Sair daqui

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– Eu quero sair daqui. Esses ônibus subindo a rua estão me deixando louco. Reviro-me na cama, acordo, volto a dormir, acordo, volto a dormir. De madrugada passam caminhões. Dezenas deles. Os vazios são os piores. A caçamba balança como um pedaço de polpa congelada no liqüidificador. Um amigo me comprou um tampão de silicone nos Estados Unidos. A proposta é que você enfia aquela coisa no seu ouvido (apesar de na caixa estar escrito a frase bichesca, “do not insert”) e dorme como um anjo (Bukowski diria, “como um maldito anjo”). Hoje mesmo coloquei. Quando acordo às cinco e meia não consigo dormir, porque o trânsito ainda não engarrafou. É incrível como as coisas se ajeitam naturalmente. A cidade infla até sair gente pelo ralo, as pessoas compram carros até ficarem pobres e viverem de aluguel, os helicópteros e aviões não param de passar, os serviços de infra-estrutura e transporte de cargas têm de ser feitos à noite por causa do trânsito, ninguém mais consegue dormir. De dia, quem fica em casa tem menos silêncio do que quem vai trabalhar, pois fica ouvindo o trânsito, em vez de o ar condicionado. Mas heis que o trânsito engarrafa, e fica mais silencioso. Dizer que as coisas se ajeitam naturalmente é muita bondade. Na verdade ficam mais ou menos. Mas, como eu dizia, vou sair daqui. Vou botar uma mochila nas costas (e uma TV de plasma e um videogame e um computador e uma cama de casal e 743 livros) e vou subir a rua. Vou subir até chegar lá onde os ônibus já quebraram. Para lá de onde os ônibus quebram, há pássaros cantando e bebendo água. O céu é azul (mira tu!), o cheiro não é de Ajax, e os cachorros têm o pelo saudável por causa da brisa. As árvores não balançam, as nuvens não têm pressa e as varandas são utilizáveis. Quando eu chegar lá, vou ler filosofia na varanda e vou entender tudo. Vou olhar para baixo de vez em quando e ver uma dona passeando seu cachorro. Carros vão passar de vez em quando e vai dar para ouvi-los desde longe, aproximando-se e distanciando-se. De manhã, vou me irritar com o som dos pássaros, pois não haverá ônibus. Quando os pássaros se calarem, dormirei mais um pouco e o silêncio me deixará trabalhar até de noite, sentado em meu escritório e levantando às vezes para tomar um suco e comer uma banana. A TV vai ficar na metade do volume e vai dar para ouvir os programas assim mesmo. Sair para a rua não será um desafio. Ficar em casa não será uma prisão. Em pouco tempo isto aqui parecerá tão distante, que sentiremos pena de quem ficou, como quem sai de um país em guerra e deixa para trás os que não conseguiram ou, pior, não quiseram sair. Veremos os paulistanos acelerados na TV, falando de shows e de restaurantes maravilhosos e sofisticados e acharemos graça. Lembrar-nos-emos de tudo isto aqui com nostalgia, mas sem saudade. Um nó na garganta será desfeito com a visualização imaginativa dos ônibus infernais. Coisas boas existem aqui, sem dúvida, mas nada melhor que descobrir que não se pertence a um lugar porque o lugar é de menos. Nada melhor. Então eu vou, sem dó. Você vem comigo?

– Vou. Pena que aquele pombo ali no telhado não pode ir com a gente.

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