Marcadores, ó medíocres marcadores

E os marcadores de livros? esses infelizes servos anônimos da nossa intermitência… Nunca ninguém fala dos marcadores.

Eu falo aqui, mas, estranhamente, não lhes presto tributo algum. Manifesto-me apenas para observar que nunca vi um sequer deles que trouxesse o anúncio de um bom livro. Esses infelizes transportadores nunca trazem qualidade. Anunciam best-sellers, livros de religião barata tipo leonardoboffiana, tratadozinhos marqueteiros de como fazer sucesso, pseudociência de ocasião, comédia besteirol. Sinto-os deslocados entre as páginas que leio, sempre deslocados, invariavelmente, como aquelas mocinhas fúteis da sua sala de faculdade diante de uma conversa sobre o desconcerto do mundo ou sobre o coletivismo imbecilizante e o esvaziamento cultural. Sempre deslocados, como Paulo Coelho diante de Eric Voegelin e Gustavo Corção; como formigas em salinas. E o que dizer dos livros de sebos? Sujos, muito sujos e velhos. E dentro deles o marcador ascéptico, ostentando sua absurda limpeza e berrância de cores, e slogans muito pobres, ridículos exemplos de formação frasal primitiva diante dos períodos invejáveis de um poeta irlandês, ou de um Bilac, ou de um Camões. O novíssimo primitivo dentro do antiqüíssimo avançado; o novo estragado e incompleto (se tanto!) dentro do velho perfeito e bem-acabado; o podre registrado em papel lindo, o lindo registrado em papel podre. Ó tristeza das constatações: a tecnologia desperdiçada.

Advertisements