A moral da história

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O que é boa literatura? Frases brilhantemente bem construídas, idéias criativas, crítica de costumes, acontecimentos inusitados? Os críticos e os marqueteiros passeiam por opções como essas. E eu não vou dizer que elas não sejam importantes. Mas tenho a impressão de que não são o principal.

O que realmente importa é a famosa e cafoninha “moral da história”. [Arrepiam-se os cabelos do leitor; “vou clicar em um link e dar o fora daqui”; “putz”; etc etc]. Sim, meus caros. A linguagem tem o poder de desmoralizar o que é belo, arrasar com a verdade, transfigurar coisa séria em cafonice. Se eu pronunciar “lição de moral” em público, serei vaiado, ridicularizado e talvez linchado, mesmo pelo mais tolerante dos conservadores. Só as vovozinhas me aplaudirão, só a Branca de Neve não protestará. No entanto, o que há de mais belo, em um livro como “Orgulho e Preconceito“, do que a maneira como a autora nos faz “descobrir” que o que sabemos sobre nós e sobre os mais próximos a nós não “passa”, por osmose, para a cabeça dos estranhos e daqueles que acabamos de conhecer? Sim. Precisamos nos comunicar. Se queremos ser amigos de alguém ou amar alguém, precisamos ser honestos com essa pessoa e dizer a ela o que estamos pensando. Se não o fizermos, estaremos fazendo joguinhos de sedução (tem gente que acha que isso é chique e glamoroso; e talvez seja, no cinema), ou simplesmente fazendo bobagem. No caso da amizade, aí é que nem mesmo se pode discutir sobre a “necessidade de um certo mistério e de uma certa sedução”. Você não vai querer seduzir aquele seu amigo barbudo que lhe ensina coisas sobre os tzares russos, não é mesmo?

Você pode aprender sobre o “outro” de duas maneiras. Lendo o beregüê acadêmico sobre a “alteridade” (“o abismo que nos separa do outro”), ou lendo livros belos (e desprezados como romancezinhos para moças). Você pode ler Jane Austen como um passatempo meloso somado à descrição dos costumes burgueses, ou então como um tratado filosófico sobre as pessoas que buscam a mesma coisa, mas que vivem trombando umas nas outras porque não sabem se comunicar, ou seja, sobre a humanidade inteira. Alguma semelhança com nossa própria vida? Alguma semelhança com aqueles momentos em que você pensou que uma pessoa qualquer era extremamente burra porque não entendeu que você gostava dela? Pois é. Talvez você, como um dos personagens de Austen, não tenha dado informações suficientes ao outro. Talvez o outro, também como um desses personagens, tenha tirado conclusões precipitadas em cima de informações escassas. Estou traduzindo um livro acadêmico sobre este tema das informações escassas. A linguagem é insuportável. Fico com a Jane Austen.

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