília, o maior não-lugar que conheço). Entre os prédios, que não passam de prismas de formas geométricas básicas (círculos, quadrados, retângulos, cones etc), muito, muito espaço vazio, o chão coberto por placas de concreto muito velhas e manchadas.

Uma maravilhosa reprodução escultórica de uma mão ensangüentada dava o propósito do lugar. A seu pé, estava escrito: “O sentimento da unidade latino-americana é o limiar de um novo tempo. O esforço de organização para eliminar a opressão dos poderosos e constru[ir] um destino maior e mais justo é o compromisso solene de todos nós”. Note que tive de reconstruir um fragmento, como os primeiros filólogos fizeram com os escritos de Platão, de Aristóteles e dos pré-socráticos!

Minha mulher observou que um memorial da América Latrina não podia ser mais coerente: nada de comida boa, nada de banheiro limpo, paisagem desoladora e decadente, jovenzinhos descolados por toda parte.

E eu completei: anti-imperialismo neurótico.