Mais Lewis

Primeiro vou transcrever só a frase, a maravilhosa frase da p. 220:

“Só quem não se importa com a realidade pode se dar ao luxo de ser simplista”.

Agora, após alguns segundos de maravilhamento e reflexão, em que minha mente passeia por pensamentos incrivelmente diversos (como, p. ex., um marxista lunático, um antroposófico autoconfiante, leitores de auto-ajuda sedentos de simplicidade), acrescento o restante:

“Se o cristianismo fosse algo que inventamos, é claro que seria mais fácil. Mas não é. Não podemos competir, em matéria de simplicidade, com as pessoas que inventam religiões. Como poderíamos? Trabalhamos com a realidade como ela é. Só quem não se importa com a realidade pode se dar ao luxo de ser simplista”.

Notou como um livro pode ser lido em vários níveis? Em um deles, a última frase do trecho vira uma reflexão filosófica que vale para contextos aparentemente diversos daquele do livro. No outro, o trecho inteiro particulariza a tal reflexão, trazendo-a para o tema tratado.

No entanto, o “aparentemente” quer dizer que, embora o trecho restrinja a aplicação da última frase, na verdade ele é apenas a aplicação de um princípio universal, segundo o qual a simplicidade teorética não dá conta da realidade.

O problema é que, se eu falar de complexidade teorética por aí, vão achar que eu estou falando de beregüê acadêmico. A linguagem acadêmica de hoje guarda um outro tipo de complexidade: a complexidade sinonímico-sintático-imbecil, em que se trocam as palavras por sinônimos menos usados, as frases por agrupamentos sintáticos bizarros e iniciáticos, tudo num amálgama esquisito, realizado por um imbecil que nem sabe o que está fazendo (como eu seis anos atrás, por exemplo). Muita gente deixa de ler livros com os quais poderiam aprender muitas, porque acham que vão encontrar esse tipo de linguagem em qualquer livro que não tenha a capa multicolorida e cheia de expressões como “7 maneiras de”, “100 casos mais”, “20 jeitos de” etc etc.

(… pausa …) (… respiro …) (… chega de reclamar …)

Ainda tenho mais a dizer (além de que estou imensamente feliz em saber que o Ruy Goiaba não se foi). Mas digo depois.

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