Pelo buraco da fechadura, vejo…

Pelo buraco da fechadura, vejo umas coisas. Uns vultos, às vezes, um apagar e acender de luzes, trabalhadores, sons de elevador. Não só vejo, então, mas escuto também. Nada de muito interessante. Há tempos não vejo nada de muito interessante em carne e osso, na minha frente. As coisas interessantes estão lá longe, no tempo e no espaço. Acostumei-me a isso. Elas chegam a mim por meio de imagens, palavras e sons. Meu cérebro as absorve, transmitindo-as ao meu corpo, ao que elas então passam a poder ser chamadas de experiências. Mas são mesmo? O Google vale por um avião? A Livraria Cultura e o sebo Traços e Traças são trens expressos por meio dos quais viajo pelo mundo e falo com as pessoas interessantes?

Se eu fosse um imbecilzinho, agora estaria na hora de lançar a pergunta: “o que são pessoas interessantes?

Mas eu não sou um imbecilzinho. Não vou questionar conceitos só porque é cool. Existem, sim, pessoas interessantes. Mas, a maioria das pessoas não passam de boas companhias, perto das quais não posso sentar o pau no terceiro setor, nem posso dizer que a literatura brasileira é, em geral, uma grande merda, sendo que a parte boa ainda é vendida pelos nossos guruzinhos como crítica sócio-politica historicamente determinada (contra “as elite”). Não posso dizer muitas coisas por aí. Todo mundo é legal, todo mundo acha que tem de respeitar a opinião dos outros como quem respeita Deus. Pois quero deixar bem claro que eu não respeito a opinião dos outros. A opinião dos outros é uma porcaria. Nem chega a ser uma opinião. Se um dia eu escutar uma opinião inteligente, juro que vou respeitar. Se um dia um sujeito ou uma sujeita de carne e osso chegar diante de mim e emitir uma idéia que preste, respeitá-la-ei. Isso se eu já não tiver esquecido o que é respeitar uma idéia de uma pessoa concreta. Ou ao menos respeitar de verdade. Afinal, quando se trata de pessoas de carne e osso na minha frente, aprendi a fingir respeito intelectual. Por favor, não confundam os respeitos. Respeito todo mundo de verdade, como pessoa, mas quase nunca como pessoa opinativa. O Homo opinativus é uma criatura lamentável. Ele late, por exemplo, “odeio o Bush”. E você finge que respeita isso como opinião. Ele diz que o cinema brasileiro tem filmes bons. E você finge que também acha que “Vidas Secas” e “Toda nudez será castigada” e mais meia dúzia de filmes interessantezinhos (os quais ele provavelmente nem viu) salvam todo o resto. Não digo que eu não possa discordar diante dele. Eu posso. Mas, a partir de então, serei apenas um chato. Isso, é claro, partindo-se do pressuposto de que eu serei capaz de refutá-lo facilmente, já que, para refutar um simples aforismo idiota e paradoxal, às vezes é preciso alguns parágrafos. E, você sabe, proferir mais de duas frases consecutivas para alguém, em público, hoje em dia, pode ser mais difícil que ler Aristóteles para um recém-nascido. As pessoas simplesmente não prestam atenção em você por mais de 10 segundos.

Eu sou ranzinza e vivo com raiva de tudo e de todos? Pode ser. Mesmo assim, as pessoas que me conhecem podem confirmar que eu escuto os outros muito mais do que eles me escutam, ou do que costumam escutar-se entre si. Posso não concordar em que o inconsciente seja o rei da cocada preta, que manda em tudo o que a gente faz. Mas posso dizer que já li mais sobre ele do que a maioria das pessoas que abaixam a cabeça para os doutores da cabeça. Inclusive, acho que li o suficiente para saber que está cheio de neuróticos por aí dizendo que todo mundo é neurótico. E o suficiente para saber que o inconsciente existe e nos prega peças mesmo, mas que esse nem de perto chega a ser um dos maiores problemas da humanidade.

Sei que me acham ranzinza quando eu digo que o cinema brasileiro é uma bosta. Mas, garanto que já assisti a mais filmes brasileiros do que muito cinéfilo defensor dos “direitos da categoria”. Algumas pessoas me acham bobo por dar uma chance à religião. Eu os acho bobos por darem uma chance ao cinema brasileiro, ao terceiro setor, ao Lula, às idéias de Marx etc etc. Todas essas coisas já existem há um século ou mais e nunca passaram de quebra-galhos e tolices mesmo. Além disso, nem precisam de uma “chance”. Elas mesmas se dão uma chance há décadas, incansavelmente. Se perserverança fosse sinal de competência e qualidade, o cinema brasileiro seria o melhor do mundo. Só mesmo aqui para insistirem por tanto tempo em fazer uma coisa que ninguém quer ver. Só aqui para essa coisa passar a ser vista por causa da “conscientização do cidadão”, em vez de simplesmente porque é boa. Aqui no Brasil, para que as pessoas passem a achar as coisas boas, é preciso mudar o próprio conceito de bom na cabeça delas. Já que quase nada é bom, mudemos o conceito de bom! Façamos uma releitura da bondade à luz de Nietzche ou Foucault, no seio da sociedade capitalista opressora!

Bem, já falei mal de umas coisas hoje. Por hora é só. Vou sair por aí e ouvir mais bobagens, fazer cara boa e fingir que concordo, para poder sobreviver na imensa floresta das opiniões imbecis hiper-consensuais que me cerca. Isso é o mais próximo de liberdade que conseguimos aqui.

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