Hmmm…

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Vocês já comeram nata? Não estou falando daquilo que dá no fundo da panela de leite depois de ferver (aliás, alguém ainda se lembra da época em que se fervia o leite?). Refiro-me a um tipo de creme de leite fresco feito no Sul do Brasil, que trás, entre parênteses, a palavrinha mágica: nata. Você pode fazer doces com ela, ou, o que é MUITO bom, usá-la como uma espécie de requeijão cremoso de passar no pão, em roscas doces, pão da colônia (também só encontrado no Sul), ou tudo o mais que sua imaginação permitir. Minha recomendação é a seguinte: pegue um pedaço de rosca, passe tanta nata quanto for possível sem que ela escorra por entre seus dedos, depois pingue umas gotinhas de mel, e depois COMA!

Já sei, você deve estar pensando que tudo isso é inútil, pois você não mora no Sul, certo? (E deve estar pensando também que eu sou um doido varrido). Mas nem tudo está perdido. Se você mora em São Paulo, pode comprar essa maravilha no Supermercado Master, no Shopping Frei Boneca, digo, Caneca.

E termino com um trocadilho infame: FELIZ NATA!!

Tradução ou traição?

Sinceramente, não gosto de criticar tradutores. Está certo que eu sou um deles, mas não é por coleguismo que eu vou deixar de criticar.

O caso é que a coleção “Liberty Classics”, da Topbooks, é muito mal traduzida. A leitura mal flui, de tão estranha que é a sintaxe. Os erros de revisão são tantos que chego a pensar em um chimpanzé revisando o livro enquanto come bananas dentro de sua jaula. Ou então em um pobre coitado ganhando 2 mil reais para traduzir um livro inteiro e outro ganhando mil para revisar, e tudo dentro de um intervalo de 1 mês. Uma situação absurda, é claro, mas, vai saber…

Comecei a ler o ensaio “Torre de Babel”, que está dentro de Sobre a história, de Michael Oakeshott.

Na segunda página, encontro, dentro de um parêntese: “caso você se lembra”.

Na quarta página, “ele casara-se cedo”. O correto seria “ele se casara cedo”. É um erro comum, não muito grave, às vezes aceitável dependendo do contexto. O problema é que aparece umas duas vezes em cada página.

Na sétima página, uma pérola de sintaxe mal traduzida: “Ele não poderia persuadir-se a anunciar que ‘Deus estava morto'”.

A quantidade de “ele” e “ela” ao longo do texto é inaceitável. Na seguinte passagem, temos um exemplo disso, e mais o problema de sintaxe que perpassa todo o texto e ainda outros problemas. Vejamos: “Ela [a história da Torre de Babel] ainda pode ser reconhecida como a mesma história, ainda que as banalidades da modernidade qualifiquem o egoísmo da antiga impiedade”.

Veja que a palavra “ainda” se repete de modo cacofônico. Mas o pior é que o verbo correto não é “qualifica”, que é tradução literal do falso cognato qualify, erro crasso. O correto é “atenua”, ou coisa que o valha. Veja bem uma tradução aceitável: “Ainda se pode reconhece-la como a mesma história, embora as banalidades da modernidade atenuem o egoísmo da antiga impiedade.”

Lamentável.

Arte retórica

O sábio chinês bem poderia ter dito o seguinte. Não duvida do poder da retórica, mas atenta para o fato: ela pode enganar-te, fazendo com que entendas por agradecimento a simples afirmação de que não fizeste mais que tua obrigação.

Senão, vejamos:

Obrigado por não virar as costas.

A frase é real. O receptor do “agradecimento” foi este que vos escreve. A versão “honesta” seria algo como: “Obrigado. Porém, não fizeste mais que tua obrigação.” Um perfeito paradoxo lógico, mas perfeitamente compreensível psicologicamente, enquanto expressão de uma série de sentimentos, dentre os quais um perfeito pecado: achar que sabe, tão bem quanto Deus, a parte de sofrimento que cabe a cada um nesta vida.

Tempo e espaço

As ondas sonoras de uma serra cortadora de granito me despertam os sentidos, fazem-me crer na concretude do espaço, assim como outrora um relógio de parede, em casa de meus pais, fazia-me crer na concretude do tempo.

Pura ilusão, contudo. O espaço não passa de uma casa inóspita, e o tempo nada mais é que um conjunto de momentos que, de tanto passarem, nunca chegam a existir.

Mesmo assim, quantos são os sofrimentos que podemos experimentar no âmbito dessas duas dimensões! Quantas as provações!

Devemos ser mesmo uns serezinhos desprezíveis, se conseguimos transformar até abstrações em coisas ruins.

Mas não sinto só isso. Sinto também que estou flutuando no ar e que me puxam os pés e que eu tenho de deixar que o façam, pois assim é e tem de ser.

Estou também com um frio na barriga.

Depois falo das coisas boas.

Saudade

No passado distante, havia as vaquinhas no papel-toalha. Guardo uma lembrança doce e nostálgica daquele papel-toalha ilustrado com vaquinhas. Não sei por quê, mas algumas coisas recentes parecem mais distantes que outras antigas. Talvez a memória seja qualitativa, e distorça o tempo linear, transformando-o em uma ameba. O presente seria o “centro” da ameba, e as lembranças distam distâncias variáveis do centro, de acordo com a importância qualitativa que elas tenham. Assim, o papel-toalha com vaquinhas está em uma reentrância da ameba, enquanto o governo FHC está em uma saliência.

Também no passado distante estão as salas de aula de faculdade. Parecem perdidas em outra galáxia, talvez em outra ameba. Quiçá haja várias amebas concêntricas.

Ainda há o papel-toalha. Ainda há as salas de aula de faculdade. Todavia, naquele as vaquinhas não são mais laranja; e nestas só vejo comunistinhas.

O sonho acabou. Vou chorar e enxugar com papel-toalha de vaquinhas azuis.

A arte da enrolação

Enrolar para resolver as coisas é algo espontâneo, e é como uma arte. Nos dias de hoje, quase uma necessidade. Quanto mais coisas você faz, mais coisas há por fazer. Se você tem 20 pendências por resolver e resolve 10, aparecem mais dez. Se você não resolve nada, continua com 20, ou talvez com 23. É uma lógica maluca, mais ou menos como a lógica do saque. Se você tem 20 reais e saca 100 reais, gasta 120 reais em uma semana e tem de sacar mais. Se você não saca nada, passa a semana inteira gastando lentamente os 20 reais que tem, até acabar e você ter de sacar mais. Por que isso? Porquê, como já dizia sei lá quem, dinheiro na mão é vendaval.

Não estou fazendo a apoteose da inércia. Bem, só um pouquinho de inércia não faz mal a ninguém. Mas o caso é que a vida tem de ser gasta em doses homeopáticas.

Aliás, a vida também tem uma lógica meio louca. A lógica normal seria: se você gosta da vida, então prefere usufruir dela aos poucos, para que passe devagar. Mas nem sempre é assim. Às vezes é usufruindo dela devagar que descobrimos que gostamos dela.

Também é perigoso dizer que não se gosta da rapidez. Eu, por exemplo, não gosto de fazer muitas coisas rapidamente, como ir a uma loja, ao supermercado, pegar a roupa na lavanderia, almoçar, ir ao médico, tudo isso em um intervalo de 2 horas. Mas, quando estou sentado em frente ao computador, faço tudo vertiginosamente. Leio notícias, faço downloads, escrevo e-mails, navego por sites, tudo muito rápido.

Então talvez o problema não seja a rapidez. Talvez meu cérebro é que goste de velocidade? Talvez não, porque também adoro ler um livro vagarosamente. Talvez seja um problema com tarefas físicas? Não, porque gosto de viagens longas de carro e de jogar tênis.

Só sei que sinto muita preguiça diante de alguma série iminente de eventos. Quando começo a fazer algo, gosto e vou adiante. O problema é começar. Talvez por isso a preguiça seja um pecado. Pecados não têm explicação. Você simplesmente os deseja.

Tem gente, por exemplo, que tem preguiça de ler. Tem gente que tem preguiça de escrever. Eu, por exemplo, de fato já estou ficando com preguiça de escr

Palavras trocadas

Minha mulher gosta de usar palavras com sentido inexato.

Quando você faz algo ruim para alguém, você pede desculpas e, para saber o que pode fazer em troca, pergunta: “Como posso me retaliar?”

Ou então, diz que tem “várias pendengas para resolver”.

Ou diz que sua irmã deixa um “lastro de destruição” por onde passa.

Ou ainda, que o tabuleiro precisa ser “embalsamado” antes de colocarem-se os pães de queijo nele para assar.

E tem outras, mas ela não está conseguindo lembrar agora, porque tem um infeliz cortando granito no prédio ao lado.