Ali, mas alhures

A foto do “header” deste blog foi tirada, como a anterior (o leitor há de lembrar-se daquela), na estrada que leva de São Paulo ao Litoral. A razão por que crio, com a substituição, uma espécie de tradição de fotos tiradas lá é simples: este lugar aqui é, como aquela estrada, ou aquelas estradas, um não-lugar. E todo não lugar é um jardim onde habitam todos os outros não lugares imaginados e imagináveis, é a casa de alhures.

Em alguns não-lugares, habitam pessoas. Em Cubatão, lugar quase etéreo, embora tão concreto em sua poluição densa, moram pessoas. Custo a aceitar essa idéia, mas é verdade. Cubatão, para mim, é uma espécie de limbo purificador. Por ali passam todos os espíritos urbanos que rumam à pureza litorânea. Passando por ali, antes de chegar ao paraíso, ainda devem se lembrar de tudo o que é negativo e sujo. Aqueles dois grandes mastros, na verdade chaminés, no alto dos quais habita uma chama eterna, guardam para mim significados quase infinitos.

Sei que o que digo é injusto, pois, para quem mora lá, a coisa é bem diversa e, provavelmente, nada poética. Mas Cubatão para mim é uma metáfora.

Quanto à foto atual, ainda estávamos no alto quando minha mulher a tirou. É um lampejo fugidio de uma paz meio esquisita, o que sentimos ao descer a Imigrantes, entre um túnel e outro. Parar o carro ali é quase um sacrilégio. O Estado o proíbe. Mas, acima dessa proibição, há uma outra maior. Parar ali é sair de um estado de suspensão imaginativa e entrar no mundo. Às vezes me imagino andando por ali, descendo algum caminho para dentro da mata, pegando nas coisas, cheirando-as, deitando-me no asfalto, saboreando a concretude recém-adquirida de uma paisagem inalcançável. A Rodovia dos Imigrantes é um símbolo de como o homem desbrava mas não se apossa de nada. O homem passa, mas não fica. E pior, passa e, por passar, acha que se apossou. Como se o pertencimento a um lugar se gerasse tão facilmente.

E imagino então como terá sido a experiência de alguém que, por anos fio, trabalhou ali todos os dias, em cada curva, reta e túnel.

Terá sido como morar em lugar nenhum? Provavelmente terá sido apenas nada, pois esses lugares de alhures preservam-se através de algum poder etéreo que impede os homens de descobri-los, tirando destes toda capacidade de ultrapassar a barreira.

Mas hei de um dia deitar-me ali e olhar para o céu, embora tenha medo de fazê-lo e descobrir algo, ou não descobrir nada.