Reminiscências do passado

Um dia
A monotonia tomou conta de mim
É o tédio
Cortando meus programas, esperando meu fim

Sentado no meu quarto
O tempo voa
Lá fora a vida passa e eu aqui à toa
Eu já tentei de tudo, mas não tenho remédio
Pra livrar-me desse tédio.

Um minuto de silêncio em homenagem a esta obra-prima.

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É amigo meu, viu?

Meu chapéu voou de minha cabeça antes que eu o pudesse tirar, no momento em que li isto:

“Desci até o saguão, abri um pouco a cortina e espiei por uma fresta. Ela estava molhada num vestido roto; parecia ainda guardar um resto de beleza, mas daquele tipo de beleza que encontramos em ruínas romanas. Antônio lhe deu o meu recado e ela caminhou de volta à rua. Fiquei observando até ela desaparecer na tempestade, a mulher que mais amei, não sem uma lágrima em meus olhos (uma única, dividida entre os dois olhos), pensando na fragilidade dos grandes amores e na indiferença que a vida nos vai esculpindo no coração, tornando-nos cada vez mais semelhantes, talvez, a deus”.

Eu e o mamão

Todo virginiano é um bom perdedor. Eu, por exemplo, todo dia de manhã, perco. Vou cortar o mamão papaia em duas metades, e uma delas fica maior que a outra. Bem maior. Isso não acontecia até um ano atrás. Eu sempre cortava as duas metades iguais. Sempre! [Orelhas quentes, começando a ficar nervoso].

O perfeccionista é, por definição, bom perdedor. A menos que, além de perfeccionista, seja desprovido de autocrítica. Neste caso, deve ser intragável. Tem também a versão derrotista, que faz o tipo “não consigo fazer nada direito”. E a versão derrotista pode ser derrotista-de-verdade ou falso-derrotista. No primeiro caso, o sujeito é perfeccionista, mas nunca atingiu a perfeição em nada. No segundo, faz tudo com perfeição, mas acha que está mal feito.

Eu sou um perfeccionista um pouco diferente. Faço o tipo conformado. Luto pra fazer as coisas direito (“direito”, para um virginiano, quer dizer “perfeito”). Mas, se não der, paciência… que, por sinal, é outra virtude do virginiano (caso você tenha considerado como uma virtude a primeira característica aqui citada). É incrível como Deus cria pacotes perfeitos de qualidades! (E há também os pacotes perfeitos de defeitos, mas esta é uma outra história…)

Nem por isso deixo de me irritar com as imperfeições. Às vezes elas me deixam louco e eu começo a girar em círculos, espernear e babar pelos cotovelos. Por isso gosto de ler sentado, debruçado em uma mesa: para que os cotovelos fiquem apoiados e fechados e não babem.

Mas, apesar dos pesares, acho que viver vale a pena. Ontem mesmo sonhei com um papaia perfeitamente dividido ao meio.

Dando uma de Clarice Lispector

Vou começar um post.

Comecei.

Primeiro, desculpe-me, Juliana, por confundí-la com desconhecidas. Sabe como é a cena: o Dante sentado na cadeira, e do lado as garotas que eu não conhecia. Não te vi mesmo. Ainda bem que acabei te vendo. Minha mãe costumava fazer inimizades no trabalho por meio de pequenos micos cotidianos, como não lembrar o nome de alguém. Eu também sou péssimo com nomes. Por falar nisso, como é o seu mesmo? Miss V… Hmm. Deixa pra lá.

Terminei a primeira parte do post. A segunda é o seguinte.

Meu mundo-eu é uma mistureba absurda de personalidades. Às vezes fico tonto de tantas vozes que escuto a dizer coisas opostas. Eu não sei se eu sou eu mesmo. Até hoje tenho dúvidas quanto a isso. Mas, enfim, se eu estou falando de mim aqui neste blog, então eu devo ser eu mesmo. Ou então estou alhures.

Agora estou alhures. Comprei umas roupinhas legais. Estou fazendo aula de tênis. Já descobri que deveria ter sido jogador de tênis. O problema é que tem umas profissões que não podem ser escolhidas. O tenista começa tão novo que nem sabe o que está fazendo. Que graça há em fazer alguma coisa sem se saber o que se está fazendo? Também já descobri que deveria ter sido arquiteto, depois descobri que deveria ter sido técnico de informática. Se não tomar cuidado, vou acabar descobrindo que deveria ter sido qualquer coisa, menos nada. Ser tudo é ser nada. Querer ser tudo é querer ser nada?

Cruz credo!

Vendo o milho cozinhando na panela, pensei em tudo o que eu poderia ter sido e que não fui ou não sou. Depois comi o milho. Estava bom… Mas umas partes estavam estragadas.

O milho levantou vôo e deixou água pra trás. Um milho metafísico, as sementes amaciadas pela fervura, transportando uns pensamentos soltos de mordida em mordida, goela abaixo, cérebro acima. Pedaços de uma adolescência em Brasília, uns crepúsculos de domingo, umas fossas de segunda. Feliz mesmo eu fui depois e sou agora, aqui no meio dessa fumaça paulistana e outrora, há pouco, na roça grande de BH, embora eu tenha saído de lá farto, enfarado. Caí aqui e não me levanto mais, por hora ao menos. Meu sonho é uma casa com uma cozinha enorme, o mar à frente, uma livraria atrás, uma quadra de tênis ao lado. Impossível. Realidade: IPTU, Taxa do Lixo, café expresso a 2,50 e refresco vagabundo a 1,85, pobreza da classe média. Mas não me queixo. Deixo pra lá.

Então deixo aqui este relato. Está frio e eu vou dormir. Mas não sem antes dizer que a flor-de-lótus está linda em cima da mesa, faz frio lá fora e meu amor tem cheiro de manjerona lá dentro do quarto (ela acendeu um daqueles óleos). Quando o sol nascer de novo e brilhar mais um pouco, vou acordar ao som dos papagaios do prédio ao lado. Depois vou respirar um pouco de ar puro, rever uns amigos loucos e pensar em escrever mais posts bobinhos.