Convertendo

Encontrei uma palavra para me definir religiosamente. (Ateu? Agnóstico? Crente?)

Sou um “convertendo”. Há anos. Não sei quando acabará.

Na pp. 221-222:

“(…) vamos tratar de uma dificuldade geral que certas pessoas encontram para orar. Um homem resumiu para mim a situação: ‘Acredito em Deus, mas não consigo engolir a idéia de que atenda a centenas de milhões de pessoas que se dirigem a ele num mesmo momento’. E constatei que muita gente pensa do mesmo modo.”

Quem dera fosse essa a minha dificuldade. Para não conseguir entender o conceito de eternidade, é preciso muita falta de imaginação. Minha dificuldade está em que sinto uma impressão de que a oração é, por assim dizer, um tipo de “peça literária” meio pobre. Eu me sinto um pouco bobo, burro e robótico quando rezo. Gostaria que as orações fossem menos automáticas e repetitivas. Gostaria que fossem mais como os salmos e menos como o Pai Nosso.

Também sinto vergonha, mas isso eu acho que é uma espécie de condicionamento ateu. Aliás, este seria um tema prolífico: o conceito de condicionamento ateu (algo como: “sentimento automático de vergonha por suposta inferioridade intelectual, quando do ato de falar de Deus”) e os diversos tipos de condicionamento.

Se bem que a vergonha também vem de uma espécie de sentimento de que usar a palavra Deus para me referir a esta entidade que nem sequer entendemos é muito primarismo. Sinto-me um pouco beata ao faze-lo. Por outro lado, tenho plena consciência de que a solução não é dizer que Deus é o Universo, “a totalidade das coisas”, ou qualquer outra dessas idéias semi-materialistas típicas das pseudo-religiões e pseudo-filosofias. Vejamos (o que está entre colchetes é meu, viu?):

“Hoje em dia, um bom número de pessoas [esotéricos?] diz: ‘Acredito em Deus, mas não num Deus pessoal.” Elas pressentem que o mistério por trás de todas as coisas deve ser maior que uma pessoa. Os cristãos concordam com isso. Porém, os cristãos são os únicos que oferecem uma idéia de como seria esse ser que está além da personalidade. Todas as outras pessoas, apesar de dizerem que Deus está além da personalidade, na verdade concebem-no como um ser impessoal: melhor dizendo, como algo aquém do pessoal [o natural, a natureza, o cosmo?]. Se você está em busca de algo suprapessoal, algo que seja mais que uma pessoa, não se verá obrigado a escolher entre a idéia cristã e as outras idéias, pois a idéia cristã é a única existente no mercado.”

Voltando ao assunto (se quiser, leia o P.S. antes de voltar ao assunto), você pode perder o condicionamento ateu de várias formas. Pode, por exemplo, começar a gritar por aí, como um idiota, que Deus é maravilhoso (descondicionamento bobo-alegre-de-cérebro-lavado). Como perder o condicionamento ateu da maneira certa?

Criei o título de um livro de auto-ajuda.

Mas sério. Como perde-lo emocionalmente? Eu já o perdi intelectualmente. Mas, embora muito me apraza a leitura da Bíblia, não consigo lê-la em voz alta, muito menos para outras pessoas. Em outras palavras, como perder, de uma só vez, o próprio ateu-condicionamento e o trauma de viver entre milhões de ateu-condicionados (que provavelmente rirão de mim ao ouvir-me falar de Deus, ou pensarão em mim como um “bíblia” de quinta)?

Ou: Como ser um cristão sério hoje, sem se isolar da multidão?

Mas este desafio eu deixo para muito depois. Tem que ler muito Santo Tomás para agüentar lidar com os bárbaros, ainda mais quando estes estão dentro da própria Igreja (que Deus me perdoe).

Pelo menos eu gosto de falar “cruz credo!”

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P.S.: É brilhante a maneira como Lewis explica o mistério, digamos, da “reabsorção em Deus”. Se somos capazes de conceber um cubo como um conjunto de quadrados e, ao mesmo tempo, sabemos que ele é algo além disso, como não seríamos capazes de conceber a Deus como um conjunto de pessoas e, ao mesmo tempo, algo além disso? E, da mesma forma que os quadrados não perdem sua “consciência” de quadrados só por estarem “dentro” de um cubo, nós, ao nos integrarmos a Deus, não perderemos nossa consciência individual.  Isso diz respeito àquela dúvida: não perderemos nossa personalidade quando nos integrarmos a Deus após a morte? Veja: “Na dimensão de Deus, por assim dizer, encontramos um Ser que são três pessoas sem deixar de ser um único Ser, da mesma forma que um cubo são seis quadrados sem deixar de ser um único cubo.” E, através de Jesus, que era como nós (Deus não é exatamente como nós), podemos nos deixar atrair para dentro dessa vida tripessoal. Mas essa é uma outra história, que nem entendi bem ainda.

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