Morador de Alhures

Começo a pensar que o nome deste blog é mais adequado à minha pessoa do que eu pensava quando o criei. Não me sinto morador de cidade nenhuma, pertencente a lugar nenhum. Às vezes sinto-me muito em casa onde estou, às vezes muito estranho.

Acho que sou um morador de Alhures.

Outra coisa: gosto de pensar em nomes de blogs. E, de tanto ver os posts deste aqui sem comentários, pensei  que o título “No comments” seria bem legal para um blog.

Dia 1

Chegamos. A cadelinha late para tudo que escuta, pois está estranhando o ambiente. Não nos deixou dormir até tarde, mas fiquei feliz com isso, porque dormir muito é uma faca de dois legumes.

Tudo em Brasília é diferente de Porto Alegre. Desde a temperatura, até uma espécie de “sensação” visual que não sei descrever direito. Porto Alegre tem cara de outono, e Brasília tem cara de verão. Acho que é isso.

Inexplicavelmente, aqui tenho mais vontade de ler do que lá.

Senti vontade de colocar um parêntese nos legumes. Uma faca de dois (le)gumes.

Para brincar com as potencialidades do campo polissêmico da palavra escrita, ou algo assim. Essa eu li num folheto da Fnac, mas não lembro direito. Lá estava mais ininteligível. Eu não consigo ser tão ininteligível quanto era quando estava na faculdade.

Moradas impossíveis

Para um cara como eu, que tem preguiça de sair de casa e de experimentar novidades (se bem que já experimentei mais destas do que quase todo mundo que conheço; as pessoas em geral levam uma vida muito, muito normal), o diário de uma viagem começa no dia -1, a véspera. Este é o dia em que fico “nervoso”, ansioso, com preguiça por imaginar o tanto de coisas que terei de fazer no dia seguinte.

Então vem o dia 0, que é hoje, o dia de viajar. Fico ainda mais ansioso e desanimado. Mas, na hora que eu estou dentro do avião, gosto da sensação. Quando chego então, aí é que a coisa fica boa mesmo. Fico com vontade de não voltar mais.

Na verdade, sou um morador múltiplo, e não um viajante. Conheço muitas pessoas que viajam para uma cidade ou um país, ficam visitando lugares vertiginosamente e depois voltam felizes da vida, já ansiosos por chegar em casa. Eu não sou assim. Durante o tempo em que estou nos lugares que visito, eu moro nestes. E depois me sinto triste por isso não ser realidade. Eu queria de fato morar em vários lugares. Queria ter casas e apartamentos, não daquele tipo que fica abandonado e com cheiro de mofo, mas do tipo que tem as suas coisas todas, sabe? Uma impossibilidade, enfim.

Alhures University Press

De tanto traduzir, estou aprendendo mais o inglês e já leio com muito mais desenvoltura nessa língua. Mas também estou desaprendendo a escrever.

Explico-me melhor. Para traduzir bem os livros que traduzo, que são de humanidades, escritos por professores universitários americanos, preciso adotar o português que se escreve nas universidades. E este é insosso, de má qualidade, repleto de expressões vazias. Então, já percebi que estou escrevendo de modo diferente no dia a dia.

Preciso me esforçar avidamente para evitar isso. Preciso apertar meu cérebro para mantê-lo alhures.

Pequena homenagem

Gostaria de homenagear um cara que não conheço pessoalmente, mas que é meu leitor há muito tempo. Não sei por quê, ainda não tinha colocado o link dele lá no Agonizando, apesar de eu sempre entrar em seu blog também.

Enfim, um abraço, meu caro amigo invisível, Claudio!

Parafraseando o título do seu blog e, de quebra, o Arquivo X, aquele seriado kitsch sensacional, “The truth is out there”.

Vontade

Às vezes não é fácil ser parte de um casal. Há horas em que um quer fazer uma coisa e o outro não quer; há horas em que os dois querem a mesma coisa, mas um não pode, porque tem outra coisa para fazer.

Também não é fácil ter um cachorro. Às vezes você fica com a impressão de que tudo o que você faz o deixa infeliz. A situação ideal para um cachorro é aquela em que todos os habitantes da casa estão em casa o tempo inteiro.

Na verdade, não sei lidar muito bem com a frustração alheia. E as pessoas geralmente não se importam com isso, o que piora ainda mais minha situação, porque eu me importo. Muitas vezes eu fico frustrado com alguém, mas penso duas vezes antes de demonstrar isso. E sempre tenho a impressão de que os outros não têm essa preocupação.

Também não sei lidar muito bem com o excesso de querer. Muitas das coisas de que gosto, contento-me com gostar delas apenas, sem querer tê-las pra mim, ou fazê-las. Não sou um ser muito movido pela vontade. E isso pode parecer estranho. Existe algo mais aparentemente verdadeiro do que a frase “é preciso fazer as coisas com vontade”? Pois é, mas não acho que seja bem assim, pois a vontade tem medida. Logo, a frase está incompleta. O certo seria: “É preciso fazer as coisas com a quantidade de vontade suficiente para fazê-las, e tirar disso um certo prazer.” Ou, o que é ainda mais importante, a vontade tem qualidade: “É preciso fazer as coisas com a quantidade de vontade suficiente para fazê-las, e tirar disso um certo prazer. Ademais, essa vontade tem de ter certas características apropriadas para a coisa que se quer fazer.” Não adianta ter vontade de fazer xixi em pé no frio, e ir fazer pão de queijo sentado em um lugar quente. O que estou falando pode parecer ridículo. Mas tem pessoas que saem por aí fazendo qualquer coisa, simplesmente porque estão com vontade de fazer alguma coisa que não sabem o que é. Isso costuma ser chamado de ansiedade, falta de “foco” etc etc.

Dor suprema

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Não acho que o inferno seja um caldeirão fervente. Acho que está mais para um sentir eterno de dor de cabeça. Imagine sua testa palpitando por toda a eternidade e terá uma mínima noção (a única de que nossa reles mente é capaz) da dor suprema. Então tome chá com coca-cola e fique acordado por 5 dias seguidos etc etc etc.

Polha sonolenta

Fiz um ensaio fotográfico da minha repolha. Era de manhã, e ela estava sonolenta e com preguiça de se levantar quando fomos acordá-la. Então eu comecei a sessão de fotos e ela se empolgou. Eu a dirigia e ela fazia poses, se contorcia em posições comprometedoramente fofas. Um arraso, enfim. Vai sair na Playdog de setembro.