Silas farto de tudo

Embora lhe aprouvesse estar gripado em vez de trabalhando, a falta de controle sobre os espirros lhe deixava buzina da vida. Silas era um sujeito que gostava de ter as coisas sob controle – e quem não gosta? -, motivo pelo qual a gripe lhe vinha como uma desgraça infinita. Cada espirro anunciador do que sucederia nos próximos dias era um prenúncio do caos que se alojaria em seu próprio corpo por três ou quatro jornadas eternas, durante o curso das quais os olhos verteriam lágrimas sem propósito emocional, as narinas expeliriam uma gosma inútil, e o corpo ficaria dasanimado e desgostoso como um rei em terra de cegos. A previsão para as horas vindouras, portanto, não sendo nada animadora, reforçou em Silas a vontade de permanecer imóvel na poltrona, ou melhor, a falta de vontade de se levantar. E à medida que assistia ao noticiário do dia por meio de seus olhos, seu espírito ia gradualmente dando adeus a qualquer tipo de vontade relativa ao mundo, abraçando um sentimento cada vez mais ensurdecedor de alheamento esotérico.

Quando a TV anunciou o décimo acontecimento importantíssimo do dia, cujos participantes eram os três ou quatro políticos genéricos de sempre, Silas sentiu um asco interior como nunca havia sentido antes e viu finalmente cumprida a promessa de Marx: o mundo havia mudado enfim. Ao menos para ele.

Silas, num giro ao mesmo tempo solipsista e exotérico com xis, se transformara num genuíno sapo barbudo (um sem estrelinha vermelha no peito).

Mais um trecho de e-mail

As famílias que ainda se mantêm, o fazem porque ainda guardam certos valores vindos da religião. Meu pai é ateu, mas já foi coroinha de igreja. E a moral dele é totalmente cristã. Por isso, nossa família é unida e meus pais me ajudam até hoje, e nunca se separaram. Nós temos uma noção fortíssima do que é certo e do que é errado, e sempre ajudamos uns aos outros, unidos, por causa disso, apesar de não sermos religiosos. Mas, com o passar das gerações, a herança moral de uma família, se seus membros continuam ateus, vai ficando pra trás, vai ficando fraca. Um de meus irmãos, por exemplo, pode ser ainda mais ateu que meu pai e, portanto, já não transmitirá valores tão fortes aos seus filhos, se vier a tê-los. Aí as pessoas começam a se sentir jogadas no mundo, porque não há mais motivação de compromissos de qualquer tipo. O pai não tem compromisso de criar e apoiar o filho, e este não tem compromisso de qualquer tipo em relação ao pai. Mas, se não há compromisso, também há tem ajuda mútua, exceto casual e incerta. E o carinho e o amor também viram manifestação superficial, em vez de sentimentos fortes e profundos como eram antes. Então, as pessoas buscam os psicólogos. Só que os psicólogos já fundaram suas próprias teorias em bases equivocadas como as delas.

Gustavo Corção, em um livro que estou lendo (“O desconcerto do mundo”), fala da psicologia de Alfred Adler (aquele outro discípulo-dissidente de Freud, sem ser o Jung). Ele resume a base dessa psicologia em uma frase do próprio Adler: “Ser homem é sentir-se inferior, e desejar valorizar-se”. Isso é bem conhecido. Heidegger e os existencialistas, tão estimados hoje, também definiam o homem por um sentimento de falta, de estar “jogado no mundo”, uma falta de sentido, um vazio (“O Ser e o Nada”). Mas veja que interessante o que o Corção fala:

“Antes de qualquer consideração, vale a pena assinalar a esquisita metafísica, que bem se explica pela infiltração nominalista até os vasos capilares de nossa civilização, e que define o ser por uma coisa que lhe falta, por uma nota essencial negativa! Como é possível isto sem gracejo? Poderei dizer que o homem é o animal que não voa? Que o sal é um produto químico sem doçura? (…) Em vez de dar ao sentimento de inferioridade um valor universal de diferença específica ou de próprio, darei o simples valor de acidente predicável. Refere-se mais à condição humana, à relação homem-mundo ou homem-vida, mais ao estar, em suma, do que ao ser”.

Treinação

Eu sinto isso: escrever num blog é treinação: treinar pra nada. Nem conto, nem artigo, nem ensaio, nem romance, nem poema. Nada. E ao mesmo tempo, alguma coisa. A única solução por hora encontrada é lançar em livro uma coletânea de posts. Da falta de um gênero façamos um novo? Fulano de Tal nasceu em 1975, na cidade de Brasília, e destacou-se por ter escrito as seguintes antologias de posts: “01/01/2002 a 01/12/2002” (2002), “01/01/2003 a 01/12/2003” (2003), “01/01/2004 a 01/12/2004” (2004) (…) Morreu em 12 de outubro de 20**, tendo ganhado o Prêmio Nobel de Blogoratura em 2030, o prêmio Jabuti da Blogosfera em 2040 (…).

Hmm. Sei não. Divertido é. Mas uma voz interior (Jurandir? Mestre Ioda?) continua me dizendo:

– Fuééé!

Rumores de Algures

O que é isto que ouço? Um gemido vindo do outro lado do universo? Jurandir a bradar absurdidades sobre o vazio da existência? Uma ambulância lancinante e próxima como o dia de amanhã, incomodando mil seres para dar auxílio a um?

Neste mundo nada encontro que aplaque a aflição momentânea, nem mesmo no virtual ambiente conectado. Confiro os e-mails: spams, forwards e um “Srs. Condôminos…” Ninguém se comunica, em suma; só arranhões, arremedos de troca. O outro se esconde enquanto se mostra.

Mas o que é isto que ouço? Sim! É Jurandir, definitivamente. O ET errante, caixeiro imaginário, vendedor de enciclopédias cósmico a visitar outros mundos e fundos, manda-me um sinal lá bem de longe, um signo de que algo existe para além da minha substância. O sinal diz assim, ó:

– Fuééé!

O chá e o motoboy

Lá de longe vem o som de um motoboy subindo a Teodoro. A encomenda-relâmpago em forma de homem-biciclo não rompe a barreira do som nem que a vaca tussa. Prefere passar por dentro do meu chá, qual trovão, tufão, mensageiro da pressa do mundo, arauto das barulhentas notícias nem boas nem ruins, e continuar seu caminho resoluto, sem escalas, conexões, sinais vermelhos, até sumir no infinito da décima esquina de cima. Já já vem outro. Melhor terminar logo meu chá.

Trecho de um e-mail a um amigo

Já leste “Lições de Abismo”, do Corção? Acabo de terminá-lo e estou em êxtase. Minha outra leitura – “The history of Rasselas”, de Samuel Johnson – também está me deixando fascinado. A cada dia que passa, encontro a qualidade literária em pessoas mais e mais “antigas” (tanto literal como metaforicamente!). Acho que o melhor a se fazer é passar a vida lendo o que se escreveu antes do século XX. E do século XX aproveitam-se os escritos daqueles que fizeram isso, ou seja, passaram a vida a ler o que se produziu antes do século XX.

Mulher!

O passado imaginário da humanidade, que se assenta na cabecinha do xerox genérico de ser humano com quem eu converso diariamente, está povoado de homens maus que batem em mulheres. Não havia nenhum homem bom na face da Terra antes de 1968. Talvez houvesse algum sujeito extremamente bondoso e compreensível a ponto de não bater em sua esposa, de não oprimí-la, mas este indivíduo quase lendário, de quem ouvimos falar em contos de fadas feministas, não passa da famosa ECR (Exceção que Confirma a Regra). Em geral, os homens pré-revolução-feminista são uns monstros insensíveis, opressores, que viviam no bem-bom, enquanto suas pobres esposas se matavam de trabalhar para garantir-lhes as mordomias. A condição da mulher, desde tempos imemoráveis, era absurda, medieval (sim, agora essa palavra é um adjetivo). Ser homem sempre foi uma maravilha. Ser mulher, uma porcaria. E o MMM (Maravilhoso Mundo Moderno) livrou a mulher de sua opressão.

Mas, falo eu de homens bons? Que mancada? A mulher que dependia de um homem bom para ser feliz já era, a rigor, uma coitada. Os homens, sempre independentes, eram felizes, sempre foram felizes à revelia de qualquer coisa. Já as mulheres, não. Dependiam da sorte. Se tivessem a sorte de lhes cruzar o caminho um bom homem, então eram felizes. Senão, não.

Tudo o que uma mulher fizesse para atormentar um homem, até 1968, era compreensível a partir de sua situação de oprimida. Pensando bem, ainda é assim. E sempre vai ser?

E hoje? Bem, hoje a maravilha de nossa sorte, a felicidade absoluta da mulher e do homem é o isolamento. Posso chamar de libertação insular. Para ser livre, o indivíduo vira uma ilha, faz com que sua felicidade não dependa de ninguém. O homem não oprime a mulher, porque a mulher agora é um objeto frenético solto no ar, empapuçado de graxa para escorregar pelas mãos opressoras. Mas, as mãos que oprimem são as mesmas que dão carinho. Não é assim que funciona em ambas as direções? O que escapa à opressão também escapa ao afeto, pois ambas as coisas têm a ver com a entrega, a submissão. Pra piorar, a opressão encontra seus caminhos alternativos. Na verdade, se fortalece, pois agora é de mão dupla. Mais um poder se instalou na morada do ser humano. Mulher agora pode ser homem, e vice-versa. A opressão agora é de mão dupla. Se antes a mulher na sociedade era Jesus na Terra (embora custe-me crer que assim fosse de fato), que só padece e não revida, agora não mais.

Batam palmas, pois mais um diabinho nasceu! Mulher, bem-vinda ao campo de batalha. Pegue o escudo, a lança e vista a armadura. No final, se sobrar um tempinho, ainda pode passar um perfuminho, mas bem pouco, viu?

Jurandir, o ET de Varginha (devaneios sobre uma piada ruim)

No meio das cercas endinheiradas que separam quintais, assentou a sombra sonora de um disco voador. Foi mais ou menos assim. Jurandir pousou no dia 20 de setembro de 1998, em Varginha, MG. O disco pifou e desceu dos céus, fumaça saía do capô, água espirrava, cheiro de carburador, aquelas coisas. Tinha que consertar, só não sabia como. E pousou assim mesmo.

Sem muito barulho, discretamente, os pés da vácuonave tocaram a grama, esmagando umas duas ou três formigas. Naquele exato momento, algumas dezenas de milhares de micróbios inéditos alcançaram o chão da fazenda do Dotô asterisco-asterisco-asterisco, enturmando-se rapidamente com o ecossistema local. Do outro lado da galáxia, etêzinhos enfezados perdiam contato com Jurandir – liberdade?

As vacas viram quando aquele ser verde apareceu do outro lado da porta, os grandes olhos sem pálpebras, pretos, qual bolas de gude gigantes e de propósito diverso. Não obstante, continuaram a pastar indiferentes.

As bolas de gude olharam em volta e nada viram, além, é claro, das supracitadas vacas. Jurandir então foi ter com elas. Tentou estabelecer relação com elas, inutilmente. Então prosseguiu sua jornada, não sem antes trancar o disco – “sou ET, mas não sou mané”, podia-se adivinhar em seus pensamentos. A caminho da cidade, Jura encontrou uma bananeira e colheu dela uma banana. Oh, não diga! Sim. Uma banana. E sem saber o que fazer com aquele objeto, meteu-o no ouvido. Lá chegando, em Varginha, subiu num ônibus e pôs-se a mendigar ajuda: “Eeeu não tenho o que comê, eeeu não tenho que bebê, eeeu não tenho onde durmí, eeeu queria pedir uma ajudinha pra consertá o disco voadô que estragô, se ocêis puderem me ajudar, qualquer coisa serve!” Lá de trás, a voz: “Vai trabalhar, vagabundo!” Jurandir então disse “Hã? Dá pra falar mais alto? que eu estou com uma banana no ouvido”.

*****

Ó Jurandir, estranho verde dos campos mineiros, grande homem-orelhas das negras órbitas oculares, teus problemas tão mesquinhos não chegaram a comover nem mesmo um passageiro de ônibus. Ó Jurandir, que será de ti agora? Como galgarás os céus, rumo ao azul-depois-preto vazio que abriga os volumes?

Um dia te encontrarei, ó Jura! e então serei teu guia. Por entre oficinas sujas de fuligem, abriremos nosso caminho cósmico e alcançaremos altitudes tão elevadas que nem serão mais qualificadas como altura, ou qualquer outro tipo de especificação espacial, reles adjetivação dependente de referenciais terrestres. Não! Seremos pós-espaciais, pós-aéreos, pós-modernos, pós-de-arroz no meio desta e de muitas outras galáxias. As estrelas serão paisagem para tuas bolas de gude e em algum dos planetas exóticos que encontraremos construirei uma casa e constituirei família, despedindo-me de ti após anos-luz de errância alegre. Da varanda limpa, sentado na rede, verei teu disco ao longe sumir, não mais que um ponto e depois nada, e beijarei minha amada ao som dos rouxinóis-de-plutão-3 e das galinhas d’ômega. Consolar-me-ei da tua ausência com a fragrância doce dos jasmins-da-Terra, única reminiscência concreta de meu planeta-natal, triste saudade que guardarei no fundo de minh’alma, como quem guarda uma lágrima congelada e descongelada no microondas. Todos os dias, ó Jura, rezarei para ti mil padres nossos e mil ave marias, ao som de cascatas amarelas e de ovos de codorna-y a se quebrarem na relva. E a lembrança da Terra será menos que fuligem, menos que oficina, menos que vacas indiferentes a pastar micróbios inéditos.

A lembrança da Terra será um sol, um céu azul e milhares de corpos andando pra lá e pra cá, em busca de motivos.

Trocadilhologia

Creio ter descoberto o segredo da semiótica, ou melhor, em que consiste essa espécie de ser humano, o semiótico. O semiótico é o sujeito que, certo dia, ao vislumbrar nas palavras aquela curiosa característica de serem passíveis de formar trocadilhos, viu nisso um grande ímpeto metafísico por parte de um deus chamado Nada. E resolveu (o sujeito, não o deus) então dedicar toda a sua vida a explorar todos os aspectos possíveis desse fenômeno, o trocadilho, também conhecido como problemática polissêmica e mil outros qualificativos cool em universitês. Pode-se fazer isso teoricamente ou, na prática, através da produção de textinhos que trocam o sentido das palavras ou brincam com eles, como os poeminhas de Arnaldo Antunes e os videozinhos descolados de mil videomakers. Segundo uma antiga música do Cassseta & Planeta, “eu faço vídeo… vagabundo é a puta que o pariu!”

É claro que, se você disser tudo isso a um deles, ele dirá que não é assim, que trocadilho é uma maneira simplista e até ridícula de descrever a polissemia e o caráter eminentemente convencional das palavras, bem como sua incapacidade para descrever “o real”. But, you know, that’s the point!. Se eles não dissessem isso, não seriam cientistas, mas apenas versões mais sofisticadas daquele seu avô do interior, que gostava de proferir trocadilhos infames quando faltava assunto.

E agora?

Sabe o que eu aprendi de uns tempos pra cá? Aprendi que uma das melhores maneiras de medir a qualidade de um autor é, depois de lê-lo, olhar para mim mesmo e perguntar: e agora? Pois é. Se não houver resposta, o sujeito é bom. Ele diz algo, você lê. Tudo faz sentido, a argumentação é perfeita, não há brechas, não há como refutar. E, pra piorar, pode ser que o diagnóstico do problema abordado seja trágico, e você é obrigado a aceitá-lo. Não é nem questão de concordar. É aceitar – mesmo que se discorde – por simples e total ausência de contra-argumento.

Este é o bom autor. O autor que dá trabalho para o leitor. É o autor que ninguém quer hoje em dia, porque todo mundo crê que existem explicações fáceis e que no final vai ficar tudo bem. Não! Pode ser que não fique tudo bem. E pior: pode ser que o problema nem seja aquele que você achava que era. E, mesmo que você descubra o problema, pode ser que você saiba tão pouco sobre ele, que chegue a pensar que não há solução, ou que há solução.

O bom autor, enfim, é aquele que não pensa em termos de solução. O problema é que a maioria das pessoas tem uma dificuldade infinita de se libertar do pensamento solucionático. Isso ocorre por motivos diversos, e é conveniente a muitos indivíduos, os donos do conhecimento. Portanto, vemos a propaganda intelectual da sociologia, da psicologia e de todas as ciências – o cientificismo: todos esses pequenos pseudo-universos, que nos envolvem e nos fazem pensar que o mundo pode ser explicado dentro de um campo de estudos bem específico e delimitado. E, como isso é impossível, temos de pensar uma coisa e viver outra. 99% dos seres humanos hoje fazem isso: pensam uma coisa e vivem outra, são zumbis intelectuais. Experimente ser coerente com aquilo que você pensa, durante algumas horas que seja. Ninguém faz isso. Saio pelas ruas e vejo jornalistas discutindo a pobreza e a opressão social sentados em uma pizzaria onde a pizza individual custa 28 reais. Tive um professor de filosofia medieval, que fazia o tipo meio ermitão meio anti-capitalista, e um dia o vi entrar em sua Palio Weekend Adventure Off-Road Não Sei O Que Lá Mais e tive vontade de rir. Vejo menininhas de 23 anos escrevendo na Veja – depois de fazerem o Curso Abril de Jornalismo – sobre temas como “A Igreja Católica” ou “O Islamismo Hoje”, sem nunca terem lido jornais em inglês.

Bem, acho que já estou digredindo demais, não é mesmo? Eu só queria mesmo era mostrar este trecho:

“O coletivismo de que morre o mundo, e de que vivem os novos aventureiros, é a teoria do ajuntamento sem unidade; é a tentativa de encontrar significado na multidão, já que não se consegue descobrir o significado de cada um; é a conspiração dos que se ignoram; a união dos que se isolam; a sociabilidade firmada nos mal-entendidos; o lugar geométrico dos equívocos.

Os homens que perderam o segredo da alma ora se isolam, ora se aglomeram. A história do homem é uma dança em compasso binário. O erro é um pêndulo. E assim o mundo vai trilhando seu sinuoso delírio. Enquanto dura um certo contentamento do egoísmo, os homens conseguem viver numa esportiva competição (lei da oferta e da procura, cada um por si e Deus por todos), dividindo a sociedade em compartimentos estanques (amigos amigos, negócios à parte), e chegam a formular, e a viver, uma doutrina do individualismo apenas temperada, na inevitável convivência, por um acordo extrínseco, por um contrato social. Quando porém se esgota a euforia dessa espécie de atomização social, e nas almas pesa a solidão, correm todos a se amontoar, a encher as praças públicas levantando ora o braço direito, ora o esquerdo, em sinal de congraçamento; e no morno contato dos ombros, dos peitos, das nádegas, no tépido aconchego de curral, os homens coletivos sorriem reconfortados, com um sorriso de rua, felizes de terem escapado, por um triz! do pesadelo horrível de terem almas. Falam então de solidariedade humana, isto é, do sentimento de estarem colados uns aos outros, pelos ombros, pelos peitos, pelas nádegas.

Qual dos dois será pior? O egoísmo que se isola ou o egoísmo que se congrega? É difícil decidir. Será pior aquele de que o mundo se cansou; será melhor aquele de cujos incômodos o mundo se esqueceu. E assim vamos, como o viajante sem cabina, que passa a noite na ponta escassa de um banco a jogar com sua anatomia, a mudar de posição, encontrando um fugaz alívio nas mesmas atitudes que já lhe deram cãimbras. E assim vamos, de contorção em contorção, de alívio em alívio, e o que ainda é pior, de entusiasmo em entusiasmo”.

[Gustavo Corção, Lições de Abismo, São Paulo, Círculo do Livro, 1976]