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Archive for July, 2004

Como assim (?)

As rosas desmurcharam quando eu voltei. Não sei como, só sei que aconteceu. Entrei no quarto escuro, uma faixa de sol cortava os tacos, mostrando os buracos do sinteco mal tratado. Olhei em panorâmica o que não era tão grande assim e percebi que o quarto só ficaria grande se eu abrisse a janela.

Grande não ficou, mas as rosas desmurcharam e eu fiquei feliz.

E isso não é uma metáfora. Nem a felicidade é uma metáfora. A felicidade é um tufo de poeira que vai embora com a faxina da casa.

Quando eu varri a casa e os tufos se foram, veio a felicidade. Quando eu varrer a casa e os tufos se forem, virá a felicidade. Quando eu varro a casa e os tufos se vão, vem a felicidade. Deve haver outros tempos verbais em que eu possa conjugar essa frase. Quando eu conhecê-los, usá-los-ei comprazido.

Mas, como estava a dizer, abri a janela e aconteceu a coisa. Depois uns gatos entraram pela janela, umas abelhas melaram o cobre-leito e eu fui comer os patos que nunca teria coragem de matar. Tornei-me um ser humano mal por minutos, a boca lambuzada de molho madeira, a mente entupida de gula.

E o sinteco do quarto continua com buracos, salvo engano meu.

Resumo geral: desmurchei umas rosas, mandei uns tufos às cucuias, conjuguei uns verbos, fiquei mal e tudo continuou como era antes, só que um pouco melhor.

“Como assim?”

“Não. Assim, ó: …”

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Sexta, 23:32, diz o relógio do computador.

À minha direita, uma garrafa de querosene, um mapa do Brasil à esquerda, e uns clips de ferro sem papéis para prender. No meio, este altar luminoso, cheio de ícones e cores, tentando me distrair de mim mesmo. Uma seta quer ser movimentada pela minha mão, sem objetivo, sem rumo, sem função mais dignificante que um “enviar e receber”. Mas a conexão é discada. Fui salvo desta vez. A preguiça de conectar e esperar minutos por algo que leva segundos em “banda larga” (uma banda de gordos?) é maior que o pó-de-mico na mão clicadora, propulsor da trivialidade.

Então estou aqui dentro de mim de novo. E de dentro de mim ejeto um pedaço de alma em letras. Também ouço almas subindo a escada por meio dos pés de seus corpos. Elas vêm do primeiro andar. Mas espere… Não as ouço mais. Foram-se com seus corpos. Por hora ao menos. Posso voltar a pulular letras e descrever banalidades misteriosas. Sim! o banal é misterioso. Cuspir é transcender, desde que se perceba a luz do movimento, o absurdo da trajetória, a certeza do fim.

Olho para cima. “História Universal. La época del absolutismo”. Dois anos à esquerda vejo uma estante cheia, e dois à direita uma traça se eu não jogar naftalina. Sou uma traça neste mundo. Uma traça de roupa, que não se alimenta de livros, só os percorre. Em verdade, vos digo que me alimento, mas de uma forma que não é da natureza das traças, sou uma traça mutante. Minhas perninhas… traças têm perninhas? Bem, minhas perninhas coçam apressadas as letras e delas tiram palavras e frases, até parágrafos, capítulos!

Um dia entrei eu, traça, dentro de uma lata de querosene. O cheiro era tão forte que ficou fraco. Molhei-me de uma água de não beber e cheirei um cheiro de não cheirar e perdi o que de mim restava, transformando-me em gente. E agora estou aqui, eu, gente, grande, com pés, cabelos, essas coisas de gente. E de repente vi que os objetos têm forma, os bolos têm fôrma (tá bom, essa foi tracadilho), e que a luz ilumina. Por exemplo, aqui onde estou, não digo onde é pra não perder a graça, aqui onde estou a luz me dá pó, cabos, pilhas, papéis, canetas, pincéis, parede, quadros, cortina. Lá fora a luz dá menos coisas aos olhos, mas sei que lá do outro lado daquela varanda tem um cachorro latindo e um dono lhe dando um biscrok, enquanto alguns tufos de algodão se acumulam no canto esquerdo da sala, atrás daquele sofá de todos os dias, onde se senta o telespectador do jornal de grandes novidades. Naquele outro quarto ali com a cortina fechada, está a saia da garota que toma banho sem ninguém ver e que depois vai se secar e continuar a viver, um pouco mais limpa. Mais pra frente ou pra trás, bebe água um senhor de barbas fartas mas sem bigode, que tem o hábito de fazer qualquer coisa e que não tem outros tantos hábitos que se vêem nas redondezas, na vizinhança.

Sei que a atividade é intensa por aí. Ouço os rumores que me passam pela alma, vindos de fora e de dentro. A maioria deles vem sem construção inteligível, sem importância senão pelo seu volume, sua totalidade. Mas alguns rumores vêm mais fortes e ficam. Não vieram esses da janela, mas da folha escrita, do quadro pintado, da música entoada. E um que ficou me deixou esta mensagem: tempo de escrever não se tem, conquista-se, a custo de muito, é o que to digo, até rancores alheios, ou principalmente, se não fores bom gerente de perdas e ganhos cronológicos.

Absteve-se o rumor de me ensinar mais, pouco que fosse.

Pensamento poliânico: também, se o tempo abundasse, talvez nada me viesse à cabeça que pudesse ou merecesse ser escrito.

Sexta-feira, 23:49, diz o relógio do computador.

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