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Archive for May, 2007

Somos sempre os de sempre.
Não desertamos nada.
Medimos, frente a frente,
o mesmo gosto frágil
de saber que, no fundo,
puro sopro amputado,
falta, acordo de nuvens,
o que sempre faltara.

(Bruno Tolentino)

Pronto. Aqui estamos. Mais egoisticamente, aqui estou. Há dez anos saí de Brasília e fui parar em Belo Horizonte. Há quatro, fui, fomos (eu e minha mulher, meu amor), para São Paulo. Agora, fomos parar em Porto Alegre. Sempre por opção, sempre por incerteza, fomos descendo o mapa em busca de uma cultura em que nos sentíssemos mais à vontade, na medida, oh ínfima medida, em que isso é possível. Escolhemos aqui, mas está frio, literal e metaforicamente. Meu coração deixou pedaços pelo caminho. Família, amigos, lembranças, perdas, impossibilidades. Ah, malditas impossibilidades! Gostar de um lugar, mas não gostar. Querer ficar, mas não poder, por algum motivo insondável que transforma a cultura em algo insuportável. No fim, é tudo uma fuga. Preciso aprender a transformar a fuga num ficar, criar raízes, sentir-se em casa. Não me sinto em casa em lugar nenhum, nem sei dizer se, caso fechasse o percurso e voltasse ao ponto de origem, sentir-me-ia melhor em uma quantidade significativa de aspectos.

Falta dados neste textinho: pessoas mal-educadas, ignorância altiva, ruas sujas e feias, poluição atmosférica, visual e sonora, fios e mais fios, postes e mais postes. Devo admitir que, no caso de São Paulo, conheci pessoas mais bonitas, carinhosas e fraternas que a cidade.

Aqui estou satisfeito com as pessoas, com a cidade. Mas não tenho quase amigos, e meus parentes estão em Brasília. Meu coração está dividido, e começo a achar que sempre esteve.

O coração nasce dividido? Ou é só o meu? Sou só eu que tenho crises de choro e cólica por dias, toda vez que me mudo de cidade? É como se eu descobrisse que o trabalho que se empreende em busca da felicidade deve ser interior.

E esse medo de criar raízes? E esse medo de não ter a liberdade de mudar, sair, viajar? Compramos uma cachorrinha e o medo apareceu. Sei que agora sempre sentirei saudades de mais alguém quando não estiver ao lado dela. E tenho medo de preocupações. Sempre tive.

Agora lendo estas linhas, sinto-me, contudo, ridículo. Um amigo meu queria se mudar para Curitiba. Foi para lá a trabalho e teve uma crise semelhante à minha. Teve de voltar para São Paulo e agora quer voltar para o ponto de partida: Brasília. Jamais me esquecerei do que ele disse: “Nossa geração é fraca”. De fato! Imagino meus pais saindo do meio do mato em Minas Gerais e indo parar em Brasília, com filhos e sem dinheiro. Imagino também aqueles judeus cruzando oceanos. Então penso: como pode um ser humano chorar porque mudou de cidade, ter medo do frio, sentir-se inseguro porque comprou um cachorro e ter o coração partido porque mora a duas horas de avião dos pais?

Ler poesia me deixou sentimental. Isso é ruim, mas é bom. Como tudo o mais… Amadurece. Faz pensar que a vida é um grande choro de bebê. Quando o bebê parar de chorar, estará tudo acabado.

Só que agora eu quero chorar baixinho por um tempo. Sem muito movimento. Como se diz aqui no Rio Grande: chorar nos cantinhos.

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Uma data especial

Ontem fez dez anos que eu e minha musa estamos juntos. Ficamos noivos também ontem; e, em homenagem à ela, escrevi este poema.

Noivos

A imagem insistente do azul simples, do branco
e das sandálias de plástico da juventude,
o sopro tranqüilo do primeiro beijo, brando
e cálido como a corrente a que o mar acode

para chegar à infinita praia do presente
constroem dia a dia uma história que é quimera
e ainda outra que não se sabe nem se sente,
que é apenas linda à medida que se desvela.

Esta história, que traz o amor aos cantos e leva
a canção embora de um rumo a outro, tem pressa
como as vãs cidades insones, mas já pressente

um desejo de terra firme, de cantar essa
música em outro tom; cansou-se do som inerte
que passa, e quer dançar no fogo da tradição.

Quer cingir de anéis essa união de fogo e terra.

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