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Archive for November, 2006

Mais Lewis

Primeiro vou transcrever só a frase, a maravilhosa frase da p. 220:

“Só quem não se importa com a realidade pode se dar ao luxo de ser simplista”.

Agora, após alguns segundos de maravilhamento e reflexão, em que minha mente passeia por pensamentos incrivelmente diversos (como, p. ex., um marxista lunático, um antroposófico autoconfiante, leitores de auto-ajuda sedentos de simplicidade), acrescento o restante:

“Se o cristianismo fosse algo que inventamos, é claro que seria mais fácil. Mas não é. Não podemos competir, em matéria de simplicidade, com as pessoas que inventam religiões. Como poderíamos? Trabalhamos com a realidade como ela é. Só quem não se importa com a realidade pode se dar ao luxo de ser simplista”.

Notou como um livro pode ser lido em vários níveis? Em um deles, a última frase do trecho vira uma reflexão filosófica que vale para contextos aparentemente diversos daquele do livro. No outro, o trecho inteiro particulariza a tal reflexão, trazendo-a para o tema tratado.

No entanto, o “aparentemente” quer dizer que, embora o trecho restrinja a aplicação da última frase, na verdade ele é apenas a aplicação de um princípio universal, segundo o qual a simplicidade teorética não dá conta da realidade.

O problema é que, se eu falar de complexidade teorética por aí, vão achar que eu estou falando de beregüê acadêmico. A linguagem acadêmica de hoje guarda um outro tipo de complexidade: a complexidade sinonímico-sintático-imbecil, em que se trocam as palavras por sinônimos menos usados, as frases por agrupamentos sintáticos bizarros e iniciáticos, tudo num amálgama esquisito, realizado por um imbecil que nem sabe o que está fazendo (como eu seis anos atrás, por exemplo). Muita gente deixa de ler livros com os quais poderiam aprender muitas, porque acham que vão encontrar esse tipo de linguagem em qualquer livro que não tenha a capa multicolorida e cheia de expressões como “7 maneiras de”, “100 casos mais”, “20 jeitos de” etc etc.

(… pausa …) (… respiro …) (… chega de reclamar …)

Ainda tenho mais a dizer (além de que estou imensamente feliz em saber que o Ruy Goiaba não se foi). Mas digo depois.

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A moral da história

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O que é boa literatura? Frases brilhantemente bem construídas, idéias criativas, crítica de costumes, acontecimentos inusitados? Os críticos e os marqueteiros passeiam por opções como essas. E eu não vou dizer que elas não sejam importantes. Mas tenho a impressão de que não são o principal.

O que realmente importa é a famosa e cafoninha “moral da história”. [Arrepiam-se os cabelos do leitor; “vou clicar em um link e dar o fora daqui”; “putz”; etc etc]. Sim, meus caros. A linguagem tem o poder de desmoralizar o que é belo, arrasar com a verdade, transfigurar coisa séria em cafonice. Se eu pronunciar “lição de moral” em público, serei vaiado, ridicularizado e talvez linchado, mesmo pelo mais tolerante dos conservadores. Só as vovozinhas me aplaudirão, só a Branca de Neve não protestará. No entanto, o que há de mais belo, em um livro como “Orgulho e Preconceito“, do que a maneira como a autora nos faz “descobrir” que o que sabemos sobre nós e sobre os mais próximos a nós não “passa”, por osmose, para a cabeça dos estranhos e daqueles que acabamos de conhecer? Sim. Precisamos nos comunicar. Se queremos ser amigos de alguém ou amar alguém, precisamos ser honestos com essa pessoa e dizer a ela o que estamos pensando. Se não o fizermos, estaremos fazendo joguinhos de sedução (tem gente que acha que isso é chique e glamoroso; e talvez seja, no cinema), ou simplesmente fazendo bobagem. No caso da amizade, aí é que nem mesmo se pode discutir sobre a “necessidade de um certo mistério e de uma certa sedução”. Você não vai querer seduzir aquele seu amigo barbudo que lhe ensina coisas sobre os tzares russos, não é mesmo?

Você pode aprender sobre o “outro” de duas maneiras. Lendo o beregüê acadêmico sobre a “alteridade” (“o abismo que nos separa do outro”), ou lendo livros belos (e desprezados como romancezinhos para moças). Você pode ler Jane Austen como um passatempo meloso somado à descrição dos costumes burgueses, ou então como um tratado filosófico sobre as pessoas que buscam a mesma coisa, mas que vivem trombando umas nas outras porque não sabem se comunicar, ou seja, sobre a humanidade inteira. Alguma semelhança com nossa própria vida? Alguma semelhança com aqueles momentos em que você pensou que uma pessoa qualquer era extremamente burra porque não entendeu que você gostava dela? Pois é. Talvez você, como um dos personagens de Austen, não tenha dado informações suficientes ao outro. Talvez o outro, também como um desses personagens, tenha tirado conclusões precipitadas em cima de informações escassas. Estou traduzindo um livro acadêmico sobre este tema das informações escassas. A linguagem é insuportável. Fico com a Jane Austen.

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A imagem fala por si. Mas, como não resisto à tentação de descreve-la, devo dizer que eles devem estar tramando alguma coisa.

Com certeza.

E ainda nessa mesma linha (animais), hoje sonhei que um bode tinha arranhado meu notebook todo. Foi lastimável, porque ele era lindo (não o bode, mas o notebook).

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Sair daqui

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– Eu quero sair daqui. Esses ônibus subindo a rua estão me deixando louco. Reviro-me na cama, acordo, volto a dormir, acordo, volto a dormir. De madrugada passam caminhões. Dezenas deles. Os vazios são os piores. A caçamba balança como um pedaço de polpa congelada no liqüidificador. Um amigo me comprou um tampão de silicone nos Estados Unidos. A proposta é que você enfia aquela coisa no seu ouvido (apesar de na caixa estar escrito a frase bichesca, “do not insert”) e dorme como um anjo (Bukowski diria, “como um maldito anjo”). Hoje mesmo coloquei. Quando acordo às cinco e meia não consigo dormir, porque o trânsito ainda não engarrafou. É incrível como as coisas se ajeitam naturalmente. A cidade infla até sair gente pelo ralo, as pessoas compram carros até ficarem pobres e viverem de aluguel, os helicópteros e aviões não param de passar, os serviços de infra-estrutura e transporte de cargas têm de ser feitos à noite por causa do trânsito, ninguém mais consegue dormir. De dia, quem fica em casa tem menos silêncio do que quem vai trabalhar, pois fica ouvindo o trânsito, em vez de o ar condicionado. Mas heis que o trânsito engarrafa, e fica mais silencioso. Dizer que as coisas se ajeitam naturalmente é muita bondade. Na verdade ficam mais ou menos. Mas, como eu dizia, vou sair daqui. Vou botar uma mochila nas costas (e uma TV de plasma e um videogame e um computador e uma cama de casal e 743 livros) e vou subir a rua. Vou subir até chegar lá onde os ônibus já quebraram. Para lá de onde os ônibus quebram, há pássaros cantando e bebendo água. O céu é azul (mira tu!), o cheiro não é de Ajax, e os cachorros têm o pelo saudável por causa da brisa. As árvores não balançam, as nuvens não têm pressa e as varandas são utilizáveis. Quando eu chegar lá, vou ler filosofia na varanda e vou entender tudo. Vou olhar para baixo de vez em quando e ver uma dona passeando seu cachorro. Carros vão passar de vez em quando e vai dar para ouvi-los desde longe, aproximando-se e distanciando-se. De manhã, vou me irritar com o som dos pássaros, pois não haverá ônibus. Quando os pássaros se calarem, dormirei mais um pouco e o silêncio me deixará trabalhar até de noite, sentado em meu escritório e levantando às vezes para tomar um suco e comer uma banana. A TV vai ficar na metade do volume e vai dar para ouvir os programas assim mesmo. Sair para a rua não será um desafio. Ficar em casa não será uma prisão. Em pouco tempo isto aqui parecerá tão distante, que sentiremos pena de quem ficou, como quem sai de um país em guerra e deixa para trás os que não conseguiram ou, pior, não quiseram sair. Veremos os paulistanos acelerados na TV, falando de shows e de restaurantes maravilhosos e sofisticados e acharemos graça. Lembrar-nos-emos de tudo isto aqui com nostalgia, mas sem saudade. Um nó na garganta será desfeito com a visualização imaginativa dos ônibus infernais. Coisas boas existem aqui, sem dúvida, mas nada melhor que descobrir que não se pertence a um lugar porque o lugar é de menos. Nada melhor. Então eu vou, sem dó. Você vem comigo?

– Vou. Pena que aquele pombo ali no telhado não pode ir com a gente.

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O imperador da Svolonésia

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Ao ler isto, pergunto-me como pude ficar tanto tempo longe das reflexões do Alfredo.

E fico também com vontade de ouvir suas composições, como certa feita em Jundiaí, na companhia de tantas pessoas agradáveis.

O selo vai em homenagem, meu caro amigo!

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Religião direta e reta

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Religião direta e reta I

“Não tenha medo da palavra ‘autoridade’. Se você acredita em algo por causa da autoridade de alguém significa apenas que você acredita porque a pessoa que lhe deu a informação é confiável. Noventa e nove por cento das coisas em que acreditamos são cridas em função da autoridade de alguém. (…) O homem comum acredita no sistema solar, nos átomos, na evolução e na circulação do sangue por causa da autoridade de alguém – porque os cientistas o afirmam. A única prova que temos de qualquer declaração histórica é também a autoridade. Nenhum de nós testemunhou a conquista normanda ou a derrota da Invencível Armada. Nenhum de nós poderia provar pela lógica pura que essas coisas aconteceram como se pode provar uma equação matemática. Acreditamos nelas simplesmente porque algumas testemunhas deixaram relatos escritos a seu respeito: na verdade, acreditamos nelas por causa de uma autoridade. Um homem que demonstrasse ceticismo em relação à autoridade em outros assuntos, como certas pessoas o fazem em relação à religião, teria de se contentar com não saber absolutamente nada.” (C. S. Lewis)

 

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Religião direta e reta II

“Esse negócio da fé, isso é uma fonte de confusões absolutamente miserável, e a ênfase na fé vai aumentando com o tempo; já a partir do século XIX, as pessoas acabam achando que tudo quanto é religião é matéria de fé. O que na religião é matéria de fé é somente a fé na promessa, não na narrativa, nem na doutrina. <i>A narrativa é provada com testemunho</i> e a doutrina, com argumentos. E a promessa? Bom, se você já acreditou em tudo isso, acredita na promessa também, porque o cara que já fez tudo isso, já ensinou tudo isso, não vai estar lhe sacaneando.” (Olavo de Carvalho)

 

Depois de ler essas coisas, o problema é você botar o pé numa Igreja e ouvir a ladainha tediosa dos nossos pobres padres. Tudo bem, há argumentos no livro do Lewis sobre isso também, explicando por que você tem de ir à Igreja mesmo achando os padres e os crentes uns chatos e ignorantes. Mas o fato é que comparar a Inglaterra, e ainda por cima na época do Lewis, com o Brasil de hoje é até sacanagem.

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The Pigeon Blog

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Na minha humilde e leiga opinião, pombos não são animais exatamente… fofos, digamos assim. Mas opiniões são opiniões, e há quem pense (quase todo mundo hoje em dia) que emiti-las é uma atividade positiva a priori. Às vezes sim, às vezes não. Eu diria que na maior parte das vezes não. Mas há exceções.

Este aqui acha que pombos são fofos, legais e engraçados. E criou um blog sobre isso. Mas, quando digo “sobre isso”, não quero dizer sobre os pombos exatamente, mas sobre o fato de ele os achar legais e viver sua vida (ao menos a virtual) quase fingindo que é um. O resultado é bem divertido, particularmente a parte em que Trev (o pombinho de plástico do sujeito) passeia pelas ruas de Londres e interage com seus colegas, digamos, orgânicos.

Aliás, se eu morasse em Londres, talvez também achasse os pombos bichinhos fofos e engraçados. Aqui no terceiro mundo entretanto, eles se parecem mais com mendigos esfarrapados. E, principalmente, os cenários (das fotos em potencial) não são os mais pitorescos. Não obstante, devo admitir que o fato de eles balançarem o pescoço como cantores de rap ao andar pela rua os torna seres bastante cômicos.

Acima coloquei minha foto-homenagem (de autoria própria) aos pombos. Confesso que até já os estou achando mais fofos. Fico devendo um vídeo do gracioso andar de um pombo. Quando eu me animar a sair pela rua com uma filmadora e correr o risco de ser assaltado por um “mano” só para filmar uns pombos, juro que coloco o resultado de minha aventura aqui (se ela acabar bem, é claro!).

Ah, e o “Pigeon Blog” também abrange (essa é ótima! “Abrange”!) pássaros em geral. Muito bom!

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