Como assim (?)

As rosas desmurcharam quando eu voltei. Não sei como, só sei que aconteceu. Entrei no quarto escuro, uma faixa de sol cortava os tacos, mostrando os buracos do sinteco mal tratado. Olhei em panorâmica o que não era tão grande assim e percebi que o quarto só ficaria grande se eu abrisse a janela.

Grande não ficou, mas as rosas desmurcharam e eu fiquei feliz.

E isso não é uma metáfora. Nem a felicidade é uma metáfora. A felicidade é um tufo de poeira que vai embora com a faxina da casa.

Quando eu varri a casa e os tufos se foram, veio a felicidade. Quando eu varrer a casa e os tufos se forem, virá a felicidade. Quando eu varro a casa e os tufos se vão, vem a felicidade. Deve haver outros tempos verbais em que eu possa conjugar essa frase. Quando eu conhecê-los, usá-los-ei comprazido.

Mas, como estava a dizer, abri a janela e aconteceu a coisa. Depois uns gatos entraram pela janela, umas abelhas melaram o cobre-leito e eu fui comer os patos que nunca teria coragem de matar. Tornei-me um ser humano mal por minutos, a boca lambuzada de molho madeira, a mente entupida de gula.

E o sinteco do quarto continua com buracos, salvo engano meu.

Resumo geral: desmurchei umas rosas, mandei uns tufos às cucuias, conjuguei uns verbos, fiquei mal e tudo continuou como era antes, só que um pouco melhor.

“Como assim?”

“Não. Assim, ó: …”

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