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Archive for June, 2004

Embora lhe aprouvesse estar gripado em vez de trabalhando, a falta de controle sobre os espirros lhe deixava buzina da vida. Silas era um sujeito que gostava de ter as coisas sob controle – e quem não gosta? -, motivo pelo qual a gripe lhe vinha como uma desgraça infinita. Cada espirro anunciador do que sucederia nos próximos dias era um prenúncio do caos que se alojaria em seu próprio corpo por três ou quatro jornadas eternas, durante o curso das quais os olhos verteriam lágrimas sem propósito emocional, as narinas expeliriam uma gosma inútil, e o corpo ficaria dasanimado e desgostoso como um rei em terra de cegos. A previsão para as horas vindouras, portanto, não sendo nada animadora, reforçou em Silas a vontade de permanecer imóvel na poltrona, ou melhor, a falta de vontade de se levantar. E à medida que assistia ao noticiário do dia por meio de seus olhos, seu espírito ia gradualmente dando adeus a qualquer tipo de vontade relativa ao mundo, abraçando um sentimento cada vez mais ensurdecedor de alheamento esotérico.

Quando a TV anunciou o décimo acontecimento importantíssimo do dia, cujos participantes eram os três ou quatro políticos genéricos de sempre, Silas sentiu um asco interior como nunca havia sentido antes e viu finalmente cumprida a promessa de Marx: o mundo havia mudado enfim. Ao menos para ele.

Silas, num giro ao mesmo tempo solipsista e exotérico com xis, se transformara num genuíno sapo barbudo (um sem estrelinha vermelha no peito).

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As famílias que ainda se mantêm, o fazem porque ainda guardam certos valores vindos da religião. Meu pai é ateu, mas já foi coroinha de igreja. E a moral dele é totalmente cristã. Por isso, nossa família é unida e meus pais me ajudam até hoje, e nunca se separaram. Nós temos uma noção fortíssima do que é certo e do que é errado, e sempre ajudamos uns aos outros, unidos, por causa disso, apesar de não sermos religiosos. Mas, com o passar das gerações, a herança moral de uma família, se seus membros continuam ateus, vai ficando pra trás, vai ficando fraca. Um de meus irmãos, por exemplo, pode ser ainda mais ateu que meu pai e, portanto, já não transmitirá valores tão fortes aos seus filhos, se vier a tê-los. Aí as pessoas começam a se sentir jogadas no mundo, porque não há mais motivação de compromissos de qualquer tipo. O pai não tem compromisso de criar e apoiar o filho, e este não tem compromisso de qualquer tipo em relação ao pai. Mas, se não há compromisso, também há tem ajuda mútua, exceto casual e incerta. E o carinho e o amor também viram manifestação superficial, em vez de sentimentos fortes e profundos como eram antes. Então, as pessoas buscam os psicólogos. Só que os psicólogos já fundaram suas próprias teorias em bases equivocadas como as delas.

Gustavo Corção, em um livro que estou lendo (“O desconcerto do mundo”), fala da psicologia de Alfred Adler (aquele outro discípulo-dissidente de Freud, sem ser o Jung). Ele resume a base dessa psicologia em uma frase do próprio Adler: “Ser homem é sentir-se inferior, e desejar valorizar-se”. Isso é bem conhecido. Heidegger e os existencialistas, tão estimados hoje, também definiam o homem por um sentimento de falta, de estar “jogado no mundo”, uma falta de sentido, um vazio (“O Ser e o Nada”). Mas veja que interessante o que o Corção fala:

“Antes de qualquer consideração, vale a pena assinalar a esquisita metafísica, que bem se explica pela infiltração nominalista até os vasos capilares de nossa civilização, e que define o ser por uma coisa que lhe falta, por uma nota essencial negativa! Como é possível isto sem gracejo? Poderei dizer que o homem é o animal que não voa? Que o sal é um produto químico sem doçura? (…) Em vez de dar ao sentimento de inferioridade um valor universal de diferença específica ou de próprio, darei o simples valor de acidente predicável. Refere-se mais à condição humana, à relação homem-mundo ou homem-vida, mais ao estar, em suma, do que ao ser”.

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Treinação

Eu sinto isso: escrever num blog é treinação: treinar pra nada. Nem conto, nem artigo, nem ensaio, nem romance, nem poema. Nada. E ao mesmo tempo, alguma coisa. A única solução por hora encontrada é lançar em livro uma coletânea de posts. Da falta de um gênero façamos um novo? Fulano de Tal nasceu em 1975, na cidade de Brasília, e destacou-se por ter escrito as seguintes antologias de posts: “01/01/2002 a 01/12/2002” (2002), “01/01/2003 a 01/12/2003” (2003), “01/01/2004 a 01/12/2004” (2004) (…) Morreu em 12 de outubro de 20**, tendo ganhado o Prêmio Nobel de Blogoratura em 2030, o prêmio Jabuti da Blogosfera em 2040 (…).

Hmm. Sei não. Divertido é. Mas uma voz interior (Jurandir? Mestre Ioda?) continua me dizendo:

– Fuééé!

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O que é isto que ouço? Um gemido vindo do outro lado do universo? Jurandir a bradar absurdidades sobre o vazio da existência? Uma ambulância lancinante e próxima como o dia de amanhã, incomodando mil seres para dar auxílio a um?

Neste mundo nada encontro que aplaque a aflição momentânea, nem mesmo no virtual ambiente conectado. Confiro os e-mails: spams, forwards e um “Srs. Condôminos…” Ninguém se comunica, em suma; só arranhões, arremedos de troca. O outro se esconde enquanto se mostra.

Mas o que é isto que ouço? Sim! É Jurandir, definitivamente. O ET errante, caixeiro imaginário, vendedor de enciclopédias cósmico a visitar outros mundos e fundos, manda-me um sinal lá bem de longe, um signo de que algo existe para além da minha substância. O sinal diz assim, ó:

– Fuééé!

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Lá de longe vem o som de um motoboy subindo a Teodoro. A encomenda-relâmpago em forma de homem-biciclo não rompe a barreira do som nem que a vaca tussa. Prefere passar por dentro do meu chá, qual trovão, tufão, mensageiro da pressa do mundo, arauto das barulhentas notícias nem boas nem ruins, e continuar seu caminho resoluto, sem escalas, conexões, sinais vermelhos, até sumir no infinito da décima esquina de cima. Já já vem outro. Melhor terminar logo meu chá.

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Já leste “Lições de Abismo”, do Corção? Acabo de terminá-lo e estou em êxtase. Minha outra leitura – “The history of Rasselas”, de Samuel Johnson – também está me deixando fascinado. A cada dia que passa, encontro a qualidade literária em pessoas mais e mais “antigas” (tanto literal como metaforicamente!). Acho que o melhor a se fazer é passar a vida lendo o que se escreveu antes do século XX. E do século XX aproveitam-se os escritos daqueles que fizeram isso, ou seja, passaram a vida a ler o que se produziu antes do século XX.

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Mulher!

O passado imaginário da humanidade, que se assenta na cabecinha do xerox genérico de ser humano com quem eu converso diariamente, está povoado de homens maus que batem em mulheres. Não havia nenhum homem bom na face da Terra antes de 1968. Talvez houvesse algum sujeito extremamente bondoso e compreensível a ponto de não bater em sua esposa, de não oprimí-la, mas este indivíduo quase lendário, de quem ouvimos falar em contos de fadas feministas, não passa da famosa ECR (Exceção que Confirma a Regra). Em geral, os homens pré-revolução-feminista são uns monstros insensíveis, opressores, que viviam no bem-bom, enquanto suas pobres esposas se matavam de trabalhar para garantir-lhes as mordomias. A condição da mulher, desde tempos imemoráveis, era absurda, medieval (sim, agora essa palavra é um adjetivo). Ser homem sempre foi uma maravilha. Ser mulher, uma porcaria. E o MMM (Maravilhoso Mundo Moderno) livrou a mulher de sua opressão.

Mas, falo eu de homens bons? Que mancada? A mulher que dependia de um homem bom para ser feliz já era, a rigor, uma coitada. Os homens, sempre independentes, eram felizes, sempre foram felizes à revelia de qualquer coisa. Já as mulheres, não. Dependiam da sorte. Se tivessem a sorte de lhes cruzar o caminho um bom homem, então eram felizes. Senão, não.

Tudo o que uma mulher fizesse para atormentar um homem, até 1968, era compreensível a partir de sua situação de oprimida. Pensando bem, ainda é assim. E sempre vai ser?

E hoje? Bem, hoje a maravilha de nossa sorte, a felicidade absoluta da mulher e do homem é o isolamento. Posso chamar de libertação insular. Para ser livre, o indivíduo vira uma ilha, faz com que sua felicidade não dependa de ninguém. O homem não oprime a mulher, porque a mulher agora é um objeto frenético solto no ar, empapuçado de graxa para escorregar pelas mãos opressoras. Mas, as mãos que oprimem são as mesmas que dão carinho. Não é assim que funciona em ambas as direções? O que escapa à opressão também escapa ao afeto, pois ambas as coisas têm a ver com a entrega, a submissão. Pra piorar, a opressão encontra seus caminhos alternativos. Na verdade, se fortalece, pois agora é de mão dupla. Mais um poder se instalou na morada do ser humano. Mulher agora pode ser homem, e vice-versa. A opressão agora é de mão dupla. Se antes a mulher na sociedade era Jesus na Terra (embora custe-me crer que assim fosse de fato), que só padece e não revida, agora não mais.

Batam palmas, pois mais um diabinho nasceu! Mulher, bem-vinda ao campo de batalha. Pegue o escudo, a lança e vista a armadura. No final, se sobrar um tempinho, ainda pode passar um perfuminho, mas bem pouco, viu?

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