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Archive for March, 2006

Preconceito

Filme bom hoje, infelizmente, costuma ser aquele que ninguém viu nem indicou.

Desta vez, pior ainda, porque os queridinhos do momento são os filmes gays. Mas, já vou logo observando, estes filmes não são bons porque são gays, viu? São bons independentemente deste fato. Viu? Viu? Viu? (repetem a mídia, os gays e os simpatizantes).

O do Woody Allen (“Ponto final”) todo mundo viu, mas só porque é do Woody Allen. Não ouvi nenhum dos meus amigos dizer que é muito bom. O máximo que ouvi foi um “é bom, mas o tema é bobinho”. Pois é, a complexidade da mente humana hoje é algo “bobinho”, enquanto que a fabricação de diálogos novaiorquinos-broadwayanos-freudianos em série sempre passa pela mais elevada forma de arte cinematográfica (mas só até cansar, é claro, pois então os críticos começam a dizer que o diretor se tornou repetitivo). Woody Allen se renovou e o filme é ótimo. Melhor ainda por nem tocar em temas políticos.
O melhor que vi nos últimos tempos é, entretanto, “Orgulho e Preconceito”. Li sobre ele e vou repetir: o filme renova o romance de época. Nada daquela conhecida lenga-lenga do tipo de “Assassinato em Gosford Park”. O filme é vivo, o cénario é realista sem ser perfeito, as pessoas dançam de maneira imperfeita (como deveria ser na época e como é hoje) e têm dificuldade em seguir as regras de etiqueta (como sempre aconteceu com todo mundo na face da Terra, fato que os diretores sempre esqueceram). É claro que o filme é azarão, pois não tem terroristas, nem gays, nem crítica social elevando-se acima dos outros aspectos. Até mesmo a sátira dos costumes foi abrandada. Acho isso muito expressivo. Uma coisa de que nunca ninguém se lembra é que, costumes por costumes, os nossos talvez sejam ainda mais satirizáveis que os da aristocracia britânica. Mas é claro que o homem moderno, do alto de sua soberba cultural cronocêntrica, nunca vai admitir, por exemplo, a possibilidade de que suas liberdades, aparentemente tão numerosas, talvez não passem de ilusão, sua vida igualando-se, em muitos aspectos, à de um camponês britânico do século XVIII.

Ou: todo mundo tinha de se casar naquela época. Mas hoje também não é assim? Mudam os motivos, permanecem as escravidões. O fato é que o ser humano não consegue ficar sozinho, não consegue agir de forma natural, não consegue…

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