E agora?

Sabe o que eu aprendi de uns tempos pra cá? Aprendi que uma das melhores maneiras de medir a qualidade de um autor é, depois de lê-lo, olhar para mim mesmo e perguntar: e agora? Pois é. Se não houver resposta, o sujeito é bom. Ele diz algo, você lê. Tudo faz sentido, a argumentação é perfeita, não há brechas, não há como refutar. E, pra piorar, pode ser que o diagnóstico do problema abordado seja trágico, e você é obrigado a aceitá-lo. Não é nem questão de concordar. É aceitar – mesmo que se discorde – por simples e total ausência de contra-argumento.

Este é o bom autor. O autor que dá trabalho para o leitor. É o autor que ninguém quer hoje em dia, porque todo mundo crê que existem explicações fáceis e que no final vai ficar tudo bem. Não! Pode ser que não fique tudo bem. E pior: pode ser que o problema nem seja aquele que você achava que era. E, mesmo que você descubra o problema, pode ser que você saiba tão pouco sobre ele, que chegue a pensar que não há solução, ou que há solução.

O bom autor, enfim, é aquele que não pensa em termos de solução. O problema é que a maioria das pessoas tem uma dificuldade infinita de se libertar do pensamento solucionático. Isso ocorre por motivos diversos, e é conveniente a muitos indivíduos, os donos do conhecimento. Portanto, vemos a propaganda intelectual da sociologia, da psicologia e de todas as ciências – o cientificismo: todos esses pequenos pseudo-universos, que nos envolvem e nos fazem pensar que o mundo pode ser explicado dentro de um campo de estudos bem específico e delimitado. E, como isso é impossível, temos de pensar uma coisa e viver outra. 99% dos seres humanos hoje fazem isso: pensam uma coisa e vivem outra, são zumbis intelectuais. Experimente ser coerente com aquilo que você pensa, durante algumas horas que seja. Ninguém faz isso. Saio pelas ruas e vejo jornalistas discutindo a pobreza e a opressão social sentados em uma pizzaria onde a pizza individual custa 28 reais. Tive um professor de filosofia medieval, que fazia o tipo meio ermitão meio anti-capitalista, e um dia o vi entrar em sua Palio Weekend Adventure Off-Road Não Sei O Que Lá Mais e tive vontade de rir. Vejo menininhas de 23 anos escrevendo na Veja – depois de fazerem o Curso Abril de Jornalismo – sobre temas como “A Igreja Católica” ou “O Islamismo Hoje”, sem nunca terem lido jornais em inglês.

Bem, acho que já estou digredindo demais, não é mesmo? Eu só queria mesmo era mostrar este trecho:

“O coletivismo de que morre o mundo, e de que vivem os novos aventureiros, é a teoria do ajuntamento sem unidade; é a tentativa de encontrar significado na multidão, já que não se consegue descobrir o significado de cada um; é a conspiração dos que se ignoram; a união dos que se isolam; a sociabilidade firmada nos mal-entendidos; o lugar geométrico dos equívocos.

Os homens que perderam o segredo da alma ora se isolam, ora se aglomeram. A história do homem é uma dança em compasso binário. O erro é um pêndulo. E assim o mundo vai trilhando seu sinuoso delírio. Enquanto dura um certo contentamento do egoísmo, os homens conseguem viver numa esportiva competição (lei da oferta e da procura, cada um por si e Deus por todos), dividindo a sociedade em compartimentos estanques (amigos amigos, negócios à parte), e chegam a formular, e a viver, uma doutrina do individualismo apenas temperada, na inevitável convivência, por um acordo extrínseco, por um contrato social. Quando porém se esgota a euforia dessa espécie de atomização social, e nas almas pesa a solidão, correm todos a se amontoar, a encher as praças públicas levantando ora o braço direito, ora o esquerdo, em sinal de congraçamento; e no morno contato dos ombros, dos peitos, das nádegas, no tépido aconchego de curral, os homens coletivos sorriem reconfortados, com um sorriso de rua, felizes de terem escapado, por um triz! do pesadelo horrível de terem almas. Falam então de solidariedade humana, isto é, do sentimento de estarem colados uns aos outros, pelos ombros, pelos peitos, pelas nádegas.

Qual dos dois será pior? O egoísmo que se isola ou o egoísmo que se congrega? É difícil decidir. Será pior aquele de que o mundo se cansou; será melhor aquele de cujos incômodos o mundo se esqueceu. E assim vamos, como o viajante sem cabina, que passa a noite na ponta escassa de um banco a jogar com sua anatomia, a mudar de posição, encontrando um fugaz alívio nas mesmas atitudes que já lhe deram cãimbras. E assim vamos, de contorção em contorção, de alívio em alívio, e o que ainda é pior, de entusiasmo em entusiasmo”.

[Gustavo Corção, Lições de Abismo, São Paulo, Círculo do Livro, 1976]

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