A arte da enrolação

Enrolar para resolver as coisas é algo espontâneo, e é como uma arte. Nos dias de hoje, quase uma necessidade. Quanto mais coisas você faz, mais coisas há por fazer. Se você tem 20 pendências por resolver e resolve 10, aparecem mais dez. Se você não resolve nada, continua com 20, ou talvez com 23. É uma lógica maluca, mais ou menos como a lógica do saque. Se você tem 20 reais e saca 100 reais, gasta 120 reais em uma semana e tem de sacar mais. Se você não saca nada, passa a semana inteira gastando lentamente os 20 reais que tem, até acabar e você ter de sacar mais. Por que isso? Porquê, como já dizia sei lá quem, dinheiro na mão é vendaval.

Não estou fazendo a apoteose da inércia. Bem, só um pouquinho de inércia não faz mal a ninguém. Mas o caso é que a vida tem de ser gasta em doses homeopáticas.

Aliás, a vida também tem uma lógica meio louca. A lógica normal seria: se você gosta da vida, então prefere usufruir dela aos poucos, para que passe devagar. Mas nem sempre é assim. Às vezes é usufruindo dela devagar que descobrimos que gostamos dela.

Também é perigoso dizer que não se gosta da rapidez. Eu, por exemplo, não gosto de fazer muitas coisas rapidamente, como ir a uma loja, ao supermercado, pegar a roupa na lavanderia, almoçar, ir ao médico, tudo isso em um intervalo de 2 horas. Mas, quando estou sentado em frente ao computador, faço tudo vertiginosamente. Leio notícias, faço downloads, escrevo e-mails, navego por sites, tudo muito rápido.

Então talvez o problema não seja a rapidez. Talvez meu cérebro é que goste de velocidade? Talvez não, porque também adoro ler um livro vagarosamente. Talvez seja um problema com tarefas físicas? Não, porque gosto de viagens longas de carro e de jogar tênis.

Só sei que sinto muita preguiça diante de alguma série iminente de eventos. Quando começo a fazer algo, gosto e vou adiante. O problema é começar. Talvez por isso a preguiça seja um pecado. Pecados não têm explicação. Você simplesmente os deseja.

Tem gente, por exemplo, que tem preguiça de ler. Tem gente que tem preguiça de escrever. Eu, por exemplo, de fato já estou ficando com preguiça de escr

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Palavras trocadas

Minha mulher gosta de usar palavras com sentido inexato.

Quando você faz algo ruim para alguém, você pede desculpas e, para saber o que pode fazer em troca, pergunta: “Como posso me retaliar?”

Ou então, diz que tem “várias pendengas para resolver”.

Ou diz que sua irmã deixa um “lastro de destruição” por onde passa.

Ou ainda, que o tabuleiro precisa ser “embalsamado” antes de colocarem-se os pães de queijo nele para assar.

E tem outras, mas ela não está conseguindo lembrar agora, porque tem um infeliz cortando granito no prédio ao lado.

It’s raining again

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Sempre que chove e estou em casa sinto uma alegria imensa. Tem a ver com não tomar chuva, estar a salvo, é claro. Mas vai além. Não sei bem o que é, mas está próximo de um estar-a-salvo metafísico. A experiência de um lugar mais aconchegante que outro deve ser uma cópia efêmera da experiência de “chegar ao céu”.

Enquanto não chego, fico sentado nessa poltrona aí.

Ali, mas alhures

A foto do “header” deste blog foi tirada, como a anterior (o leitor há de lembrar-se daquela), na estrada que leva de São Paulo ao Litoral. A razão por que crio, com a substituição, uma espécie de tradição de fotos tiradas lá é simples: este lugar aqui é, como aquela estrada, ou aquelas estradas, um não-lugar. E todo não lugar é um jardim onde habitam todos os outros não lugares imaginados e imagináveis, é a casa de alhures.

Em alguns não-lugares, habitam pessoas. Em Cubatão, lugar quase etéreo, embora tão concreto em sua poluição densa, moram pessoas. Custo a aceitar essa idéia, mas é verdade. Cubatão, para mim, é uma espécie de limbo purificador. Por ali passam todos os espíritos urbanos que rumam à pureza litorânea. Passando por ali, antes de chegar ao paraíso, ainda devem se lembrar de tudo o que é negativo e sujo. Aqueles dois grandes mastros, na verdade chaminés, no alto dos quais habita uma chama eterna, guardam para mim significados quase infinitos.

Sei que o que digo é injusto, pois, para quem mora lá, a coisa é bem diversa e, provavelmente, nada poética. Mas Cubatão para mim é uma metáfora.

Quanto à foto atual, ainda estávamos no alto quando minha mulher a tirou. É um lampejo fugidio de uma paz meio esquisita, o que sentimos ao descer a Imigrantes, entre um túnel e outro. Parar o carro ali é quase um sacrilégio. O Estado o proíbe. Mas, acima dessa proibição, há uma outra maior. Parar ali é sair de um estado de suspensão imaginativa e entrar no mundo. Às vezes me imagino andando por ali, descendo algum caminho para dentro da mata, pegando nas coisas, cheirando-as, deitando-me no asfalto, saboreando a concretude recém-adquirida de uma paisagem inalcançável. A Rodovia dos Imigrantes é um símbolo de como o homem desbrava mas não se apossa de nada. O homem passa, mas não fica. E pior, passa e, por passar, acha que se apossou. Como se o pertencimento a um lugar se gerasse tão facilmente.

E imagino então como terá sido a experiência de alguém que, por anos fio, trabalhou ali todos os dias, em cada curva, reta e túnel.

Terá sido como morar em lugar nenhum? Provavelmente terá sido apenas nada, pois esses lugares de alhures preservam-se através de algum poder etéreo que impede os homens de descobri-los, tirando destes toda capacidade de ultrapassar a barreira.

Mas hei de um dia deitar-me ali e olhar para o céu, embora tenha medo de fazê-lo e descobrir algo, ou não descobrir nada.

Convertendo

Encontrei uma palavra para me definir religiosamente. (Ateu? Agnóstico? Crente?)

Sou um “convertendo”. Há anos. Não sei quando acabará.

Na pp. 221-222:

“(…) vamos tratar de uma dificuldade geral que certas pessoas encontram para orar. Um homem resumiu para mim a situação: ‘Acredito em Deus, mas não consigo engolir a idéia de que atenda a centenas de milhões de pessoas que se dirigem a ele num mesmo momento’. E constatei que muita gente pensa do mesmo modo.”

Quem dera fosse essa a minha dificuldade. Para não conseguir entender o conceito de eternidade, é preciso muita falta de imaginação. Minha dificuldade está em que sinto uma impressão de que a oração é, por assim dizer, um tipo de “peça literária” meio pobre. Eu me sinto um pouco bobo, burro e robótico quando rezo. Gostaria que as orações fossem menos automáticas e repetitivas. Gostaria que fossem mais como os salmos e menos como o Pai Nosso.

Também sinto vergonha, mas isso eu acho que é uma espécie de condicionamento ateu. Aliás, este seria um tema prolífico: o conceito de condicionamento ateu (algo como: “sentimento automático de vergonha por suposta inferioridade intelectual, quando do ato de falar de Deus”) e os diversos tipos de condicionamento.

Se bem que a vergonha também vem de uma espécie de sentimento de que usar a palavra Deus para me referir a esta entidade que nem sequer entendemos é muito primarismo. Sinto-me um pouco beata ao faze-lo. Por outro lado, tenho plena consciência de que a solução não é dizer que Deus é o Universo, “a totalidade das coisas”, ou qualquer outra dessas idéias semi-materialistas típicas das pseudo-religiões e pseudo-filosofias. Vejamos (o que está entre colchetes é meu, viu?):

“Hoje em dia, um bom número de pessoas [esotéricos?] diz: ‘Acredito em Deus, mas não num Deus pessoal.” Elas pressentem que o mistério por trás de todas as coisas deve ser maior que uma pessoa. Os cristãos concordam com isso. Porém, os cristãos são os únicos que oferecem uma idéia de como seria esse ser que está além da personalidade. Todas as outras pessoas, apesar de dizerem que Deus está além da personalidade, na verdade concebem-no como um ser impessoal: melhor dizendo, como algo aquém do pessoal [o natural, a natureza, o cosmo?]. Se você está em busca de algo suprapessoal, algo que seja mais que uma pessoa, não se verá obrigado a escolher entre a idéia cristã e as outras idéias, pois a idéia cristã é a única existente no mercado.”

Voltando ao assunto (se quiser, leia o P.S. antes de voltar ao assunto), você pode perder o condicionamento ateu de várias formas. Pode, por exemplo, começar a gritar por aí, como um idiota, que Deus é maravilhoso (descondicionamento bobo-alegre-de-cérebro-lavado). Como perder o condicionamento ateu da maneira certa?

Criei o título de um livro de auto-ajuda.

Mas sério. Como perde-lo emocionalmente? Eu já o perdi intelectualmente. Mas, embora muito me apraza a leitura da Bíblia, não consigo lê-la em voz alta, muito menos para outras pessoas. Em outras palavras, como perder, de uma só vez, o próprio ateu-condicionamento e o trauma de viver entre milhões de ateu-condicionados (que provavelmente rirão de mim ao ouvir-me falar de Deus, ou pensarão em mim como um “bíblia” de quinta)?

Ou: Como ser um cristão sério hoje, sem se isolar da multidão?

Mas este desafio eu deixo para muito depois. Tem que ler muito Santo Tomás para agüentar lidar com os bárbaros, ainda mais quando estes estão dentro da própria Igreja (que Deus me perdoe).

Pelo menos eu gosto de falar “cruz credo!”

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P.S.: É brilhante a maneira como Lewis explica o mistério, digamos, da “reabsorção em Deus”. Se somos capazes de conceber um cubo como um conjunto de quadrados e, ao mesmo tempo, sabemos que ele é algo além disso, como não seríamos capazes de conceber a Deus como um conjunto de pessoas e, ao mesmo tempo, algo além disso? E, da mesma forma que os quadrados não perdem sua “consciência” de quadrados só por estarem “dentro” de um cubo, nós, ao nos integrarmos a Deus, não perderemos nossa consciência individual.  Isso diz respeito àquela dúvida: não perderemos nossa personalidade quando nos integrarmos a Deus após a morte? Veja: “Na dimensão de Deus, por assim dizer, encontramos um Ser que são três pessoas sem deixar de ser um único Ser, da mesma forma que um cubo são seis quadrados sem deixar de ser um único cubo.” E, através de Jesus, que era como nós (Deus não é exatamente como nós), podemos nos deixar atrair para dentro dessa vida tripessoal. Mas essa é uma outra história, que nem entendi bem ainda.