Mais um trecho de e-mail

As famílias que ainda se mantêm, o fazem porque ainda guardam certos valores vindos da religião. Meu pai é ateu, mas já foi coroinha de igreja. E a moral dele é totalmente cristã. Por isso, nossa família é unida e meus pais me ajudam até hoje, e nunca se separaram. Nós temos uma noção fortíssima do que é certo e do que é errado, e sempre ajudamos uns aos outros, unidos, por causa disso, apesar de não sermos religiosos. Mas, com o passar das gerações, a herança moral de uma família, se seus membros continuam ateus, vai ficando pra trás, vai ficando fraca. Um de meus irmãos, por exemplo, pode ser ainda mais ateu que meu pai e, portanto, já não transmitirá valores tão fortes aos seus filhos, se vier a tê-los. Aí as pessoas começam a se sentir jogadas no mundo, porque não há mais motivação de compromissos de qualquer tipo. O pai não tem compromisso de criar e apoiar o filho, e este não tem compromisso de qualquer tipo em relação ao pai. Mas, se não há compromisso, também há tem ajuda mútua, exceto casual e incerta. E o carinho e o amor também viram manifestação superficial, em vez de sentimentos fortes e profundos como eram antes. Então, as pessoas buscam os psicólogos. Só que os psicólogos já fundaram suas próprias teorias em bases equivocadas como as delas.

Gustavo Corção, em um livro que estou lendo (“O desconcerto do mundo”), fala da psicologia de Alfred Adler (aquele outro discípulo-dissidente de Freud, sem ser o Jung). Ele resume a base dessa psicologia em uma frase do próprio Adler: “Ser homem é sentir-se inferior, e desejar valorizar-se”. Isso é bem conhecido. Heidegger e os existencialistas, tão estimados hoje, também definiam o homem por um sentimento de falta, de estar “jogado no mundo”, uma falta de sentido, um vazio (“O Ser e o Nada”). Mas veja que interessante o que o Corção fala:

“Antes de qualquer consideração, vale a pena assinalar a esquisita metafísica, que bem se explica pela infiltração nominalista até os vasos capilares de nossa civilização, e que define o ser por uma coisa que lhe falta, por uma nota essencial negativa! Como é possível isto sem gracejo? Poderei dizer que o homem é o animal que não voa? Que o sal é um produto químico sem doçura? (…) Em vez de dar ao sentimento de inferioridade um valor universal de diferença específica ou de próprio, darei o simples valor de acidente predicável. Refere-se mais à condição humana, à relação homem-mundo ou homem-vida, mais ao estar, em suma, do que ao ser”.

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