Um mundo

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Lá fora está fazendo muito calor. Às 10 da manhã eu me cansei disso. Então fechei todas as janelas e liguei todos os aparelhos de ar condicionado da casa. Às vezes tenho a impressão de que o calor é mais do que suficiente para explicar o subdesenvolvimento. Ele provoca um estado de letargia que nos deixa incapacitados para fazer qualquer coisa. O único problema é que a letargia não é a única característica de um cidadão subdesenvolvido. Outras coisas também entram na jogada, como inveja, orgulho de ser ignorante, “esperteza”, sentimento de desvantagem etc etc.

Mas me perdi. Volto ao assunto. A volta do meu bem-estar despertou em mim aquele espírito dos meus melhores momentos. Estar em casa, sentado na frente do computador, um livro ao lado para traduzir, um jazz tocando baixinho; isso é um mundo pra mim. Nesse mundo sou feliz por breves momentos. Tenho o controle de tudo nas mãos. Eu decido com quem me comunicarei ou não. Eu decido que frase ficou boa ou não. Lá fora as pessoas correm loucamente, compram, trabalham, fumam, buzinam, desprezam música boa, levam a sério coisas idiotas, acham que têm razão. Aqui nada disso importa. Aqui elas são os outros e estão muito, muito distantes.

Aliás, o outro é uma das coisas mais incríveis que existem. O outro é um eu e, como tal, se acha o centro do mundo. Para os outros, porém, esse eu é só um outro a mais. Um nada, portanto. Se tivéssemos a mais mínima consciência de nossa condição de “outro”, deveríamos sair por aí pedindo desculpas a todos por existir. Mas é claro que eu não vou fazer isso! Mesmo porque os outros são uns idiotas. Então quem merece minhas desculpas?

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