Silas farto de tudo

Embora lhe aprouvesse estar gripado em vez de trabalhando, a falta de controle sobre os espirros lhe deixava buzina da vida. Silas era um sujeito que gostava de ter as coisas sob controle – e quem não gosta? -, motivo pelo qual a gripe lhe vinha como uma desgraça infinita. Cada espirro anunciador do que sucederia nos próximos dias era um prenúncio do caos que se alojaria em seu próprio corpo por três ou quatro jornadas eternas, durante o curso das quais os olhos verteriam lágrimas sem propósito emocional, as narinas expeliriam uma gosma inútil, e o corpo ficaria dasanimado e desgostoso como um rei em terra de cegos. A previsão para as horas vindouras, portanto, não sendo nada animadora, reforçou em Silas a vontade de permanecer imóvel na poltrona, ou melhor, a falta de vontade de se levantar. E à medida que assistia ao noticiário do dia por meio de seus olhos, seu espírito ia gradualmente dando adeus a qualquer tipo de vontade relativa ao mundo, abraçando um sentimento cada vez mais ensurdecedor de alheamento esotérico.

Quando a TV anunciou o décimo acontecimento importantíssimo do dia, cujos participantes eram os três ou quatro políticos genéricos de sempre, Silas sentiu um asco interior como nunca havia sentido antes e viu finalmente cumprida a promessa de Marx: o mundo havia mudado enfim. Ao menos para ele.

Silas, num giro ao mesmo tempo solipsista e exotérico com xis, se transformara num genuíno sapo barbudo (um sem estrelinha vermelha no peito).

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